Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Janeiro 2009

21.01.09

Sobre a tristeza

Márcio Simeone

Ouvia-se uma música melancólica. Foi um dia de acordar triste, de se avistar a tristeza chegando de leve, vinda de algum lugar que não se sabia. Mas não se sabe mesmo nunca de onde vem, nem se deseja saber. Vem de visita. Não vem por conta própria. Às vezes vem trazida pela saudade, uma tristeza que, no fundo, é boa, casada com a memória. Mas também pega carona na frustração, deixa-se penetrar em nossa casa pelas mãos da decepção, vem de braços com a injustiça, com a solidão, com a raiva, com a mágoa, com a desilusão, com o desânimo, ou ainda com os dramas das decisões mais íntimas.
Quando entra pela porta escancarada do coração, nos toma de assalto, mas é uma tristeza funda, que emociona, que toca, que reabastece. Se entra pela porta frágil das perdas nos abate, causa dor aguda, mas que, quando passa, nos fortalece. Se entra pela porta semi-cerrada da razão, nos aflige, pela consciência da própria tristeza, mas nos amadurece.
A tristeza é bela, seja como for. Se assim a reconhecemos, nos traz paz. É também companheira, com a qual nos havemos sozinhos. Tira retratos do mundo em branco e preto, não deixa as cores ofuscarem nossa visão. Limpa nossos olhos e apura nossos ouvidos. Tanto quanto a alegria, merece ser apreciada, curtida. É visita que chega sempre de manso, sem alarde, vinda de onde não sabe, feita de matéria volátil, fluida como a lágrima, leve como um sonho.

