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MATUTA, MATUTA.
Hila Flávia
Durante um tempo de minha vida fiquei meio inconformada com o jeito que vivia. Fui criada pisando na terra, em casa grande, cheia de gente. Era comum acordar e minha mãe comunicar: você ganhou mais um irmãozinho, ou irmãzinha. A gente nem percebia gravidez da mãe. O novo filho nascia de noite, pelas mãos da parteira, em casa, tão em paz que ninguém acordava. Hoje, com a confusão que se faz para ter um filho, fico até pensando se estou imaginando. Mas era assim mesmo que acontecia. Na adolescência, fiquei alguns anos estudando em colégio interno. Era uma choradeira e uma reclamação geral, mas eu me acostumei. Gostava de estudar, rezava muito, habituei-me à solidão e passei a conviver harmonicamente com ela. De uma casa cheia passei para um enorme espaço silencioso. Aproveitei para ler muito, alfabetizava adultos, cantava no coral, jogava vôlei, tudo me interessava. Foi um tempo proveitoso. Depois, voltando para minha terra, fui lecionar na roça, depois na cidade e me mudei para Belo Horizonte, quando do meu casamento.
A grande mudança foi esta. Passei a viver num mundo concretado, em apartamento, sem a beira e o beiral de uma casa, rua barulhenta, sem o som do trem-de-ferro e do canto do galo de madrugada, amigos novos, cosmopolitas. Eu pensava: que faço eu nesse mundo particular e cheio de neuroses se sou feita das gerais e das minas? Por que eu me alimento de comidas diferentes se gosto é de carne de porco torradinha e café moído na hora? Achava-me um ser humano em estado bruto transportado para uma vida de estufa.
Mas o tempo passou e, aos poucos, fui retomando meu jeito bom de viver. Moro em apartamento, mas tenho uma área com uma coberta. Na parede da coberta minha irmã pintou o Lago de Furnas e encheu de árvores. Até um enorme e escandaloso ipê amarelo fica florido o ano inteiro. A natureza tem seus milagres. Tenho bancos de praça, quatro cachorros lindos e ótimos, pois como são de cimento não me dão nenhum trabalho. Têm nome e estão amarrados numa correntinha, pelo sim pelo não. Chamam-se Tobi, Moreno, Lili e Jota. Uma mesa grande com oito bancos completa o espaço. Estou em casa. Numa casa que é apartamento também, pois faz parte de um edifício.
Outra volta é a casa de Furnas, meu recanto e meu encanto. Minha completa volta às minhas origens, pois lá os pássaros estão por todo lado, o vento canta, o sol esturrica, os jardins são cheirosos de rosas, alecrins, cebolinhas, salsas e manjericões, tudo misturado. Tem um coqueiro que dá coco, como cantava o Ari Barroso. E castanheiras, que são ninhos de morcegos. O Lago é um espetáculo. Recebe o sol de manhã e faz festa para a lua. E se colore todo faceiro, fazendo fita e se fazendo precioso. Lá também tem uma cadela irmã do Tobi, que se chama Lua. Boazinha do mesmo jeito. Não dá trabalho algum.
È isto, tanto matutei, matuta que sou, que acabei direcionando minha vida para o lado que vim. Acredito piamente que quando a gente fica determinada a conseguir realizar um objetivo, o universo conspira a favor. Tudo vai se encaminhando, se ajeitando, se arrumando.
Hoje matuto deitada numa rede, vendo o dia ir dormir e recebendo os primeiros raios de luar.
Louvado seja Deus, Senhor de meus dias e minhas noites. Louvado seja o Senhor da Vida.
(Hila Flávia Marinho Teodoro nasceu em Pará de Minas/MG. Mora em Belo Horizonte/MG. Ocupa a Cadeira no. 9 da "Academia de Letras de Pará de Minas". Tem como patrona: Cora Coralina.)
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