Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

19.01.09

AO AMOR INCERTO

Márcio Simeone

Por várias vezes o vi, ao crepúsculo, naquela praia. Fiquei a observar seu movimento rotineiro. Chegava trazendo consigo uma grande bolsa, dirigia-se à beira das pedras, onde o mar explodia mais livre das areias. Abria sua bagagem e de lá retirava, uma a uma, três garrafas, deitando-as ao mar. Sentava-se, calado, observando placidamente o balançar das garrafas com o movimento hipnótico das ondas. Aguardava o sol se esconder e só então se levantava e saía. Tive aguçada a minha curiosidade. Já ouvira muitas histórias de mensagens em garrafas, uma comunicação lançada ao destino, aos cuidados da correnteza. Intrigava-me o gesto repetido daquele rapaz. O que conteriam aquelas garrafas? Bilhetes com mensagens aos tempos? Pedidos de socorro? Certa vez, após observá-lo em seus procedimentos, vi-o afastar-se e me dirigi à ponta das pedras. Vi que uma das garrafas tinha sido jogada pelas ondas por cima de um pequeno monte de pedras e ficara encalhada na areia. Peguei-a e pus-me a examiná-la, vendo dentro dela um pedaço de papel dobrado. Foi grande a tentação de abri-la e ler o papel, mas de súbito me contive. Seria como violar uma correspondência. Aquilo não me pertencia. Subi de novo às pedras, disposta a lançá-la de novo ao mar, para que seguisse, desembaraçada, o seu improvável destino. Quando estava prestes a soltá-la, pensei: talvez o destino tenha feito devolver a mensagem ao remetente. Se eu a soltasse de novo à água, quem sabe não estaria provocando uma interferência indevida no correr das coisas? Em dúvida, pus de lado a garrafa, sentei-me sobre a pedra, fechei os olhos e rezei. Pedi a Deus que me desse um sinal sobre o que fazer diante daquela situação. Quando abri os olhos, estava bem escuro. A luz natural já desmaiara e lá de trás só as poucas luzes à beira da praia forneciam alguma orientação. Fixando os olhos para mais longe já era possível ver o facho de luz do velho farol. Foi aí que segui o impulso de lançar a garrafa e ir-me embora. Feito. Sumiu na escuridão uma mensagem rumo ao infinito e minha curiosidade navegou junto, imaginando para onde iria e se alguém a encontraria, recolheria e leria a mensagem nela contida. Não pude dormir aquela noite. Todo o tempo pensava em mil histórias possíveis, com personagens diferentes, vários desdobramentos. Só na semana seguinte tornei a ver o rapaz, que seguiu seu costume. Tive o ímpeto de abordá-lo, mas com receio de interromper o seu ritual solitário me contive. Apenas testemunhei o seu ato tantas vezes repetido e, mais uma vez, passei insone aquela noite. Novo encontro só se deu muitos dias depois. Mas agora a força que me impelia à abordagem foi maior que os meus temores. Esperei que depositasse as garrafas na água e me aproximei em silêncio, por trás. Quando foi sentar-se, percebeu a minha presença. Pareceu-me indiferente, sentou-se e decidi sentar-me ao seu lado. Não se opôs. Ficamos um tempo em silêncio, esperando o sol mergulhar. Criei coragem e comecei a falar, dizendo-lhe que várias vezes observei-o naquele lugar, indagando-lhe sobre a razão daquilo. Surpreendeu-me respondendo que simplesmente enviava mensagens aos seus amores incertos. Quais seriam estes amores? Disse-me que seus amores certos ele sabe onde estão, mas não lhe bastam. Precisa de amores incertos, mas estes não sabe exatamente onde achá-los. Podem estar em toda parte. Por isso lança as garrafas. Nada mais disse e, sem querer importuná-lo, levantei-me e voltei a casa. Mais uma vez me foi impossível conciliar o sono. Fiquei pensando nos amores incertos. Acho que nunca os tive. Busquei apenas os amores certos, os prováveis, os possíveis, mas nunca os incertos. Todos meus amores têm endereço. Imaginei como seria bom ter amores incertos. Mas como eles corresponderiam? Senti que aquele rapaz tinha em cada uma daquelas garrafas um amor incerto, navegante. Alguns tão incertos que nunca mais os veria. Outros, quem sabe? Vivia intensamente sua espera, cultivando em cada remessa o seu amor mais livre, o mais desprendido, aquele que deixava ir no abraço carinhoso do mar. Mas que pode voltar, assim como se vai. Ou que pode dar em outra praia onde, descuidado, o encontre. Quem sabe em viagem ao outro lado do imenso oceano o recolha: outra praia, outras terras, mas o mesmo amor, viajante. Não pude deixar de perceber minha admiração por aquele rapaz. De coração inquieto, esperei encontrá-lo de novo na praia todos os dias seguintes, mas ele não apareceu. Somente três semanas após ele surgiu, assim como sempre. Meu coração, que já estava inquieto, disparou. Nem sei por que, mas me aproximei logo, antes mesmo que ele tirasse da bolsa as garrafas e de minha boca só saiu um tímido e receoso boa tarde. De impulso revelei a ele o que acontecera aquela vez, quando achei uma das garrafas encalhadas e resolvi devolvê-la ao mar. Ele não respondeu de pronto. Apenas retirou calmamente uma a uma das três garrafas, logo dadas ao mar. Para minha surpresa, retirou da bolsa uma quarta e me deu. Nem sei o que senti, mas percebi enorme semelhança com a que eu havia recolhido dias atrás. Ele assentiu com a cabeça à minha indagação não pronunciada. Meu rosto perguntava se seria ela mesma e ele confirmou, também sem dizer palavra. Só depois de um longo silêncio ele disse que a encontrara de novo nesta mesma praia, há algum tempo. Pediu que eu a abrisse e lesse a sua mensagem. Ao ler senti com todas as forças que aquela mensagem era para mim. Não encontrara a garrafa por mero acaso: ela me buscava. E tudo o que eu gostaria de dizer a um amor incerto estava ali, nesta mesma mensagem. Eu a enviara e havia chegado a um destinatário. Ambos havíamos encontrado um amor incerto. Mergulhamos no mar.

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