Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

14.12.08

O presépio

Fonte Boa

Hoje armei o presépio de minha casa. Já meio tarde, mas ainda em tempo... até o dia 06 de janeiro ficará armado e receberá visitas individuais e coletivas. Não virão as pastorinhas, mas a folia de reis virá e cantará, e rezará... tradição, embora cada vez mais rara.


Em meu tempo de menino, lá na roça, o presépio era sinal de mudança... Vovó tirava da caixa as imagens do presépio. Imagens simples, feita de cerâmica vermelha e rusticamente encarnadas... Duas mesas eram o sustentáculo do presépio; sobre elas repousavam folhagens, pedras, galhos secos e armava-se uma cabana de palha. No entorno da cabana cercava-se uma área onde, estrategicamente, dispunham as imagens dos pastores e as ovelhas, as vacas, os burrinhos, camelos e outros animais... eu e meus primos eram os responsáveis para buscar, na beira do córrego, areia branca para se fazer o caminho, onde os reis magos seriam dispostos, barba de bode e outros cipós para enfeitar o presépio.

Era um dia inteiro de trabalho... e assim iniciava um tempo diferente... o tempo do natal! Quase todos os dias a casa de meus avós recebia visitas. De longe vinham as pastorinhas que faziam versos, cantavam diante da cena do nascimento de Cristo. Nos fins de semana chegavam as folias, uma após outra e cantavam, dançavam, “batiam varas” e rezavam. Cada uma que chegava para visitar trazia um presente e depositava aos pés do presépio. Estes presentes eram depois entregues para as crianças mais pobres do lugar. Minha avó dizia que as crianças pobres eram os “irmãozinhos de Jesus”, e por isso o menino Jesus do presépio não se importava em doar os presentes para as crianças pobres.

Assim, o tempo do natal ganhavam novas cores, sabores e encontros. A vida era movimentada, ouviam-se histórias, cantigas, conversas e o tempo ficava mais... bonito.

No dia 06 de janeiro a folia de reis chegava por volta das quatro horas da tarde; começava suas cantorias; tiravam seus versos e ao fim de cada estrofe, seguido de um refrão, minha avó retirava uma imagem do presépio e colocava na caixa de madeira. Assim, imagem por imagem, era retirada do presépio. E cada uma das imagens era guardada com todo cuidado e devoção... Ao final, depois de todas as imagens guardadas, a folia fazia o canto de despedida: agradecia aos donos da casa, a todos os presentes e a bondade do menino Jesus.

Não ganhávamos presentes... mas ganhávamos encontros, abraços, orações, tomávamos café com cada visitante, brincávamos, era uma festa que durava mais de um mês... e tínhamos família...

Vida em família...

Oração em família...

E hoje armei meu presépio em família...

Venha visitá-lo você também! E se puder traga um presente para os “irmãozinhos de Jesus”.

É a tradição que quer continuar... pena que as pastorinhas não virão mais...


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