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Márcio Simeone
Ela parecia crônica e irremediavelmente triste. Seu ar melancólico enchia o ambiente e era impossível não achar naquela tristeza algo de belo. Era suave, calma. Mas tão plangente que eu sentia a sua dor bem dentro do meu próprio peito. Não podia deixar de admirar o modo como encarava aquele sofrimento, a dor de uma perda tão grande, talvez a pior das perdas. Não haveria choro a dar conta de tanto motivo.
Isso, contudo, me afligia. Nada aflige mais do que atar-se à dor alheia desta forma. Sentia-me impotente, via sua força muito maior do que a minha e me quedava inerte, sem coragem de desligar-me dela. Pensei nisso muitas vezes, tive o ímpeto de sair e seguir meu caminho, carregar as minhas próprias cruzes, mas fraquejei. Senti-me condenado a viver com ela esta perda, a dela, até o fim de nossos dias, num estranho compromisso que nunca havíamos selado de fato, além de um amor – meio vacilante, é verdade – que se consumia em atos de piedade.
Penso que não teria sido jamais solidário, mas piedoso. Cheguei a pensar que não a amava de fato, mas apenas à sua tristeza, altiva e bela. Talvez nem vivesse ao lado dela, mas por detrás dela e via, assim, minha juventude se desvanecer. Mas ela cuidava de mim, me punha num lugar onde nunca antes estive. Não poderia deixar que ela me perdesse também, pois ela não suportaria isso e o remorso me perseguiria.
Pois isso, um dia, mudou. Não aquela tristeza que ela possuía, tão sua, mas o que eu mesmo sentia. Não sei exatamente o que aconteceu, mas algo despertou em mim uma alegria inaudita. Abria-me os poros, me trazia uma energia que nunca tivera, me fazia sentir como uma criança, com seu espírito leve, mas ao mesmo tempo um homem feito, capaz, destemido, que ansiava pelo mundo. Desejei profundamente dividir com ela aquela alegria que subitamente me invadira. Foi em vão. Travou-se um duelo onde ela, mais vivida e mais forte do que eu, venceu rapidamente. Senti uma dor mais forte ainda e, desta vez, aquela tristeza não mais pareceu suave e bela. Tornou-se funda, cortante como uma afiada lâmina. Tive medo. Muito medo de que minha alegria jamais tivesse espaço em meu coração ferido. Pela primeira vez não senti dó, mas raiva, de mim e dela.
Perdê-la foi para mim uma dor. Mas agora uma dor suave e bela, um sofrer terno. Dela nasceu uma nova e grata alegria. Seja por qual destino – se torto ou direito – tenhamos um dia nos unido, não mais interessava. Importava-me só o destino caprichoso que, quem sabe, virá unir não mais as nossas tristezas, mas as nossas cultivadas alegrias.

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18:02:55