Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.
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Terra Blog

01.04.09

E agora, José?

“E agora, José?”

...? A festa acabou? A bolsa caiu ou subiu? Os homens inventam seus caminhos? Palavras cruzadas? O valor dos homens é superior ao valor de suas instituições? As leis, as regras servem a quem? O que é belo? Onde mora a ética? Café com leite? O que é traição? Sempre foi assim? O meu boi morreu? Será o Benedito? A conta está em dia? O que é valor? O que nos leva a mudar de opinião? O que é família? Educação é conhecimento? O que é poder? O que é perdão? Preconceito existe? O que é respeito? Mentir é o mesmo que omitir? Ignorar é o mesmo que não se responsabilizar? E ignorância? Posso falar? E calar? O que é ter opinião? Jura? Quem tem prestígio tem o quê? E sucesso? Sou amigo do rei? Democracia é o governo do povo ou do demo? O samba morreu? O que é influenciar? Lutar pra quê? Os opostos se atraem? Posso chorar? Quando calar? O amor é cego? Quando falar? Quando a alma não é pequena? Olho por olho, dente por dente? Voto de louvor? Amor e ódio? O que levar na mala? Palavra tem vida própria? Escritor escreve errado? Fala sério? É preciso manter as tradições? A casa é de pau? De palha? De pedra? Alguma dúvida? Quem inventou o amor? Fé ou religião? Isso é pra quem pode? Quem é você? Quem sou? Quem somos? Factual ou virtual? Alma e corpo? Isto engorda? Cultura materialista? Quem planta, colhe? Quem vai apagar a luz? Camisinha funciona? Dualidade e dualismo são a mesma coisa? Sol e lua? Branco e preto? Dormir e acordar? Qual o peso do silêncio? Águia ou galinha? Credo em cruz? Diploma certifica? E, ou? Quando o silêncio é sabedoria e quando é covardia? O que é ser politicamente correto? O que é força? O que é frágil? A situação atual é qual? Tudo está em busca do equilíbrio? Arriscar? Ganhar? Perder? Deus ou o diabo? Sonhar vale a pena? Como medir a culpa? O que é mutável? Onde mora o medo? O que é comportamento dual? O que é manipular? A ditadura acabou? O bom pode ser mau? Todo mal é mau? Perguntar ofende? A crise justifica? O tempo conserta? Concerta? Posso sentar ao seu lado? Diamantes ou cascalhos? Que país é este? De que forma se articula a ética e a moral? O que é certo, o que é errado? A vida estancou de repente? Escritor ou escrevinhador? Talento ou marketing? Anjos e demônios se beijam? Neste caso, devo usar mesóclise? É assim mesmo que se escreve? E a justiça? Quem pode atirar a primeira pedra? Freud explica? Onde está a honestidade? Os sumérios inventaram a escrita? Onde fica a terceira margem? A vida é curta? O que é obra de arte? Tudo é virose? Somos todos neuróticos? A unanimidade é burra? Todos gostam do azul ou do verde? Não