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O GATO CONSAGRADO

Foi a primeira vez que entrei na casa de Dionísia. Perdi-me no cômodo que lhe servia de cozinha, de quarto de dormir, de sala e ainda abrigava uma infinidade de imagens de santos e de gatos. Não pude calcular quanto gatos vi, enroscados por todo lado, espreguiçados no sofá, na cama forrados de mil xales de mil cores e de mil miçangas. Vi gatos andando e miando pra lá pra cá. Nesse dia, Dionísia não fora a igreja. Nem no dia anterior. Encontrei-a caída num tapete de mil retalhos, misturada com os gatos, molhada de urina, de suor e com o corpo quente de febre. Pode ser que os gatos lambiam seu rosto na intenção de fazê-la refrescar. Ou para fazê-la sair daquele torpor. A moradia ficava num beco na periferia da cidade, cercada de mato e de algumas plantas floridas, que poderiam ter sido trazidas de sobras de ornamentação da igreja. Nenhum vizinho próximo.
Gatos causam-me uma sensação de estranheza. Repugnância? Uma gastura. Pode ser. Como a porta estava destrancada, entrei. Precisei pedir licença aos gatos para levantar a Dionísia do chão. Precisava pedir ajuda, alguém para me ajudasse a carregá-la até o carro. Não sei como, nem de onde, surgiu o mudo com seus trejeitos. O mudo que vivia vagando pela cidade, que não perdia cerimônia alguma da igreja. Teria me seguido. Pode ser. Bendita a hora em que ele resolveu me bisbilhotar. Custando a firmar a mão inquieta desde a nascença, ele fez sinal de que deveríamos levantar a mulher desacordada e sair com ela dali. Quando a deitamos no banco traseiro, o mudo, ligeiro, sentou-se no banco da frente, bateu a porta do carro e abotoou o cinto. Dali, olhei a casa, tentando apreender o que havia visto lá dentro. Imagens de todos os santos, velas de cores várias, umas acesas, outras não. Terços pendurados em jarras com flores já murchas, cruzes enfileiradas de alto a baixo nas paredes que nem pareciam ter cor. Um cheiro morrinhento, que nunca esqueci. O banheiro........ a rude cabana coberta de palha do lado da casa? Os gatos. De mais várias raças, cores, tamanhos, textura de pelos........ Todos pareciam me ameaçar, miando alto. Quereriam dizer-me algo, quando fechei a porta da casa? Não sei se tinha pressa de socorrer a mulher ou de me ver livre daquela casa gato-assombrada. As velas acesas.......Voltei para apagá-las. O receio era que se perdessem os arranjos daquela casa.
Foram dias de hospital. A Dionísia, de olhos fechados, aparelhos ligados para manter-lhe a vida. Numa manhã de ventania, creio que no décimo dia, quando fui fazer-lhe a visita diária, peguei-lhe a mão como sempre fazia e senti um ligeiro movimento, que me pareceu um afago, que se estendeu por todo o meu braço. Estaria ela a acarinhar um de seus gatos? Não sou um deles........ Gritei para enfermeira que a doente reagia. Dias após, ao aparentar-se curada, apesar de seu rosto mais ossudo, cabelos mais bancos, desgrenhada, foi levada para casa na ambulância. Não quis acompanhá-la. Temia........ Os bichos haveriam morrido de fome........ O cheiro. Aquela casa adornada de tudo, estaria exalando pior cheiro........ Uma enfermeira de família acompanhou- a. Levou-lhe junto roupas limpas, frutas, legumes e outros alimentos. Os funcionários do hospital ofereceram-lhe também um vaso com flores, com os votos de um breve restabelecimento.
Dois dias depois de voltar a casa, Dionísia foi à missa. Assentou-se no mesmo lugar de sempre, acompanhou as orações com a voz desentoada de sempre e foi receber a comunhão. Desta vez, sem pressa. Como se a possibilidade de ser a primeira da fila não mais lhe importasse. Observei-a voltando da comunhão, desconfiada, segurando a ponta do cachecol entre as duas mãos. Na noite seguinte, aconteceu do mesmo jeito e eu estranhei........ Estaria se escondendo? Escondendo? Ela sempre tivera urgência para comungar. No terceiro dia, na igreja, achei-a um pouco triste, como que desolada. Pensei que podia estar com fome, teria ela dado toda a comida aos gatos? Deveria ter ficado mais tempo no hospital? Quando ela saiu, apertando a ponta do cachecol entre as mãos, resolvi segui-la. Dionísia era-me uma incógnita, desde que eu chegara na cidade, há dois meses. Não sei dizer o motivo real que me levou lá na casa dela, naquele dia em que a encontrei desmontada no chão, como que emergindo de um lago de gatos........ Segui seus passos curtos e apressados. Ainda bem que a iluminação da cidade é fraca e ela, nem uma vez, olhou para trás. Quando chegou na trilha de terra que leva à sua casa, parei e esperei que entrasse. Devagar, ela abriu a porta da casa. Uma porção de gatos, num só miado, vieram-lhe lamber os pés, as pernas. Sem olhar para fora, ela encostou a porta. Aproximei-me da única janela. Pelas frestas, vi que havia acendido alguma vela. Corri até janela e pude espreitar o que acontecia lá dentro. No altar mais cheio de imagens, Nossa Senhora Aparecida, São Judas, Santa Rita, São Jorge, Padre Cícero e alguns anjos alados, outros não, estava deitado um enorme gato escuro, peludo. Dionísia caminhou em direção ao altar e desdobrou o cachecol. Pude ver que tirou alguma coisa branca da dobra. Ao redor de suas pernas, alguns animais miavam, como se lhe pedissem colo. Imaginei que o gato escuro de cima do altar estivesse morto, mas quando ela o acarinhava, ele se moveu. Vi que ela levantou a cabeça do gato e abriu-lhe a boca para oferecer-lhe a coisa branca que havia tirado da dobra do cachecol. Então, pude perceber que a mulher empurrava na boca do gato enorme, a hóstia que havia recebido em comunhão. Um ruído de folhas a meu lado me fez perceber a presença do mudo, agitado, repetindo os gestos da sagrada comunhão.
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22:07:46