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Márcio Simeone
Sua inspiração guiava muitas e muitas vontades. Vontade de dizer coisas que jamais poderia. Dizia, então, só para dentro. As coisas ficavam assim: sempre uma eterna latência. E latejava... Suas expectativas eram intermitentes, mas vinham com força como ondas na maré alta. Na maré baixa sobrava um agito bem calmo, alguma espuma. Nada, porém, acontecia, que não fosse apenas o ir e vir das vontades. Tudo assim parecia normal, tudo tão previsível como a hora das marés, segundo os caprichos da Lua. Até que sobreveio o inesperado – e o inesperado sempre se pode esperar que aconteça. Embora improvável, um dia aconteceu. Um dia sempre acontece algo improvável. Tudo mudou por obra da natureza que se lançou furiosa levantando o mar, arrastando tudo. Foi então que saiu do torpor, gritou e gritou, disse tudo, arrancando-se de si mesmo. Pareceu a todos a natureza enlouquecida, como se Deus tivesse uma mente fraca como os homens e se tornasse insano de repente. Deus enlouquece? Não. Só nós. Mas a natureza se enfurece quando não a respeitamos. Havia que deixar acontecer, que dizer, que movimentar-se para além da normalidade das marés, que tirar do meio de si um gesto novo, inesperado, destemido, que abraçasse suas vontades todas de uma só vez. Muitas e muitas vontades, até do que não se quer, mas que não se evita.

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09:09:52