Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2008

20.09.08

O QUE SE QUER DO AMOR

Márcio Simeone

O que se quer do amor
É que venha em paz e calma
Que se abra sem alarde como uma flor, de manhã, no jardim da frente.
Mas às vezes vem tropeçando, no alarido dos tropéis de fim de tarde,
vem e passa.
Há o amor que vem protegido pela escuridão da noite,
sensível e invisível, domina
e se esquece de amanhecer.

O que se quer do amor
É que venha sem hora.
Mas às vezes vem, de manhã, apressado,
de tarde, culpado e de noite, cansado.
Vem e passa.
Há o amor que se lança na seqüência sem fim
de dias luminosos e de noites profundas
e se esquece de anoitecer.

17.09.08

PAULO ROBERTO DOS SANTOS/ Zé da Praça

                                            Zé da Praça

                                                                Paulo Roberto dos Santos



         Distraidamente, ele atravessou a rua, concentrado que estava, lendo o jornal do dia ou de ontem. O que lhe interessava eram os artigos assinados, os editoriais. Segundo ele, já era crescidinho, sabia mentir sozinho. Subiu as escadarias da praça rumo à igreja, sempre atento a sua leitura. Como o amigo e escritor Jaime Mendonça, o sujeito era uma traça, não podia ver um pedaço de papel escrito, devorava-o.
        Era conhecido no bairro. Figura folclórica. Além de regularmente, fazendo sol ou chuva, controlar o trânsito caótico da pracinha pela manhã, fazia uns biscates aqui e outros ali. Nunca mais do que isso. Não gostava que lhe pedissem mais do que poderia dar. Trabalhar é coisa de doido, dizia. Os passarinhos não vivem com o que a natureza lhes dá? Para que acumular o desnecessário. Vivo um dia de cada vez e basta. E de fato assim vivia. Ninguém ousava desmenti-lo. Caminhava para cinqüenta e um. No seu aniversário de cinqüenta anos, foi a única vez que o vi chorar. Com razão. Uma festa surpresa daquelas, envolvendo quase toda a comunidade... foi de cortar o coração.
        Nessa festa, Zé da Praça, como era chamado, virou cidadão. Fez barba, bigode e cabelo. Melhor dizendo, foi batizado, ganhou um nome e carteira de identidade. Com os documentos na mão, poderia tirar título de eleitor, votar nas próximas eleições. Honraria seus direitos de cidadão. Nunca pagou impostos, mas nunca roubou de ninguém. Queria ver a sua praça mais bem cuidada, com coleta seletiva de lixo e banheiro público. Nunca se acostumou com o seu mau cheiro. - O povo não tem educação. Acha que qualquer poste, qualquer esquina é banheiro público, reclamava.
         A comunidade não mediu esforços para agradá-lo. Houve churrasco, vinagrete e feijão tropeiro, seu prato predileto. De beber, não faltou a cerveja do gosto seu. Ganhou camisas, calças, cuecas, bermudas, sandálias, chinelos e sapatos. E livros, muitos. De todos os gêneros: romances, policiais, ficção científica e biografias. Onde pôr tanta coisa. Colchão novo, cobertores, relógios, televisão, walkman, iPod, celulares e uma reportagem no jornal do bairro e na TV de maior audiência da cidade. Os seus amigos queriam que Amadeus, seu nome de batismo, fosse encontrado pelos seus parentes. Todos amavam Amadeus e o queriam bem.
        Amadeus soprou vela, cantou, chorou, sorriu, agradeceu, dançou e se perdeu no meio de tanta gente, tantos presentes, tantas homenagens. Pensava: para que tudo isso, se sou só um. Tenho dois pés, portanto, preciso apenas de um par de sapatos, talvez outro de chinelos. Uma calça dá pra mim a semana inteira...
        A música, a luz artificialmente instalada para iluminar a pracinha, aquele falatório, gente feliz, comes e bebes à vontade, desnortearam Amadeus. Chegou hora, lá pelas quatro da manhã, quis seu canto. Recostou-se com dificuldade no travesseiro novo, ainda pouco à vontade no colchão. Tudo lhe era meio estranho; parecia que já tinha vivido aquilo. Aquele carinho, aquele conforto, aquele aconchego. E antes de pegar no sono, chorou o que não chorara a vida inteira.
        No dia seguinte quis controlar o trânsito, mas estava meio nas nuvens, com muito sono, numa estranha embriaguês. A cerveja de gosto seu era sem álcool. Chegou a pensar que tudo aquilo fora um sonho. Para seu pesadelo, era tudo realidade. Uma realidade fora de sua realidade. O que de seu existia ali? Voltou a chorar compulsivamente, porém sem alarde, sem que ninguém o ouvisse.