19.01.09

AO AMOR INCERTO

Márcio Simeone

Por várias vezes o vi, ao crepúsculo, naquela praia. Fiquei a observar seu movimento rotineiro. Chegava trazendo consigo uma grande bolsa, dirigia-se à beira das pedras, onde o mar explodia mais livre das areias. Abria sua bagagem e de lá retirava, uma a uma, três garrafas, deitando-as ao mar. Sentava-se, calado, observando placidamente o balançar das garrafas com o movimento hipnótico das ondas. Aguardava o sol se esconder e só então se levantava e saía. Tive aguçada a minha curiosidade. Já ouvira muitas histórias de mensagens em garrafas, uma comunicação lançada ao destino, aos cuidados da correnteza. Intrigava-me o gesto repetido daquele rapaz. O que conteriam aquelas garrafas? Bilhetes com mensagens aos tempos? Pedidos de socorro? Certa vez, após observá-lo em seus procedimentos, vi-o afastar-se e me dirigi à ponta das pedras. Vi que uma das garrafas tinha sido jogada pelas ondas por cima de um pequeno monte de pedras e ficara encalhada na areia. Peguei-a e pus-me a examiná-la, vendo dentro dela um pedaço de papel dobrado. Foi grande a tentação de abri-la e ler o papel, mas de súbito me contive. Seria como violar uma correspondência. Aquilo não me pertencia. Subi de novo às pedras, disposta a lançá-la de novo ao mar, para que seguisse, desembaraçada, o seu improvável destino. Quando estava prestes a soltá-la, pensei: talvez o destino tenha feito devolver a mensagem ao remetente. Se eu a soltasse de novo à água, quem sabe não estaria provocando uma interferência indevida no correr das coisas? Em dúvida, pus de lado a garrafa, sentei-me sobre a pedra, fechei os olhos e rezei. Pedi a Deus que me desse um sinal sobre o que fazer diante daquela situação. Quando abri os olhos, estava bem escuro. A luz natural já desmaiara e lá de trás só as poucas luzes à beira da praia forneciam alguma orientação. Fixando os olhos para mais longe já era possível ver o facho de luz do velho farol. Foi aí que segui o impulso de lançar a garrafa e ir-me embora. Feito. Sumiu na escuridão uma mensagem rumo ao infinito e minha curiosidade navegou junto, imaginando para onde iria e se alguém a encontraria, recolheria e leria a mensagem nela contida. Não pude dormir aquela noite. Todo o tempo pensava em mil histórias possíveis, com personagens diferentes, vários desdobramentos. Só na semana seguinte tornei a ver o rapaz, que seguiu seu costume. Tive o ímpeto de abordá-lo, mas com receio de interromper o seu ritual solitário me contive. Apenas testemunhei o seu ato tantas vezes repetido e, mais uma vez, passei insone aquela noite. Novo encontro só se deu muitos dias depois. Mas agora a força que me impelia à abordagem foi maior que os meus temores. Esperei que depositasse as garrafas na água e me aproximei em silêncio, por trás. Quando foi sentar-se, percebeu a minha presença. Pareceu-me indiferente, sentou-se e decidi sentar-me ao seu lado. Não se opôs. Ficamos um tempo em silêncio, esperando o sol mergulhar. Criei coragem e comecei a falar, dizendo-lhe que várias vezes observei-o naquele lugar, indagando-lhe sobre a razão daquilo. Surpreendeu-me respondendo que simplesmente enviava mensagens aos seus amores incertos. Quais seriam estes amores? Disse-me que seus amores certos ele sabe onde estão, mas não lhe bastam. Precisa de amores incertos, mas estes não sabe exatamente onde achá-los. Podem estar em toda parte. Por isso lança as garrafas. Nada mais disse e, sem querer importuná-lo, levantei-me e voltei a casa. Mais uma vez me foi impossível conciliar o sono. Fiquei pensando nos amores incertos. Acho que nunca os tive. Busquei apenas os amores certos, os prováveis, os possíveis, mas nunca os incertos. Todos meus amores têm endereço. Imaginei como seria bom ter amores incertos. Mas como eles corresponderiam? Senti que aquele rapaz tinha em cada uma daquelas garrafas um amor incerto, navegante. Alguns tão incertos que nunca mais os veria. Outros, quem sabe? Vivia intensamente sua espera, cultivando em cada remessa o seu amor mais livre, o mais desprendido, aquele que deixava ir no abraço carinhoso do mar. Mas que pode voltar, assim como se vai. Ou que pode dar em outra praia onde, descuidado, o encontre. Quem sabe em viagem ao outro lado do imenso oceano o recolha: outra praia, outras terras, mas o mesmo amor, viajante. Não pude deixar de perceber minha admiração por aquele rapaz. De coração inquieto, esperei encontrá-lo de novo na praia todos os dias seguintes, mas ele não apareceu. Somente três semanas após ele surgiu, assim como sempre. Meu coração, que já estava inquieto, disparou. Nem sei por que, mas me aproximei logo, antes mesmo que ele tirasse da bolsa as garrafas e de minha boca só saiu um tímido e receoso boa tarde. De impulso revelei a ele o que acontecera aquela vez, quando achei uma das garrafas encalhadas e resolvi devolvê-la ao mar. Ele não respondeu de pronto. Apenas retirou calmamente uma a uma das três garrafas, logo dadas ao mar. Para minha surpresa, retirou da bolsa uma quarta e me deu. Nem sei o que senti, mas percebi enorme semelhança com a que eu havia recolhido dias atrás. Ele assentiu com a cabeça à minha indagação não pronunciada. Meu rosto perguntava se seria ela mesma e ele confirmou, também sem dizer palavra. Só depois de um longo silêncio ele disse que a encontrara de novo nesta mesma praia, há algum tempo. Pediu que eu a abrisse e lesse a sua mensagem. Ao ler senti com todas as forças que aquela mensagem era para mim. Não encontrara a garrafa por mero acaso: ela me buscava. E tudo o que eu gostaria de dizer a um amor incerto estava ali, nesta mesma mensagem. Eu a enviara e havia chegado a um destinatário. Ambos havíamos encontrado um amor incerto. Mergulhamos no mar.

14.01.09

TEREZINHA PEREIRA/ Indagações: de vida, de Históri

Indagações: de vida, de História........


