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Márcio Simeone
Meu gato não tem medo de morrer, porque tem sete vidas. Mas tem medo de viver, acredite. Fica acabrunhado pelos cantos, sem vontades e, assim, sequer usa de tantas vidas. Pelo visto desconhece que tal crédito só lhe é mesmo concedido caso não tenha medos e viva plenamente seus momentos.
Tento explicar-lhe isso, mas ele, apático, sequer balança a cabeça. Gostaria de demonstrar-lhe que o medo de viver é pior do que o medo de morrer (pois é mesmo do medo de viver que se morre). Debalde. Que alegria se compreendesse que, em verdade, não possui o privilégio de viver sete vidas em ordenada seqüência, mas sim as sete de uma só vez (pois sendo assim as multiplica de novo por sete). Conheço uma gata assim, com vidas ao quadrado. Tal abundância pode não fazer com que viva mais tempo, mas certamente a faz mais feliz e completa. Imagine viver sete (ou sete vezes sete) vidas ao mesmo tempo! Há vida que sobra para si e para distribuir.
Mas meu gato não dá conta sequer de sua única e monótona vida...
Sabe que aprendi muito com ele? Não sei quantas vidas o homem possui, porque em nenhum lugar está escrito. Pela lógica, não pode ser uma, porque o quadrado de um é o mesmo um e daí se fica nisso mesmo, como o meu pobre gato.
Sempre que perco os meus medos, preencho meus espaços vazios e saio de mim mesmo, recebo créditos de três, ou quatro, ou talvez cinco vidas. Não sei exatamente, mas não importa. Com duas (ou com duas vezes duas) vidas bem vividas, já sou capaz de me realizar e de fazer mais alguém feliz. Ah, se meu gato soubesse...

criado por academiadeletras
21:36:01