Depois daquele momento catártico, saiu do seu canto num dos cantos da praça e com um carrinho de mão emprestado, levou quase tudo que ganhara para o pessoal de uma vila próxima. Desfez-se de radinhos, relógios, iPod, cobertores, celulares, pares de sapatos, sandálias e chinelos. Somente o necessário, não mais que o suficiente, lhe restou. Doou tudo o mais.
        Pensou bem e não autorizou a reportagem na TV de maior audiência da cidade, para a indignação de todos. Retomou o nome Zé da Praça. Voltou a ter barba e bigode e a distribuir sorrisos e gentileza para todos. Era somente isso que queria. E foi assim que conquistou amigos, reconhecimento e admiração. É assim que se reconhece. Zé da Praça! que dá notícias de tudo, tem boa leitura, seu ponto de vista sobre o mundo, seu respeito a opinião alheia.
        Com o tempo, os moradores da comunidade entenderam a opção de Zé da Praça. De fato, ele não precisa de muitos cobertores, roupas, sapatos, televisão, radinhos. Muito menos relógios e celulares. Quando precisa saber das horas, olha para o sol ou escuta o seu estômago. Assiste a TV quando nos bares faz as refeições, e não tem pra quem telefonar. Leu todos os livros que ganhou e depois os doou para a escola do bairro. Só não abriu mão de sua cidadania... Quando revira o lixo, é para ver se encontra algum papel escrito, alguma revista de seu interesse. Tem mais fome de leitura do que de qualquer outra coisa.
        Para viver, faz para hoje.

HILA FLÁVIA/ Cortina de água

CORTINA DE ÁGUA
Hila Flávia


Abençoada água quente do chuveiro
que cura quase tudo neste mundo.
Cura cansaço, tensão, amolação,
dores em geral e em particular das costas,
tristezas, aborrecimentos, aflição,
ansiedade, dor de cabeça, gripe leve;
lava o corpo e molha inteiro
o ser que precisa descansar.
E alenta sonhos de grandeza:
cantores famosos de vêem na tevê,
artistas cobiçados, nas novelas.

Parece que a cortina de água quente
fecha a janela da realidade
anula toda espécie de verdade
transforma em sonhador qualquer vivente.

10.09.08

SETE VIDAS

    Márcio Simeone

Meu gato não tem medo de morrer, porque tem sete vidas. Mas tem medo de viver, acredite. Fica acabrunhado pelos cantos, sem vontades e, assim, sequer usa de tantas vidas. Pelo visto desconhece que tal crédito só lhe é mesmo concedido caso não tenha medos e viva plenamente seus momentos.
Tento explicar-lhe isso, mas ele, apático, sequer balança a cabeça. Gostaria de demonstrar-lhe que o medo de viver é pior do que o medo de morrer (pois é mesmo do medo de viver que se morre). Debalde. Que alegria se compreendesse que, em verdade, não possui o privilégio de viver sete vidas em ordenada seqüência, mas sim as sete de uma só vez (pois sendo assim as multiplica de novo por sete). Conheço uma gata assim, com vidas ao quadrado. Tal abundância pode não fazer com que viva mais tempo, mas certamente a faz mais feliz e completa. Imagine viver sete (ou sete vezes sete) vidas ao mesmo tempo! Há vida que sobra para si e para distribuir.
Mas meu gato não dá conta sequer de sua única e monótona vida...
Sabe que aprendi muito com ele? Não sei quantas vidas o homem possui, porque em nenhum lugar está escrito. Pela lógica, não pode ser uma, porque o quadrado de um é o mesmo um e daí se fica nisso mesmo, como o meu pobre gato.
Sempre que perco os meus medos, preencho meus espaços vazios e saio de mim mesmo, recebo créditos de três, ou quatro, ou talvez cinco vidas. Não sei exatamente, mas não importa. Com duas (ou com duas vezes duas) vidas bem vividas, já sou capaz de me realizar e de fazer mais alguém feliz. Ah, se meu gato soubesse...

