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Lindolfo Xavier, cidadão de Pará de Minas
que conviveu com Machado de Assis – parte 2
Venho trazer ao leitor mais algumas das impressões que o professor, jornalista e escritor, Lindolfo Xavier, nascido em Pará de Minas, em fevereiro de 1876 e falecido no Rio de Janeiro deixou registradas, após conviver com o escritor Machado de Assis em 1907 e 1908. Para lembrar: Linfolfo Xavier trabalhou no Ministério de Viação no Rio de Janeiro, em 1907-1908, ao lado de Machado de Assis, quando este era diretor geral de Contabilidade daquele ministério.
A respeito das horas de lazer do escritor e colega de trabalho, que Lindolfo classificava como ‘fenômeno’, ele conta: “Na casa dos Barões de Vasconcelos, mantinha o poeta das Falenas o hábito de freqüentar o jogo familiar do besigue, do xadrez, do gamão, do Main-Jaune, do sete e meio, das damas. Aparecia, invariavelmente, às 8 da noite, com Carolina (a esposa), que não jogava: batalhava com as cartas e com os tentos, ou com as pedras, discutia, gaguejava, retardão: gostava de ganhar sempre, mas não era de jogo de dinheiro. Às 11horas retirava-se com Carolina.”
Durante a última conversa que Lindolfo teve com Machado de Assis, em 1908, esta presente também p escritor Artur Azevedo. Falavam de Afonso Arinos, autor que retratava em seus textos os sertões brasileiros. Lindolfo, então, contou a Machado sobre algumas ocasiões típicas de Minas: as festas de “acabamento de capina” que aconteciam nas margens do rio Paraopeba, no município de Pitangui; os batuques na Fazenda do Junco, nas regiões de Pompéu, comemorações que demonstravam a alegria primitiva e rude das violas, dos sapateados, das embigadas e também no aboio do gado. Segundo Xavier, teria Machado agradecido por aquele momento de reminiscências do sertão de Minas, acrescentando: “Há tanto entusiasmo nessa vida selvagem!”.
Sobre os últimos momentos de vida do escritor, Lindolfo comenta: “Trabalhou até bem perto do término de seus dias. A lucidez acompanhou-o sempre, a ponto de só se afastar dos deveres para dar o mergulho na eternidade”.
Em “Machado de Assis, no tempo e no espaço”, Lindolfo Xavier transcreve parte da sua crônica que foi publicada no “Jornal do Brasil”, em 11 de outubro de 1908, segundo ele mesmo, logo após o “trespasse” Machado, ocorrido em 29 de setembro de 1908. É um texto que revela a grande emoção de sua convivência com o grande autor e que também nos revela traços da grandeza de sua obra:
“ Um coração parou. Parou de pulsar um engenho sublime, que foi feito para arquitetar construções de altos estilos e de primorosas linhas. Gelou-se o cérebro que iluminou meio século das letras brasileiras. Muitos não o leram. Poucos o conheciam. Mas, para quem o lera com atenção e carinho, recolhendo as rosas de seu estilo, e com ele convivera em grato labor, como aconteceu com a pessoa que está escrevendo estas linhas, a parada desse cronômetro é qualquer coisa de extraordinário.
Desse convívio ficou admiração dobrada e saudade legítima. Tanta grandeza, quanta lhaneza; tanta modéstia, quanto valor!
O culto, que se vai iniciar, a grande consagração ‘post-mortem’, única legítima e real, dirá sobre o juízo da posteridade. Mas, nós, seu contemporâneos, antecipamos o juízo dos pósteros, lançando sobre a lápide rosas e jasmins, lírios e loiros, símbolos do afeto e da glória.
A morte, que o colheu, na entrada do décimo septenário de vida de vida, trouxe, para justificá-la do dano que vinha causar às letras brasileiras e aos seus amigos, as duas seguintes razões: 1a. a senectude; 2a. a obra terminada.
E ele aceitou essas razões, acrescentando, talvez, outra maior: a viuvez.
Certo dia, em nome do titular da pasta de Viação, quem estas linhas escreve fora levar ao escritor enfermo uma visita de especial carinho e apreço, com os votos do pronto restabelecimento ao emérito servidor do Estado e tão grande nome das letras brasileiras.
Ao ouvir os votos que o Ministro, por nosso intermédio, formulava e que nós, vários amigos presentes, secundávamos, de longa vida e saúde, o escritor volveu, num tom de infinita melancolia:
_ Ah!, Sim. E a dor de viver?...
Esta frase expressiva ouvira-se-lhe dos lábios, muitas outras vezes, no último período da sua enfermidade. Todavia, esse estado de alma, que durou por quatro meses, desde que seus sofrimentos se agravaram, não impediu que, nos últimos momentos, quando, de fato, a sombra se lhe vinha baixando sobre os olhos, ele exclamasse, perante os seus mais íntimos amigos:
_ Tenho saudades da vida!...”
Outras palavras de Machado que Lindolfo registrou na sua crônica ‘post-mortem’:
“_ Um livro, respondeu-nos Machado de Assis, é uma coisa muito séria. Quando se começa a escrevê-lo, é uma empresa que se não deve deixar no meio. E quando temos a certeza de não o poder acabar, não o devemos começar.”
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Grande Machado! Encantou tanto as gerações ávidas de sua leitura, deu-lhes tanta fantasia leve, em estilo de doce ironia, que jogava parelhas com as páginas fulgurantes de Eça de Queiroz, de quem era irmão na beleza, na precisão da forma rebuscada, cheia de novidades e de surpresas!
Na língua portuguesa, ao lado de Garret, Castilho, Herculano e Ramalho, ficam os dois, o autor dos Maias e ou autor de Braz Cubas, como os magos dotados de poder sobrenatural, para encantar-nos e inebriar-nos as horas com a suprema delícia de sua leitura”.
Ao leitor, digo que ainda há mais revelações sobre o ponto de vista de nosso conterrâneo Lindolfo Xavier a respeito da vida e obra de Machado.
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13:44:21