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Márcio Simeone
Ouvia-se uma música melancólica. Foi um dia de acordar triste, de se avistar a tristeza chegando de leve, vinda de algum lugar que não se sabia. Mas não se sabe mesmo nunca de onde vem, nem se deseja saber. Vem de visita. Não vem por conta própria. Às vezes vem trazida pela saudade, uma tristeza que, no fundo, é boa, casada com a memória. Mas também pega carona na frustração, deixa-se penetrar em nossa casa pelas mãos da decepção, vem de braços com a injustiça, com a solidão, com a raiva, com a mágoa, com a desilusão, com o desânimo, ou ainda com os dramas das decisões mais íntimas.
Quando entra pela porta escancarada do coração, nos toma de assalto, mas é uma tristeza funda, que emociona, que toca, que reabastece. Se entra pela porta frágil das perdas nos abate, causa dor aguda, mas que, quando passa, nos fortalece. Se entra pela porta semi-cerrada da razão, nos aflige, pela consciência da própria tristeza, mas nos amadurece.
A tristeza é bela, seja como for. Se assim a reconhecemos, nos traz paz. É também companheira, com a qual nos havemos sozinhos. Tira retratos do mundo em branco e preto, não deixa as cores ofuscarem nossa visão. Limpa nossos olhos e apura nossos ouvidos. Tanto quanto a alegria, merece ser apreciada, curtida. É visita que chega sempre de manso, sem alarde, vinda de onde não sabe, feita de matéria volátil, fluida como a lágrima, leve como um sonho.
criado por academiadeletras
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