09.09.08

NADA A VER (parte 3 - epílogo)

Márcio Simeone

A chegada, desta vez, foi um pouco diferente, porque teve uma surpresa. O lugar era exatamente igual aos anteriores, não tinha nada. Ou melhor, quase nada. O que o surpreendera fora a presença daquele seu grande amigo que lhe escrevera o bilhete. Pensou que os seus olhos o traíam, mas não: era ele mesmo! Sentiu grande alegria, afinal. Seus rostos se iluminaram. Eles se abraçaram muito e demoraram a se refazer da surpresa do encontro.
_Enfim você chegou! – disse o amigo. Este é o lugar que lhe descrevi e quero que você mesmo o veja e sinta!
Tibúrcio olhou em redor, intrigado. Não sabia a quê o amigo se referia. Além desse amigo e, é claro, da entrada das três trilhas, não via nada, não sentia nada. Um nada tão vazio quanto antes, não fosse algo novo que tinha em seu peito: o conforto de encontrar esse amigo.
_Mas como? Não vejo nada! – declarou ao amigo.
_Não? Como não? Não está vendo quanta beleza, quantas cores, quantos sons diferentes? Não vê aquelas flores lá adiante?
_Juro que não! – disse Tibúrcio, desapontado. Vejo tudo branco, vazio.
_Pois descanse. Deve ser porque está cansado, acabou de chegar e ainda não acostumou a sua vista. Vou deixá-lo um pouco só. Durma um pouco. Depois volto.
Quando o amigo se afastou, Tibúrcio resolveu chamar seu anjo-guia. Fez a invocação e veio Aparício de pronto em seu auxílio.
_Estou confuso, Aparício... Encontrei meu amigo, mas não vejo nem sinto o mesmo que ele. Onde está aquele paraíso de cores, sons e cheiros que ele descreve, no qual se sente tão bem? Assim como nos outros lugares em que cheguei, não vejo nada, está tudo vazio!
_Devo dizer-te, amigo Tibúrcio, que assim é o trajeto: tudo está entre um vazio e outro, nos caminhos que levam de nada em nada. Tudo é tua experiência e podes fazê-la mais curta ou extensa, conforme queiras, conforme o momento. Os que procuram o atalho, o caminho direito, são em sua maioria os jovens e os velhos. Os jovens, porque têm pressa e são ambiciosos. Os velhos, porque já têm muita experiência e com ela podem chegar mais longe. No correr da trajetória, o mais importante é tomar consciência das melhores formas de organizar essa experiência, sabendo que aqui não há mesmo nada. Se alguém, como o teu amigo, vê aqui alguma coisa além do vazio e das entradas dos três caminhos, é pura ilusão. Isso o faz paralisar. Ele ficará por aqui, cultivando sua ilusão, até quando se dê conta de que em verdade não há nada, e só então seguirá, movendo-se para o tudo que há nos caminhos. De tudo em tudo e de nada em nada, cumprirá sua trajetória, comporá sua história, sempre incerta, que dependerá do quanto puder captar nesses caminhos.
_E como posso fazer para escolher melhor? – Tibúrcio quis ainda saber.
_Na dúvida, toma o caminho do meio – resumiu Aparício. Mas tu não deves – completou o anjo – fazer isso continuamente. Arrisca-te também à esquerda e à direita. Não te deixes aprisionar a um só caminho: nem por medo, nem por ambição, nem pelas seduções ou pelas promessas ilusórias. Muito importante, meu amigo, é que te lembres sempre que não há retorno. Mas, a cada momento em que fores iniciar novo trecho, tudo sempre estará lá, o mesmo todo, pronto para que tu vejas, sintas, respires, incorpores.
Tibúrcio quedou pensativo e, ainda curioso, indagou:
_E quanto termina tudo isso?
O anjo Aparício respirou profundamente e respondeu:
_Saberás que terminaste a trajetória quando chegares a um nada ainda mais vazio: não verás mais as três entradas para os caminhos. Sentirás o amplo vazio dominar-te, integrar-se a ti e não te incomodarás, porque compreenderás que também o nada está em tudo. É tua derradeira experiência, a da plenitude. Esta é eterna e a mais concreta de todas. Livre das ilusões, desnecessárias as escolhas, nada mais estará, tudo simplesmente será.
Dito isto, o anjo-guia desapareceu. Tibúrcio viu, num relance, seu amigo adentrar pelo portal dourado, apressado. Levantou-se, sentiu o profundo silêncio daquele lugar vazio, foi-se dirigindo lentamente para o caminho da esquerda. Porém, quando já estava bem próximo, vacilou. Lembrou-se do que havia dito o anjo e então, sem mais hesitar, voltou-se um pouco e tomou o caminho do meio, na esperança de uma experiência só sua e de construção de suas próprias ilusões