Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Dezembro 2008

10.12.08

NATALIDADE


Em uma aldeia ao norte da costa oeste do centro do hemisfério sul, chamada Natalidade, toda criança que nasce recebe o nome de sentimentos: Alegria, Felicidade, Amor... e mesmo que os nomes se repitam, não são iguais, pois toda criança é única e toda felicidade também.
Em Natalidade há uma particularidade: sempre é Natal. E em vez de “Bom dia”, “Boa tarde” ou “Boa noite”, os moradores dizem “Feliz Natal”!
Cada dia que nasce é saudado como um grande e Feliz Natal!
Seu povo é bom, honesto, trabalhador. São poucos habitantes e moram na simplicidade e na beleza própria de Natalidade.
Em toda casa não há pinheiros com luzes nem bolas coloridas, mas há em todas elas um jardim com flores e cadeiras, bancos, onde, à tarde, eles se encontram para ver o pôr-do-sol. Aí, em silencio, despedem do dia e juntos com a noite que anuncia, eles começam a cantar baixinho: “Noite Feliz... Noite Feliz... Ó Senhor Deus de Amor...” E vão para a mesa dividir o pão que nunca falta.
O lugar é mágico, parece ter saído de um livro, mas não. Ele existe. Já recebeu nomes vários por pessoas sérias que se não conheceram Natalidade, sabem dela por outras maneiras.
Perguntei a um morador qual o sentido do Natal em Natalidade. Ele respondeu que o sentido é o Nascimento. Eles celebram o nascimento de Deus, o menino, que trouxe a verdade e a luz.
Conheci Natalidade por acaso e voltei só para contar que ela existe e vale a pena procurá-la.
Na ceia, eles não servem exageros, o prato principal é o encontro e de sobremesa servem alegria.
Há em Natalidade uma vontade imensa de paz. E eles rezam juntos para assim preservá-la. Um desejo é sempre uma oração.
Os Natalícios, como são chamados o povo de lá, são hospitaleiros e, apesar de serem povos perdidos no mapa, recebem com festa todo forasteiro, pois eles sabem que somos irmãos.
Nas escolas de Natalidade, a matéria principal é Valores. E quais são eles? Com certeza não são dólares, euros, real ou sal. E mesmo a bondade, a justiça, a generosidade, a alegria, dentre outros tantos.
De vez em quando, um morador de lá se muda para o mundo e então são naturalizados em suas terras, mas nunca conseguem viver sem o eterno espírito de natal. Talvez você até conheça algum Natalício e não sabe e nem é tão difícil assim identificá-lo,

Veja: às vezes são vistos como meio “loucos”, pois normalmente não atendem ao padrão normal, riem muito e choram fácil, mas nunca se amarguram. Gostam de festa e qualquer encontro já é, para eles, motivo dela. Cantam, dançam, tocam bandolins, koras, violinos, violões, flautas, harpas, trombones, piano, caxixi, panela e acordeão e se abraçam com grande ardor, pois o fazem de coração. Eles têm sempre palavras doces para os amigos e até para os simplesmente desconhecidos. Lembram-se do aniversario de todos e o fazem sem cobranças, pois o amor que conhecem é gratuito e límpido, sem amarras. Podem vender a imagem de bobos, coisa que nunca foram ou serão. Eles sofrem mais do que qualquer um quando vêem violência, injustiça, preconceito, maldade. O sofrimento do outro é motivo para sua luta diária. Desejam, na verdade, transformar o mundo em Natalidade.
Eu nem digo que não possam...Sei a força que tem a fé capaz de mover montanhas, abrir olhos...
Não me peçam para traçar pra ninguém a trilha, o caminho para Natalidade. Já disse que a encontrei por acaso. Desconfio que Natalidade só pode ser encontrada pela pessoa mesma ou ainda que é Natalidade que encontra a pessoa. De toda maneira, é uma descoberta intransferível e única. Mas, com certeza vale a Vida! Feliz Natal!

 

 

04.12.08

Raul, o gato!

Raul, o gato!
                                                                              Paulo Roberto dos Santos



O gato é um mamífero pequeno, da família dos felídeos, domesticado há milhares de anos pela humanidade. Ágil, esperto, manso, bravo, desconfiado, arredio, dócil, habita os nossos lares e, há muito, ora é coadjuvante ora, protagonista nas cenas domésticas.

Em casa, nunca tive a oportunidade de criar um felino. Talvez medo de sua procedência traiçoeira. Que gato não lembra um tigre ou uma onça-pintada? Excesso de zelo de minha parte, pois habitam os muros e quintais da casa e nem por isso aprontam. Preocupação plausível, apenas pelos belgas a entoar suas oitavadas. Presas potencialmente fáceis a qualquer investida da gataria da redondeza.

Raul parece que fez morada num antigo canil, nos fundos do meu quintal, bem em frente à janela do meu quarto. É folgado o indivíduo. De vez em quando, fico admirando a sua tranquilidade. Se eu o observar por uma hora, durante todo esse tempo, exibe seus dotes físicos e habilidades de malabarista. Raça ruim! Gato vira-lata. Deve ser mais um indesejado da vizinhaça, escurraçado de algum canto pelo dono, com medo de que lhe comesse os canarinhos.

Quando quer dar uma volta, enquanto não alonga todos os membros, não arrisca os primeiros passos. Só aí se equilibra no muro, elegante, sincronizado, esbelto e nobre como seus primos distantes: tigre, leão e leopardo, desviando-se dos fios da cerca elétrica, até desaparecer do ângulo de minha visão.

Se minhas cachorras não fossem tão anti-sociais, com certeza já o teria adotado. É silencioso, discreto e parece que sobrevive com muito pouco, aliás, como todos os outros animais, com exceção dos racionais.

Esporadicamente, executa um pagote, um chorinho, um hip-hop em plena madrugada. Nada que interrompa o meu sagrado sono ou me provoque insônia. Descobri tratar-se de suas orgias sexuais.Gato safado! Quem o vê tranquilo, sereno, quase anônimo, não imagina o galanteador e conquistador das gatinhas nas noites quentes e de lua cheia.

Quando abro a janela pela manhã, lá está ele a espreguiçar. Parece que acorda junto comigo. Não sei se quando acendo a luz do quarto ou quando abro a janela. No horário de verão, só falta raiar comigo. Quase lhe peço desculpas, afinal, não tem que cumprir horário: assinar ou bater o ponto ou passar o cartão magnético.

Certa manhã, depois de uma madrugada de excessos libidinais, espreguiçou-se tanto que teve uma distensão muscular na região sacro-lombar. Gemeu, miou, ronronou tanto e com tal intensidade, que tive que levá-lo ao médico. Gato sem estirpe frequentando consultório veterinário. E não é que o bichano teve que ficar imobilizado? E assim ficará por alguns dias. Quem sabe quando se recuperar, saberá dosar melhor os seus alongamentos ou suas orgias. Não tenho dúvida, “gato escaldado tem medo de água fria.”

Quanto à sua adoção, acho que a fiz desde aquele primeiro dia que fiquei a observá-lo por uma hora.