quer responder? O prato ou a comida? Plantar um jardim? O sertão vai virar mar? Filho de peixe, peixinho é? Qual seu sobrenome? O inferno é aqui? Onde fica Passárgada? Onde vamos parar? Ter nenhum pássaro na mão e todos voando? Quem inventa moda? O que é brega? Não é mais? Tudo bem quando termina bem? Mentira tem perna curta? E o tempo? A lei é para todos? O que se leva desta vida? Qual o preço da felicidade? S ou ç? Aprendeu com quem? O que é maioria absoluta? Tudo é relativo? Tempo é dinheiro? E dinheiro traz felicidade? Você sabe tudo? O inferno são os outros? Caixão tem gaveta? É dengue ou gripe? Cachaça ou Uísque? Galo ou raposa? E daí? É preciso asfaltar as avenidas? É preciso cortar as árvores? O que será que será? Ter filhos ou não ter? Quer bater na minha cara, por quê? Tudo termina em pizza? Solidão? Multidão? Será só imaginação? Fale bem, fale mal, mas fale de mim? Sertanejo é do sertão? O sonho acabou? Nada tem fim? Você usa máscara? Muito obrigado? Aquecimento global? Que cheiro é este? Promessa é dívida? Pegar ou largar? Cachorro ou gato? É preciso ter cuidado? Santo de casa faz milagre? Virtual ou real? O que é poesia? Existe alma gêmea? Amor a primeira vista? Borboletas azuis? Você disse: eu te amo? Posso te dar um beijo? Caí no poço, quem me tira? Maça ou abacaxi? Dar a palavra, o que é isto? Confiar, desconfiando? Devo protestar? E processar? Que nó posso dar? A tristeza tem mesmo cor? E o tempo para quando? As nascentes vão para o mar? Você ainda me ama? Quantas árvores plantar? Somos donos de nosso nariz? Estou ficando louca? Que livro devo ler? Ajoelhou tem que rezar? Do amargo, o doce? Não sabe nem quer saber? As estrelas são as mesmas? Terra à vista!? Já fez backup? Navegar é preciso? Perguntar ou responder? Onde foi que eu errei? Alguém aboliu a escravidão? Eu sou boba? Porque sim, é resposta? De onde eu vim? Para onde vou? Com quantos paus se faz uma canoa? Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Quem descobriu o Brasil? O mundo vai acabar? Um mais um é sempre dois? Será que vai chover? Cada macaco no seu galho? Cada um no seu quadrado? Quantos espaços você precisa? Quem paga o pato? Um chazinho? Pode estar envenenado? Beethoven é cachorro? Eu, tu ele, nós, vós eles? Verdade ou mentira? Eu te ligo ou você me liga? Com que roupa eu vou? Por que me abandonaste? Vai ser na sua casa? Qual o autor? Penso, logo existo? A morte é o fim ou o começo? Açúcar ou adoçante? Paraense ou Paraminense? Dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo? Papai Noel existe? E coelhinho da páscoa? Cachorro pensa? É abrir ou fechar? É tragédia ou comédia? É conto ou romance? Quem passará, quem passarinho? Por onde andam meus amigos mortos? Só sei que nada sei...