        Uma professora de História de uma universidade de Lisboa faz um cruzeiro marítimo com sua filha de 7 anos. Ao final da viagem, pretende se encontrar com o marido em Bombaim, na Índia. Diz haver escolhido fazer essa viagem para conhecer os lugares de que tanto fala a seus alunos em suas aulas. Durante o percurso, o navio faz paradas em regiões mediterrânicas que marcaram a história da cultura ocidental. Ao saírem do Porto de Lisboa, a professora começa a narrar à filha fatos históricos de seu país. O relacionamento das duas parece espontâneo e feliz. A menina questiona, a mãe responde com mais História. Assim acontece quando o navio aporta em Ceuta, cidade espanhola encravada na costa africana, que por um tempo pertenceu a Portugal e foi de grande importância como ponto de apoio às navegações. Ocorre quando o navio pára em Marselha, cidade francesa que fora povoada pelos gregos no século VII a.C.. Repete-se na cidade italiana de Pompéia, cuja vida de seus habitantes fora bruscamente interrompida quando, no início da era cristã, o vulcão Vesúvio a cobriu por inteiro. Região que foi redescoberta após anos e anos de escavações, quando suas belas mansões, ruas pavimentadas, nomes de personalidades marcantes, obras de arte, o cotidiano e os costumes de seu povo, vieram à luz. Ocorre também quando o navio chega ao Egito, onde as colossais pirâmides, edificações de cerca dos anos de 2550 a.C ., que até hoje desafiam os conhecimentos e a inteligência do homem de hoje; e em Istambul, cidade situada em dois continentes, parte na Europa, parte na Ásia, que foi cenário da História pelos anos 7500 a.C.. Istambul foi a esplendorosa Constantinopla do império bizantino, antes de ser tomada pelos turcos, lá pelos 1500 d.C.
        O capitão do navio fala diversas línguas, conhece quase todos os portos. Às tardes, à mesa do jantar, reúne gente de nações diversas. Falam de suas vidas, de seus desejos, de suas esperanças. Cada um se expressa na sua língua materna e se entendem. Mãe e filha são convidadas a roda. Então, falam de línguas faladas no mundo, da língua grega, que apesar de ter sido a língua base de toda a civilização ocidental é falada somente na Grécia; comentam que a língua portuguesa, por causa das grandes navegações dos portugueses e colonização das terras descobertas, tornou-se uma língua falada em todos os continentes.
        Chega um momento, quase no final do cruzeiro, em que a embarcação entra no canal de Suez, que liga os mares Mediterrâneo e Vermelho, última parte de seu percurso. A menina continua curiosa, quem sabe fazendo perguntas que fazemos a nós mesmos quando estamos diante de fatos históricos. Quem foi D. Sebastião? E o infante D. Henrique? O que é um mito? O que é uma lenda? O que é um muçulmano? O que é um árabe? Porque que há guerras? Por que fazem guerras se morre tanta gente?
         Sem sinal de guerra aparente, sem razão aparente, aquele navio fora “escolhido” para ser explodido. Se os passageiros foram avisados antes? Foram. Embarcaram em botes vestindo coletes salva-vidas. Sem explicação aceitável, por um atraso também não explicado, mãe e filha não tiveram tempo para deixar o navio com os outros passageiros. Ouviu-se um estrondo, viu-se o fogo. Uma expressão de espanto, de pavor, de indignação surgiu no rosto do capitão. Quem teria o direito de cortar a história de vida de mãe e filha que viajavam ao encontro do pai? Por que o terrorismo? Que diabo de ideologia é essa?
        Essa mesma expressão de perplexidade podemos ver no rosto do povo brasileiro ao saber da notícia da morte de uma criança ao ser arrastada, presa num cinto de segurança de um carro. Quem teria o direito de interromper a história dessa vida, de uma família? E pior. Esse é um fato que vem se repetindo dia a dia. Quem de nós não teria um caso semelhante para contar, de um parente, amigo ou conhecido, que tenha perdido a vida ou sido mutilado por um tiro ou outra arma qualquer em um assalto, na maioria das vezes, a troco de quase nada, ou seja um celular, um cartão bancário, uns poucos reais?
        O caso do ataque às torres em Nova York. Quem teria o direito de aniquilar cerca de 3.500 vidas, interromper a história de tantas pessoas... A troco de quê? Cada um dos familiares das pessoas que morreram naquele dia deve ter se perguntado: porque aconteceu com meu pai, minha mãe, meu filho, meu amigo, com tanta gente que nem conheço?
        Bem que podia chegar a hora do mundo se unir, apesar de todas as diferenças de línguas, raças, religiões, costumes, saberes, em favor da vida pessoal e coletiva. Afinal, em vista da História, a vida de cada um de nós é um período tão curto de passagem por esse mundo... Por que interromper ou mesmo desviar a história individual ou coletiva, se a própria natureza se encarrega disso, no momento devido? Deus, por que? A vida se vai e todas as riquezas, todo o dinheiro, todo o petróleo ficam.


(crônica inspirada no filme “Um filme falado”, do diretor português Manoel de Oliveira, que completou 100 anos de idade no final de 2008, que nos passa uma mensagem de indignação a respeito da falta de paz no mundo de hoje)