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DIRCEU ÁLVARES DA SILVA ,
ALUNO QUE ENSINOU
Hila Flávia
Era eu uma professora primária de longas tranças enroladas numa cabeça cheia de sonhos. E tinha como mestra maior a Dona Orozina, que me estimulava o conhecimento e me inoculou um profundo e jamais perdido amor pelos alunos.
Dentre eles um menino grande se destacava. Doce, tímido, inteligente, sem saber o que fazia com o tamanho de suas pernas e seus braços. Por isso se movimentava com tanto cuidado e vagareza. Para não trombar nas coisas e nas pessoas.
Dirceu me chamou logo a atenção e seu jeito suave conquistou o coração da jovem professora. Como era cuidadoso com seus objetos, com sua escrita, com seu estudo. Destacou-se entre os colegas por sua disciplina e seriedade.
O tempo foi passando e nossas vidas tomando rumos diferenciados, embora estivéssemos, já então, morando na capital. Eu trabalhando em cartório, após deixar o magistério para cursar a Faculdade de Direito da PUC. Ele, também formado bacharel, concursado e prestando serviços no Departamento Estadual de Estradas e Rodagem, o DER.
Meu local de serviço passou para o começo da Avenida João Pinheiro, em Belo Horizonte, e Dirceu, no seu trajeto para casa, passava por lá. Um dia, ele entrou para conversar um pouco. Foi o começo de anos e anos de uma convivência diária e prazerosa, embora em doses pequenas de tempo. A conta de contar as novidades e dizer o que estava escrevendo ou pensando escrever. Virou rotina sua visita e, quando ele não aparecia, meus colegas comentavam:- Ô Dona Hila, o poeta não passou aqui hoje. O que aconteceu? Eu procurava saber, telefonava, era nada. Só falta de tempo mesmo.
Encontramos-nos na Associação de Escritores, em Pará de Minas e, depois, na Academia de Letras. Fechamos nosso círculo, pois em todos os espaços de meu pensamento, trabalho e escrevinhações, tinha a companhia amiga do poeta Dirceu.
Sua doença me deixou triste, pois sabia desde o princípio da gravidade e do que estava para vir. Apesar de toda a esperança que via em seus olhos, foi definhando, ficando ainda mais alto e mais magro, mais fraco e mais debilitado. Todos nós, seus colegas de Academia, sentíamos vontade de colocá-lo no colo, mas em que colo caberia um poeta tão comprido? Nós o mimamos com nossos olhares de ternura, com um silêncio afetuoso quando ele falava sobre o que estava passando, sem uma queixa e sem uma reclamação da vida. Tão novo o meu aluno. Tão fora de hora a sua ida.
Quando de seu falecimento, tive certeza de que um anjo foi ao encontro do Pai. Um poeta-anjo que jamais fez mal a qualquer pessoa durante a sua breve existência, que presenteou seus amigos e parentes com um testemunho de fé raramente visto e que nos deixou escritos tão lindos.
Quando releio Tomás Antônio Gonzaga fico pensando que não foi coincidência que seu pseudônimo foi dado ao nosso Dirceu. Ambos sonhadores, visionários, buscando Marílias em cada amor que aparecia, dedicando suas vidas na luta por um ideal. O Inconfidente na velha Vila Rica e Dirceu Álvares da Silva no projeto de recuperação de presidiários. Ambos na peleja pelo sonho da liberdade e da dignidade do homem. E por falar nessa palavra tão linda, vêm-me os versos do Romanceiro da Inconfidência, da Cecília Meirelles:
“Liberdade - essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!”
Hoje eu sei que Dirceu a explica muito bem, já que sempre entendeu perfeitamente o sonho alimentado.
criado por academiadeletras
22:21:21