Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Março 2009, 06

06.03.09

MEMÓRIAS DO LIVRO

Fico desamparada toda vez que termino de ler um bom livro. As últimas vinte páginas provocam-me um sentimento ambiguo: o prazer e a amargura. Nem preciso explicar.
Em meus objetivos literários deste ano está a leitura de no mínimo doze bons livros. Confesso que cumpro com desenvoltura esta meta e sinceramente gostaria que os demais objetivos a que me proponho fossem igualmente fáceis, mas não são.
Neste início de ano li Cury, Frei Betto e, agora, acabo de ler Geraldine Brooks, escritora australiana vencedora do Pulitzer de Ficção. Li “As Memórias do Livro”, tradução de Marcos Malvezzi Leal.
O livro é aberto com a instigante frase: “No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens” (Henrich Heine). O romance é sobre o Manuscrito de Sarajevo – a Hagadá – Um livro judeu medieval desaparecido em 1992, durante a guerra civil que foi encontrado na capital da Bósnia. O livro contraria cânones religiosos da época, que proibiam qualquer tipo de ilustração.
A história é inteligente, bem construída. A autora usa fatos reais e fictícios e desta forma passeia pela História. Uma obra de arte! Consegue mostrar o valor de um livro quando afirma: “Um livro é mais do que a soma de seus materiais. É um artefato da mente e da mão humana”. Posso compreender isto com meus sentidos e com minha alma.
Logo no início mudei totalmente a idéia que eu tinha sobre restauração. Pensava, erroneamente, que ao restaurar um livro deveríamos deixá-lo novo. Na página 26, “Restaurar um livro ao que ele era quando foi feito, é falta de respeito por sua história. Penso que temos que aceitar um livro da maneira como o recebemos das gerações passadas; e, até certo ponto, os danos e o desgaste refletem essa história”. Desta forma, restaurar é deixá-lo em condições de ser manuseado com segurança. Consertar o absolutamente necessário.
Acabei pensado também em nós... Seria bom se pudéssemos respeitar nossas marcas como memória de nossas caminhadas...
Voltando ao livro, uma idéia ficou perseguindo-me o tempo todo da leitura: o conhecimento não pertence a um povo, a uma nação. E é preciso que ele seja protegido quando perdemos a cabeça. Penso que perdemos a cabeça toda vez que fazemos guerras e que somos capazes de destruir o que nos constrói a todo dia.
Mais triste ainda é quando esta destruição vem acompanhada pela justificativa: “em honra de Deus”. Confesso ter muito medo desta incapacidade humana de reconhecer e respeitar as diferenças. Volta e meia e a indelicadeza bate a nossa porta dando o ar da (des)graça. Faz estrago, queima homens e livros.
Fui trabalhar em uma escola a alguns anos atrás e a “bibliotecária” me disse que não gostava de livros “velhos”. Fui conferir quais eram os livros velhos. Tinha até Machado de Assis! Precisavam ser restaurados. Felizmente a capa estragada poderia ser vestígio de muito uso. Mesmo que se tratasse de um livro "arcaico”, deveríamos ter em nossas bibliotecas espaço reservado para estes, afinal eles representam o saber de uma época.
O drama de livros “obsoletos” que acabam incinerados já foi vastamente discutido por Pedro Nava em suas memórias. Realmente precisamos repensar isto. Hoje, com toda nossa tecnologia, fazemos livros aos montes. Mesmo assim, não consigo condenar nenhum exemplar às chamas sem ter a impressão de que estaria queimando gente. Quantas vezes li coisas que nada me diziam, que não consegui comungar com seus autores, e, que nem por isso pensei que estivessem errados ou certos?! Ao queimar um livro não significa que estamos exterminando com as idéias que eles registram, mas estamos violentando a História.
Vale a pena ler “As memórias do livro”. Penso que ao terminar esta leitura somos mais humanos e mais planetários do que nunca. Olharemos, não só os livros, mas todo e qualquer objeto com outros olhos. É possível também compreender os homens em suas loucuras e sabedorias.
Evoco meu querido Quintana para terminar dizendo:

“Como estranhas lembranças de outras vidas,
que outros viveram, num estranho mundo,
quantas coisas perdidas e esquecidas
no teu baú de espantos... bem no fundo...”

05.03.09

MEU TEMPO (43)

                                                                                                                                          Márcio Simeone

Quando eu era criança, meu tempo não tinha segundos. Quando o mundo era criança, o tempo era só o do fazer e dependia. Dependia de alguém virar a ampulheta e fazer escorrer a fina areia. Eu dava corda no tempo. O tempo era meu, era nosso, construía uma era. Era nova, o mundo cresceu - e depende. Depende do tempo medido, que não medimos, tempo atômico que a máquina mede. Mede-se ele próprio e é preciso. É preciso que o tempo nos avise que é hora disso ou daquilo. O tempo fora de mim já não é o meu tempo. Quem dá corda no tempo? Cresci e meu tempo está fora de mim. Virou calendário! Ele me faz e desfaz. Hoje vou brincar com o tempo, nem que por um minuto. Sejam quarenta e três anos o giro da ampulheta. Tempo que voa, insignificante na eternidade, mas este tempo é só meu.