Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2008, 17

17.09.08

PAULO ROBERTO DOS SANTOS/ Zé da Praça

                                            Zé da Praça

                                                                Paulo Roberto dos Santos



         Distraidamente, ele atravessou a rua, concentrado que estava, lendo o jornal do dia ou de ontem. O que lhe interessava eram os artigos assinados, os editoriais. Segundo ele, já era crescidinho, sabia mentir sozinho. Subiu as escadarias da praça rumo à igreja, sempre atento a sua leitura. Como o amigo e escritor Jaime Mendonça, o sujeito era uma traça, não podia ver um pedaço de papel escrito, devorava-o.
        Era conhecido no bairro. Figura folclórica. Além de regularmente, fazendo sol ou chuva, controlar o trânsito caótico da pracinha pela manhã, fazia uns biscates aqui e outros ali. Nunca mais do que isso. Não gostava que lhe pedissem mais do que poderia dar. Trabalhar é coisa de doido, dizia. Os passarinhos não vivem com o que a natureza lhes dá? Para que acumular o desnecessário. Vivo um dia de cada vez e basta. E de fato assim vivia. Ninguém ousava desmenti-lo. Caminhava para cinqüenta e um. No seu aniversário de cinqüenta anos, foi a única vez que o vi chorar. Com razão. Uma festa surpresa daquelas, envolvendo quase toda a comunidade... foi de cortar o coração.
        Nessa festa, Zé da Praça, como era chamado, virou cidadão. Fez barba, bigode e cabelo. Melhor dizendo, foi batizado, ganhou um nome e carteira de identidade. Com os documentos na mão, poderia tirar título de eleitor, votar nas próximas eleições. Honraria seus direitos de cidadão. Nunca pagou impostos, mas nunca roubou de ninguém. Queria ver a sua praça mais bem cuidada, com coleta seletiva de lixo e banheiro público. Nunca se acostumou com o seu mau cheiro. - O povo não tem educação. Acha que qualquer poste, qualquer esquina é banheiro público, reclamava.
         A comunidade não mediu esforços para agradá-lo. Houve churrasco, vinagrete e feijão tropeiro, seu prato predileto. De beber, não faltou a cerveja do gosto seu. Ganhou camisas, calças, cuecas, bermudas, sandálias, chinelos e sapatos. E livros, muitos. De todos os gêneros: romances, policiais, ficção científica e biografias. Onde pôr tanta coisa. Colchão novo, cobertores, relógios, televisão, walkman, iPod, celulares e uma reportagem no jornal do bairro e na TV de maior audiência da cidade. Os seus amigos queriam que Amadeus, seu nome de batismo, fosse encontrado pelos seus parentes. Todos amavam Amadeus e o queriam bem.
        Amadeus soprou vela, cantou, chorou, sorriu, agradeceu, dançou e se perdeu no meio de tanta gente, tantos presentes, tantas homenagens. Pensava: para que tudo isso, se sou só um. Tenho dois pés, portanto, preciso apenas de um par de sapatos, talvez outro de chinelos. Uma calça dá pra mim a semana inteira...
        A música, a luz artificialmente instalada para iluminar a pracinha, aquele falatório, gente feliz, comes e bebes à vontade, desnortearam Amadeus. Chegou hora, lá pelas quatro da manhã, quis seu canto. Recostou-se com dificuldade no travesseiro novo, ainda pouco à vontade no colchão. Tudo lhe era meio estranho; parecia que já tinha vivido aquilo. Aquele carinho, aquele conforto, aquele aconchego. E antes de pegar no sono, chorou o que não chorara a vida inteira.
        No dia seguinte quis controlar o trânsito, mas estava meio nas nuvens, com muito sono, numa estranha embriaguês. A cerveja de gosto seu era sem álcool. Chegou a pensar que tudo aquilo fora um sonho. Para seu pesadelo, era tudo realidade. Uma realidade fora de sua realidade. O que de seu existia ali? Voltou a chorar compulsivamente, porém sem alarde, sem que ninguém o ouvisse.



Depois daquele momento catártico, saiu do seu canto num dos cantos da praça e com um carrinho de mão emprestado, levou quase tudo que ganhara para o pessoal de uma vila próxima. Desfez-se de radinhos, relógios, iPod, cobertores, celulares, pares de sapatos, sandálias e chinelos. Somente o necessário, não mais que o suficiente, lhe restou. Doou tudo o mais.
        Pensou bem e não autorizou a reportagem na TV de maior audiência da cidade, para a indignação de todos. Retomou o nome Zé da Praça. Voltou a ter barba e bigode e a distribuir sorrisos e gentileza para todos. Era somente isso que queria. E foi assim que conquistou amigos, reconhecimento e admiração. É assim que se reconhece. Zé da Praça! que dá notícias de tudo, tem boa leitura, seu ponto de vista sobre o mundo, seu respeito a opinião alheia.
        Com o tempo, os moradores da comunidade entenderam a opção de Zé da Praça. De fato, ele não precisa de muitos cobertores, roupas, sapatos, televisão, radinhos. Muito menos relógios e celulares. Quando precisa saber das horas, olha para o sol ou escuta o seu estômago. Assiste a TV quando nos bares faz as refeições, e não tem pra quem telefonar. Leu todos os livros que ganhou e depois os doou para a escola do bairro. Só não abriu mão de sua cidadania... Quando revira o lixo, é para ver se encontra algum papel escrito, alguma revista de seu interesse. Tem mais fome de leitura do que de qualquer outra coisa.
        Para viver, faz para hoje.

HILA FLÁVIA/ Cortina de água

CORTINA DE ÁGUA
Hila Flávia


Abençoada água quente do chuveiro
que cura quase tudo neste mundo.
Cura cansaço, tensão, amolação,
dores em geral e em particular das costas,
tristezas, aborrecimentos, aflição,
ansiedade, dor de cabeça, gripe leve;
lava o corpo e molha inteiro
o ser que precisa descansar.
E alenta sonhos de grandeza:
cantores famosos de vêem na tevê,
artistas cobiçados, nas novelas.

Parece que a cortina de água quente
fecha a janela da realidade
anula toda espécie de verdade
transforma em sonhador qualquer vivente.