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Márcio Simeone
O que se quer do amor
É que venha em paz e calma
Que se abra sem alarde como uma flor, de manhã, no jardim da frente.
Mas às vezes vem tropeçando, no alarido dos tropéis de fim de tarde,
vem e passa.
Há o amor que vem protegido pela escuridão da noite,
sensível e invisível, domina
e se esquece de amanhecer.
O que se quer do amor
É que venha sem hora.
Mas às vezes vem, de manhã, apressado,
de tarde, culpado e de noite, cansado.
Vem e passa.
Há o amor que se lança na seqüência sem fim
de dias luminosos e de noites profundas
e se esquece de anoitecer.

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01:07:18
Márcio Simeone
Meu gato não tem medo de morrer, porque tem sete vidas. Mas tem medo de viver, acredite. Fica acabrunhado pelos cantos, sem vontades e, assim, sequer usa de tantas vidas. Pelo visto desconhece que tal crédito só lhe é mesmo concedido caso não tenha medos e viva plenamente seus momentos.
Tento explicar-lhe isso, mas ele, apático, sequer balança a cabeça. Gostaria de demonstrar-lhe que o medo de viver é pior do que o medo de morrer (pois é mesmo do medo de viver que se morre). Debalde. Que alegria se compreendesse que, em verdade, não possui o privilégio de viver sete vidas em ordenada seqüência, mas sim as sete de uma só vez (pois sendo assim as multiplica de novo por sete). Conheço uma gata assim, com vidas ao quadrado. Tal abundância pode não fazer com que viva mais tempo, mas certamente a faz mais feliz e completa. Imagine viver sete (ou sete vezes sete) vidas ao mesmo tempo! Há vida que sobra para si e para distribuir.
Mas meu gato não dá conta sequer de sua única e monótona vida...
Sabe que aprendi muito com ele? Não sei quantas vidas o homem possui, porque em nenhum lugar está escrito. Pela lógica, não pode ser uma, porque o quadrado de um é o mesmo um e daí se fica nisso mesmo, como o meu pobre gato.
Sempre que perco os meus medos, preencho meus espaços vazios e saio de mim mesmo, recebo créditos de três, ou quatro, ou talvez cinco vidas. Não sei exatamente, mas não importa. Com duas (ou com duas vezes duas) vidas bem vividas, já sou capaz de me realizar e de fazer mais alguém feliz. Ah, se meu gato soubesse...

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21:36:01Márcio Simeone
A chegada, desta vez, foi um pouco diferente, porque teve uma surpresa. O lugar era exatamente igual aos anteriores, não tinha nada. Ou melhor, quase nada. O que o surpreendera fora a presença daquele seu grande amigo que lhe escrevera o bilhete. Pensou que os seus olhos o traíam, mas não: era ele mesmo! Sentiu grande alegria, afinal. Seus rostos se iluminaram. Eles se abraçaram muito e demoraram a se refazer da surpresa do encontro.
_Enfim você chegou! – disse o amigo. Este é o lugar que lhe descrevi e quero que você mesmo o veja e sinta!
Tibúrcio olhou em redor, intrigado. Não sabia a quê o amigo se referia. Além desse amigo e, é claro, da entrada das três trilhas, não via nada, não sentia nada. Um nada tão vazio quanto antes, não fosse algo novo que tinha em seu peito: o conforto de encontrar esse amigo.
_Mas como? Não vejo nada! – declarou ao amigo.
_Não? Como não? Não está vendo quanta beleza, quantas cores, quantos sons diferentes? Não vê aquelas flores lá adiante?
_Juro que não! – disse Tibúrcio, desapontado. Vejo tudo branco, vazio.
_Pois descanse. Deve ser porque está cansado, acabou de chegar e ainda não acostumou a sua vista. Vou deixá-lo um pouco só. Durma um pouco. Depois volto.
Quando o amigo se afastou, Tibúrcio resolveu chamar seu anjo-guia. Fez a invocação e veio Aparício de pronto em seu auxílio.
_Estou confuso, Aparício... Encontrei meu amigo, mas não vejo nem sinto o mesmo que ele. Onde está aquele paraíso de cores, sons e cheiros que ele descreve, no qual se sente tão bem? Assim como nos outros lugares em que cheguei, não vejo nada, está tudo vazio!
_Devo dizer-te, amigo Tibúrcio, que assim é o trajeto: tudo está entre um vazio e outro, nos caminhos que levam de nada em nada. Tudo é tua experiência e podes fazê-la mais curta ou extensa, conforme queiras, conforme o momento. Os que procuram o atalho, o caminho direito, são em sua maioria os jovens e os velhos. Os jovens, porque têm pressa e são ambiciosos. Os velhos, porque já têm muita experiência e com ela podem chegar mais longe. No correr da trajetória, o mais importante é tomar consciência das melhores formas de organizar essa experiência, sabendo que aqui não há mesmo nada. Se alguém, como o teu amigo, vê aqui alguma coisa além do vazio e das entradas dos três caminhos, é pura ilusão. Isso o faz paralisar. Ele ficará por aqui, cultivando sua ilusão, até quando se dê conta de que em verdade não há nada, e só então seguirá, movendo-se para o tudo que há nos caminhos. De tudo em tudo e de nada em nada, cumprirá sua trajetória, comporá sua história, sempre incerta, que dependerá do quanto puder captar nesses caminhos.
_E como posso fazer para escolher melhor? – Tibúrcio quis ainda saber.
_Na dúvida, toma o caminho do meio – resumiu Aparício. Mas tu não deves – completou o anjo – fazer isso continuamente. Arrisca-te também à esquerda e à direita. Não te deixes aprisionar a um só caminho: nem por medo, nem por ambição, nem pelas seduções ou pelas promessas ilusórias. Muito importante, meu amigo, é que te lembres sempre que não há retorno. Mas, a cada momento em que fores iniciar novo trecho, tudo sempre estará lá, o mesmo todo, pronto para que tu vejas, sintas, respires, incorpores.
Tibúrcio quedou pensativo e, ainda curioso, indagou:
_E quanto termina tudo isso?
O anjo Aparício respirou profundamente e respondeu:
_Saberás que terminaste a trajetória quando chegares a um nada ainda mais vazio: não verás mais as três entradas para os caminhos. Sentirás o amplo vazio dominar-te, integrar-se a ti e não te incomodarás, porque compreenderás que também o nada está em tudo. É tua derradeira experiência, a da plenitude. Esta é eterna e a mais concreta de todas. Livre das ilusões, desnecessárias as escolhas, nada mais estará, tudo simplesmente será.
Dito isto, o anjo-guia desapareceu. Tibúrcio viu, num relance, seu amigo adentrar pelo portal dourado, apressado. Levantou-se, sentiu o profundo silêncio daquele lugar vazio, foi-se dirigindo lentamente para o caminho da esquerda. Porém, quando já estava bem próximo, vacilou. Lembrou-se do que havia dito o anjo e então, sem mais hesitar, voltou-se um pouco e tomou o caminho do meio, na esperança de uma experiência só sua e de construção de suas próprias ilusões

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08:54:16