18.03.09

Quando o sofrimento bater à sua porta

Nunca admiti que o sofrimento pudesse levar o ser humano ao crescimento. Afirmava que sofrimento causa dor, somente dor. Que a felicidade, a alegria, sim, elas poderiam levar ao crescimento. O que faltava nestas idéias era um pouco mais de reflexão. De sobra havia uma resistência em aprofundar o assunto.
Mas, acabei tendo de quebrar esta barreira quando li o livro “Quando o sofrimento bater à sua porta” do escritor, professor Fábio de Melo, que também é padre, cantor e compositor.
É o segundo livro que leio deste autor e novamente me encanta sua forma objetiva, clara, inteligente de dizer sentimentos. Sentimentos estão na linha da emoção, daí nossa dificuldade em palavreá-los. Para dizer sentimentos, muitas vezes, temos que fazer um exercício de distanciamento para, desta forma, perceber as várias faces do mesmo. Talvez um exercício comum aos artistas plásticos que sobre um mesmo objeto deixam incidir variadas luzes para descobrir variadas sombras. Um exercício de pontos de vista.
O livro todo é um convite à reflexão. São palavras que podem mudar vidas. Como escritora, fico fascinada com esta capacidade da palavra: ser luz. Também como escritora, muitas vezes, fico desanimada, mediante ao fato de ver o quanto ouvimos pouco o “grito” da palavra. Ela sozinha, presa ao papel, tão frágil... Mas ela mesma vem em meu socorro dizendo de sua força transformadora. Fico revigorada. Sei que palavras são sementes, podem cair em terreno fértil.
Gostei particularmente do trecho que o autor diz: “São perguntas que nos seguram na dinâmica da vida” (pág. 75). O capítulo é um chamado a fazermos a “pergunta certa” e mais do que isto, mostra-nos que conviver com nossas perguntas, sem nos incapacitar, é uma sabedoria que deveríamos buscar.
Há uma poesia latente em “O pai, o menino e o rio...” (pág. 96). “É a vida. É o tempo. É a agonia de cada rosto. É o rio. É o menino. É o pai. É o pedido. É a resposta que não responde”. O livro é coroado por belos poemas do autor e outros de igual quilate. Poesia-filosofia... Eu nunca saberei onde termina a poesia e começa a filosofia e vice-versa. Poetas e filósofos caminham de mãos dadas.
Brilhante também é forma com que o autor pensa o milagre: “ o milagre é realizado a quatro mãos. Mãos de Deus e mãos humanas.” Explica a maturidade a partir da capacidade de assumir as responsabilidades.
Terminei a leitura com a sensação de plenitude. Tenho em casa quem pense exatamente da mesma forma do autor e, meu prazer em ler este livro passa também pelo sentimento de descobrir a existência de mais um que busca acender a luz no mundo. Bom demais!
Quanto ao sofrimento que faz crescer, aprendi: existem cascalhos e diamantes... só os diamantes podem fazer crescer. Diamantes... de amantes; amantes, aqueles que amam. No sentido mais profundo a palavra amor: “emprestar a asa que nos é ausente.” Se em Adélia Prado “Amar é sofrimento de decantação” podemos dizer: amar é sofrimento de lapidação.
Agora vejo que a felicidade é sol possível depois da tempestade. Uma questão de escolha, sem dúvida, mas também de seqüência lógica se assim permitirmos.
Não quero contar o livro todo para não cair no pecado de quem conta o filme pensando que assim está incentivando alguém a vê-lo. Coisa chata! Nada disso. Quero é dizer a você que tem muita coisa boa para ser lida esperando nas livrarias, nas bibliotecas, nas estantes. É preciso atitude. Minha sugestão está aí.
Livros assim me deixam em estado de agradecimento.




08.03.09

MULHER/ Terezinha Pereira


MULHER

                                                     Terezinha Pereira

Ano de 1.857. Oito de março. Eram cento e vinte e nove mulheres trabalhando numa fábrica têxtil em Nova York. Queriam ganhar salário igual ao dos homens, uma vez que executavam as mesmas tarefas. Queriam também a redução de uma jornada de trabalho que durava até dezesseis horas. Nesse dia oito de março resolveram reivindicar o que julgavam de direito. Acontece que foram queimadas vivas dentro da fábrica. Simples. Eles tinham a força. Eles tinham o poder. Reconstruiriam a fábrica. Outras mulheres fariam o mesmo trabalho, até mesmo para ganhar um salário menor. Nada como o medo........ No primeiro Congresso Internacional das Mulheres realizado na Dinamarca no ano de 1.910 escolheram o dia oito de março para ser comemorado o Dia da Mulher. Precisaria?

Por séculos e séculos, a mulher fora treinada para viver sob as ordens do ser considerado superior. “Lugar de mulher é dentro de casa.” “Mulher de família não sai desacompanhada.” “Mulher só dirige bem um fogão.” Mulher nasce com o direito de usar roupa cor-de-rosa e brincar de boneca. Crescendo, ganha o direito de auxiliar a mãe nas “leves” tarefas domésticas, serviço à-toa. O irmão acompanha o pai nos passeios, que ninguém é de ferro, trabalha dia inteiro com trabalho pesado de corpo ou de cabeça na firma. Trisavó, bisavó, avó, mãe e filha têm o mote gravado nas profundezas do subconsciente. Estudar? Bem, só até o curso normal está bom. Profissão de mulher fora de casa podia ser exercida na escola, ensinando crianças a ler e a escrever.

O surgir da pílula anticoncepcional provoca alguma mudança. Além das obrigações de dona de casa, a mulher ganha o “direito” de lutar por uma carga adicional de trabalho. Com uma quantidade menor de filhos, pode estudar na faculdade, trabalhar em bancos, no comércio, nas escolas de segundo grau, nas faculdades, nas grandes indústrias. Isto é, há uma certa condição: a mulher “não precisa” dividir a obrigação do trabalho doméstico, é claro, porém, os frutos do trabalho feminino extracasa “ podem” ser divididos...

