Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.
Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.
O papel já amarelecido: uma carta. O destino das cartas deveria ser este: amarelecer. É uma forma de eternizar. Mas o que é a eternidade para quem tão bem conheceu a decomposição? Amarelecer é apenas uma das cores da putrefação. Protegida pelo vidro da minha escrivaninha, agora dorme uma carta de Pedro Nava. Não vou negar: cheirei a carta. Toquei-a com uma certa volúpia. Suas mãos passearam sobre a pauta, pensei. Letra bonita, não comum aos médicos da sua época. Cuidado, escritores! Faço alerta: suas cartas podem sair do destino primeiro e ir parar nas mãos de um desconhecido. Escrevam com parcimônia. O destino pode bem ser uma apaixonada por palavras, como sou e estarão salvos. Amém. Mas... Ele falava de remédios, cuidados médicos e tratava com carinhosos diminutivos. Eu que pus os olhos sobre sua obra memorialística, agora vislumbro uma fresta e fico absorvida. Nossa eterna mania de querer saber o não sabido? Seria a chave do quarto secreto do Barba Azul? Seria nossa alma curiosa, indiscreta? Seria uma necessidade humana de intimidade? Não, acho que não é nada disso. O que vejo nesta carta é ainda a capacidade que ela tem de guardar um pouco do grande escritor, talvez de eternizá-lo assim perto de mim. De saber que seus olhos percorreram cada letra e que suas idéias desenharam palavras. Também permitir tê-lo em meu mundo particular. Sinto que grandes escritores nos humanizam na medida que nos apresentam as dimensões possíveis de nosso ser físico e espiritual, pois são capazes de escrever com alma, apresentando, portanto, nossos antagonismos. Como Pedro Nava poderia imaginar que esta carta, datada de 26 de janeiro de 1977, vinda do Rio com destino a Belo Horizonte, percorreria mais uma vez a estrada e cairia em mãos tão suas desconhecidas?! (São somente 31 anos) Desconhecidas?! Desconhecidas dele que sabia como poucos a anatomia humana? Se, ao em vez da carta, ele ainda vivo, entrasse minha casa adentro, eu serviria um vinho tinto, colocaria a Sonata ao Luar para ouvirmos e não diria nada. E como não há meios para tanto, saboreio o mesmo vinho, a mesma sonata, com meus confrades vivos e homenageio Pedro Nava, Pedro Salles, Quintana, Drumonnd, Veríssimo, que tiveram e têm o dom de me fazer sonhar. E nossas cartas? Por onde andarão? Ficarão empalidecidas? Esmarelidas? Ficarão lidas? Eu disse a alguns ex-alunos: a vida é assim: início, meio e fim. E todo fim é um início certo neste círculo. Seria circo? Posso agora dar linhas a carta recebida curvamente: publicando não a carta, que o respeito não me permite, mas tudo que ela me fez sentir, devanear, sonhar, vogar, vagar. Navagar novamente.
Agradeço à Presidente da Academia de Letras de Pará de Minas, Adélia Salles, por este presente maravilhoso, uma jóia de muitos quilates: uma carta endereçada ao seu pai, Dr. Pedro Salles, escrita pelo médico e escritor Pedro Nava, seu patrono.