Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.
Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.
Tenho uma amiga que mora na Bahia e para ir trabalhar, todos os dias, é obrigada a pegar uma balsa. Convive diariamente com o mar. Vê peixes pulando n’água. Vê pássaros acompanhando com vôos rasantes as embarcações pesqueiras. Vê céu azul e dias nublados. Vê ondas calmas e em dias de ventanias, ondas altas. Para chegar a Porto Seguro, segue pela orla e vê hora o horizonte, hora mato ou mar. Vai bebendo poesia pelo caminho. Vê a areia clara e deseja a quietude, o silêncio. Deseja respirar sem nada querer. Após este mergulho diário na realidade do seu entorno, ela mergulha nas mentes, muitas dementes, cheias de lodos, de seus pacientes. Verdadeiros abismos obscuros. Há nisto tudo algo de simples e de complexo que me fascina. Nossa vida é mesmo assim: o simples e o complexo estão aí para serem saboreados. O amargo e o doce. O céu e o inferno. O verão e o inverno. O calor e o frio. O silêncio e o grito. A fome e a saciedade. O bem e o mal. Os opostos, enfim. Que só são opostos porque estão lado a lado. Um existindo por causa do outro. Na medida da escolha. Eu escolho a poesia e ela até anda me escolhendo. Mais do que escrevê-la, o que desejo mesmo é vivê-la. Dia desses, meu pai plantou um canteiro de cenouras. A poesia cismou de cair na terra. Os dedos dele iam esparramando sementes e ele parecia envolto em luz. Eu quis fotografar. O homem plantando resgata nossa própria identidade. Este tocar a terra é o mesmo que tocar a humanidade. Somos terra. Saí desta cena e encontrei um amigo na rua. Ele há pouco “perdeu” sua mãe. Está sensível e, por isso, “antenado” com a poesia. Contou-me de uma viagem que fizera sozinho. Falou que chegou a uma praia. Viu aproximar uma família simples. Gente da terra. Atravessaram a rua para comprar roupa de banho em uma daquelas lojinhas beira-mar. Estavam fascinados com a imensidão do mar, com o balanço das ondas. Meu amigo estava fascinado com eles. Com a harmonia daquela família. Com o quanto é fácil ser feliz. O quanto é simples ser feliz. Custa pouco, quase nada em dinheiro. Ele pensou que eles estavam conhecendo a praia naquela oportunidade. Estavam tocando o infinito. Mas também meu amigo estava vivenciando o infinito. Há na poesia cotidiana a assinatura de Deus. Todas essas sensações de êxtase nada mais são do que uma forma de oração. É como se nossa alma entrasse em comunhão com o Criador através de suas criaturas: mar, vento, terra, pássaros, peixes, areia, sementes, árvores, o homem e seus desejos. É assim que olho a vida. Dizem que os olhos são as janelas do corpo. Mas não sei de que lado estamos: se de fora pra dentro ou de dentro pra fora como na canção de Walter Franco:
“Viver é afinar o instrumento/ de dentro pra fora/ de fora pra dentro amor não chora / de sofrimento / cheguei agora / no vento Eu só voltei pra te contar / viajei / fui pra serra do luar Eu mergulhei / eu quis voar / agora vem / vem pra terra descansar...”
Ana Cláudia de Souza Saldanha Membro da Academia de Letras de Pará de Minas