Ao adquirir o direito de sair de casa para trabalhar, a mulher mais uma vez, deu de cara com a prepotência, com a força daqueles que se julgam donos de tudo. O assédio sexual, antes conhecido em áreas do trabalho doméstico e escravo, passou a ocorrer nas empresas. Um sem contar de vezes, o direito ao trabalho ou a um melhor salário fica condicionado a concessões de ordem sexual por parte da mulher.
Se, no Brasil, a mulher ganhou o direito do voto em 1934, somente em 1994, é que uma candidata a governadora de estado foi eleita pelo povo. Em 1998, uma outra quase chega no segundo turno em São Paulo. Foi atropelada pelas pesquisas. Onde já se viu uma mulher governar o maior estado do país. Antes das eleições de 1.998, 6,4% dos congressistas eram mulheres. Um percentual que se difere pouco do resto do mundo, mesmo levando em consideração os países mais desenvolvidos.

Apesar de a prostituição feminina acontecer com a anuência de dois parceiros, somente a mulher é condenada pela lei e pela sociedade. Um cliente nem mesmo é julgado por se deitar com uma prostituta. Se a mulher mata o marido é considerada assassina, com “direito” a pena máxima. Morta pelo companheiro, o crime é passional. Num passe de mágica, surge um amante para a mulher assassinada que, sem haver tido o direito de continuar viva, não vai negar a existência do suposto. Nem vai berrar que, durante vida inteira de casada, havia andado às voltas com o desejo de se deitar ao lado de um homem apaixonado e muito carinhoso, que dividisse com ela, além da cama, frutos do trabalho, tarefas do lar e cuidados com os filhos que não fez sozinha. Fato que ocorre no mundo todo.

Modernos equipamentos da tecnologia vêm permitindo que a mulher tenha uma gravidez mais saudável. Mas, a mesma prepotência do início dos séculos, em muitos países, faz uso dessa tecnologia para impedir o nascimento de crianças do sexo feminino. Em alguns lugares roubam das mulheres até mesmo o direito de sentir prazer cortando-lhes o clitóris........!

Mulher, guerreira por séculos e séculos, sua luta continua. Sua força é sutil, mas infinita. Você tem o poder de embalar uma vida dentro de seu corpo durante o tempo estabelecido pela natureza para que ela venha ao mundo. De sua força, de sua garra, de seu carinho, de seu amor, de seu corpo é que depende o futuro da humanidade. Para que um dia do ano a lhe ser dedicado? Você é dona dos todos os dias do ano.





