Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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10.12.08

HILA FLÁVIA / Natalício

                                                   NATALÍCIO

                                                    Hila Flávia

        Brilhou na árvore um vagalume. Não estava preso nos galhos. Apenasmente se encostou um pouco para iluminar. Então veio outro; e depois mais outro; e mais um. Num instante mágico pequeninas luzes piscavam, de alto a baixo.
        E o menino sorriu.
        Um sorriso de puro encantamento.
        Afinal, era seu aniversário. Não sabia bem porque era ainda um menino, já que, para usar de franqueza, ele fazia mais de dois milênios. A única diferença que tinha dos pequenos bebês era que sabia sorrir. Um sorriso consciente, por algo. Os pequeninos até sorriem, mas o motivo é uma barriguinha cheia ou um ataque de extremo bem-estar.
O menino, não. Sorria e sabia porque sorria. Sabia sorrir.
        E eu vi aquele menino sorrindo. Não queria ter a presunção tamanha de dizer que ele sorriu para mim. Poderia ter sorrido de mim. Os meninos sempre riem de mim. Ou para mim, sei lá.
Mas, pensando bem, vou ser presunçosa e afirmar que o menino sorriu para mim.
        Então fiquei pensando: como é difícil viver um dia de aniversário em que o aniversariante adota como tema a singeleza. É a mesma coisa de um adulto que tem loucura por um dia de sol e detesta se deitar tarde, e os amigos lhe oferecem uma noite inteira da maior barulheira.
        Dá vontade de gritar!
        E esse menino, o que ele quer de aniversário?
        Só quem não quer ver e não quer ouvir e não quer perceber é que não vê, não ouve e não percebe que ele quer paz.
        E o que lhe dão?
        Algazarra, bebedeira, comilança, desvarios, loucuras, obrigações cumpridas de procurar parente que não se procura o ano inteiro, votos formais, presentes acima das posses e abaixo das expectativas, confusão, correria, mau-humor, brigas, descontentamentos, desilusões, enfim, uma festa de aniversário tendo por base um enorme fingimento, uma incomensurável hipocrisia.
        Menino, perdão!
        A experiência de vida vai dando à gente noção exata das coisas e medida certa das ações. E sabemos, com o tempo, que o vazio que sente o ser humano, após uma busca frenética, vem do simples fato de que não foi preenchido o que ele tem de mais sublime, de mais doce, de mais delicado: O AFETO.
        Percebemos que cada pessoa do mundo é um mundo inteiro. Em cada coração cabe todo o universo e toda a solidão. E também todo o amor. E toda a esperança. É sozinho que o ser humano resolve ser ou não feliz. É decisão dele, pessoal, intransferível. Ninguém pode decidir por outro a felicidade e ninguém tem, realmente, o poder de tirá-la de ninguém, se a pessoa não quer perdê-la.
        No seu aniversário, menino, compreendo, todo ano, porque você não fica velho: porque a esperança é eterna. É tão nova que renasce a cada dia, não a cada ano. Esse simbolismo de ano novo é só uma lembrança. Um lembrete. É só uma comemoração. O que realmente se comemora é um vagalume que brilha na árvore plantada nem sei por quem. O que realmente se comemora é o nascer de cada dia, é a estrela luminosa, é a lua, é o sol, são as águas, os pássaros, as cores e os sons. O que realmente se comemora é o AMOR, é a VIDA.
        Quer presente melhor?
        Ofereço-lhe, menino, de presente, a minha vida, a minha alegria, meu trabalho, minha lida. Meu imenso afeto por você.
        E não faço isso por bondade não. Ofereço-lhe o que recebi de graça.
        E foi me sentindo assim, tão pequena e tão grande, tão cheia de ternura no coração, que me tornei um vagalume e me encostei também na árvore que sombreava o lugar do menino. Brilhei, pisquei, voei, dei cambalhotas, fui para lá e para cá, fiz estripulias.
        E ele sorriu para mim.
        Desta vez, eu vi mesmo.
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Neste Natal,
que o Menino-Jesus sorria para você também.
E encha seu coração de PAZ.
Um afetuoso abraço.
Hila Flávia