06.03.09

MEMÓRIAS DO LIVRO

Fico desamparada toda vez que termino de ler um bom livro. As últimas vinte páginas provocam-me um sentimento ambiguo: o prazer e a amargura. Nem preciso explicar.
Em meus objetivos literários deste ano está a leitura de no mínimo doze bons livros. Confesso que cumpro com desenvoltura esta meta e sinceramente gostaria que os demais objetivos a que me proponho fossem igualmente fáceis, mas não são.
Neste início de ano li Cury, Frei Betto e, agora, acabo de ler Geraldine Brooks, escritora australiana vencedora do Pulitzer de Ficção. Li “As Memórias do Livro”, tradução de Marcos Malvezzi Leal.
O livro é aberto com a instigante frase: “No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens” (Henrich Heine). O romance é sobre o Manuscrito de Sarajevo – a Hagadá – Um livro judeu medieval desaparecido em 1992, durante a guerra civil que foi encontrado na capital da Bósnia. O livro contraria cânones religiosos da época, que proibiam qualquer tipo de ilustração.
A história é inteligente, bem construída. A autora usa fatos reais e fictícios e desta forma passeia pela História. Uma obra de arte! Consegue mostrar o valor de um livro quando afirma: “Um livro é mais do que a soma de seus materiais. É um artefato da mente e da mão humana”. Posso compreender isto com meus sentidos e com minha alma.
Logo no início mudei totalmente a idéia que eu tinha sobre restauração. Pensava, erroneamente, que ao restaurar um livro deveríamos deixá-lo novo. Na página 26, “Restaurar um livro ao que ele era quando foi feito, é falta de respeito por sua história. Penso que temos que aceitar um livro da maneira como o recebemos das gerações passadas; e, até certo ponto, os danos e o desgaste refletem essa história”. Desta forma, restaurar é deixá-lo em condições de ser manuseado com segurança. Consertar o absolutamente necessário.
Acabei pensado também em nós... Seria bom se pudéssemos respeitar nossas marcas como memória de nossas caminhadas...
Voltando ao livro, uma idéia ficou perseguindo-me o tempo todo da leitura: o conhecimento não pertence a um povo, a uma nação. E é preciso que ele seja protegido quando perdemos a cabeça. Penso que perdemos a cabeça toda vez que fazemos guerras e que somos capazes de destruir o que nos constrói a todo dia.
Mais triste ainda é quando esta destruição vem acompanhada pela justificativa: “em honra de Deus”. Confesso ter muito medo desta incapacidade humana de reconhecer e respeitar as diferenças. Volta e meia e a indelicadeza bate a nossa porta dando o ar da (des)graça. Faz estrago, queima homens e livros.
Fui trabalhar em uma escola a alguns anos atrás e a “bibliotecária” me disse que não gostava de livros “velhos”. Fui conferir quais eram os livros velhos. Tinha até Machado de Assis! Precisavam ser restaurados. Felizmente a capa estragada poderia ser vestígio de muito uso. Mesmo que se tratasse de um livro "arcaico”, deveríamos ter em nossas bibliotecas espaço reservado para estes, afinal eles representam o saber de uma época.
O drama de livros “obsoletos” que acabam incinerados já foi vastamente discutido por Pedro Nava em suas memórias. Realmente precisamos repensar isto. Hoje, com toda nossa tecnologia, fazemos livros aos montes. Mesmo assim, não consigo condenar nenhum exemplar às chamas sem ter a impressão de que estaria queimando gente. Quantas vezes li coisas que nada me diziam, que não consegui comungar com seus autores, e, que nem por isso pensei que estivessem errados ou certos?! Ao queimar um livro não significa que estamos exterminando com as idéias que eles registram, mas estamos violentando a História.
Vale a pena ler “As memórias do livro”. Penso que ao terminar esta leitura somos mais humanos e mais planetários do que nunca. Olharemos, não só os livros, mas todo e qualquer objeto com outros olhos. É possível também compreender os homens em suas loucuras e sabedorias.
Evoco meu querido Quintana para terminar dizendo:

“Como estranhas lembranças de outras vidas,
que outros viveram, num estranho mundo,
quantas coisas perdidas e esquecidas
no teu baú de espantos... bem no fundo...”

05.03.09

MEU TEMPO (43)

                                                                                                                                          Márcio Simeone

Quando eu era criança, meu tempo não tinha segundos. Quando o mundo era criança, o tempo era só o do fazer e dependia. Dependia de alguém virar a ampulheta e fazer escorrer a fina areia. Eu dava corda no tempo. O tempo era meu, era nosso, construía uma era. Era nova, o mundo cresceu - e depende. Depende do tempo medido, que não medimos, tempo atômico que a máquina mede. Mede-se ele próprio e é preciso. É preciso que o tempo nos avise que é hora disso ou daquilo. O tempo fora de mim já não é o meu tempo. Quem dá corda no tempo? Cresci e meu tempo está fora de mim. Virou calendário! Ele me faz e desfaz. Hoje vou brincar com o tempo, nem que por um minuto. Sejam quarenta e três anos o giro da ampulheta. Tempo que voa, insignificante na eternidade, mas este tempo é só meu.