Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2008, 09

09.09.08

NADA A VER (parte 3 - epílogo)

Márcio Simeone

A chegada, desta vez, foi um pouco diferente, porque teve uma surpresa. O lugar era exatamente igual aos anteriores, não tinha nada. Ou melhor, quase nada. O que o surpreendera fora a presença daquele seu grande amigo que lhe escrevera o bilhete. Pensou que os seus olhos o traíam, mas não: era ele mesmo! Sentiu grande alegria, afinal. Seus rostos se iluminaram. Eles se abraçaram muito e demoraram a se refazer da surpresa do encontro.
_Enfim você chegou! – disse o amigo. Este é o lugar que lhe descrevi e quero que você mesmo o veja e sinta!
Tibúrcio olhou em redor, intrigado. Não sabia a quê o amigo se referia. Além desse amigo e, é claro, da entrada das três trilhas, não via nada, não sentia nada. Um nada tão vazio quanto antes, não fosse algo novo que tinha em seu peito: o conforto de encontrar esse amigo.
_Mas como? Não vejo nada! – declarou ao amigo.
_Não? Como não? Não está vendo quanta beleza, quantas cores, quantos sons diferentes? Não vê aquelas flores lá adiante?
_Juro que não! – disse Tibúrcio, desapontado. Vejo tudo branco, vazio.
_Pois descanse. Deve ser porque está cansado, acabou de chegar e ainda não acostumou a sua vista. Vou deixá-lo um pouco só. Durma um pouco. Depois volto.
Quando o amigo se afastou, Tibúrcio resolveu chamar seu anjo-guia. Fez a invocação e veio Aparício de pronto em seu auxílio.
_Estou confuso, Aparício... Encontrei meu amigo, mas não vejo nem sinto o mesmo que ele. Onde está aquele paraíso de cores, sons e cheiros que ele descreve, no qual se sente tão bem? Assim como nos outros lugares em que cheguei, não vejo nada, está tudo vazio!
_Devo dizer-te, amigo Tibúrcio, que assim é o trajeto: tudo está entre um vazio e outro, nos caminhos que levam de nada em nada. Tudo é tua experiência e podes fazê-la mais curta ou extensa, conforme queiras, conforme o momento. Os que procuram o atalho, o caminho direito, são em sua maioria os jovens e os velhos. Os jovens, porque têm pressa e são ambiciosos. Os velhos, porque já têm muita experiência e com ela podem chegar mais longe. No correr da trajetória, o mais importante é tomar consciência das melhores formas de organizar essa experiência, sabendo que aqui não há mesmo nada. Se alguém, como o teu amigo, vê aqui alguma coisa além do vazio e das entradas dos três caminhos, é pura ilusão. Isso o faz paralisar. Ele ficará por aqui, cultivando sua ilusão, até quando se dê conta de que em verdade não há nada, e só então seguirá, movendo-se para o tudo que há nos caminhos. De tudo em tudo e de nada em nada, cumprirá sua trajetória, comporá sua história, sempre incerta, que dependerá do quanto puder captar nesses caminhos.
_E como posso fazer para escolher melhor? – Tibúrcio quis ainda saber.
_Na dúvida, toma o caminho do meio – resumiu Aparício. Mas tu não deves – completou o anjo – fazer isso continuamente. Arrisca-te também à esquerda e à direita. Não te deixes aprisionar a um só caminho: nem por medo, nem por ambição, nem pelas seduções ou pelas promessas ilusórias. Muito importante, meu amigo, é que te lembres sempre que não há retorno. Mas, a cada momento em que fores iniciar novo trecho, tudo sempre estará lá, o mesmo todo, pronto para que tu vejas, sintas, respires, incorpores.
Tibúrcio quedou pensativo e, ainda curioso, indagou:
_E quanto termina tudo isso?
O anjo Aparício respirou profundamente e respondeu:
_Saberás que terminaste a trajetória quando chegares a um nada ainda mais vazio: não verás mais as três entradas para os caminhos. Sentirás o amplo vazio dominar-te, integrar-se a ti e não te incomodarás, porque compreenderás que também o nada está em tudo. É tua derradeira experiência, a da plenitude. Esta é eterna e a mais concreta de todas. Livre das ilusões, desnecessárias as escolhas, nada mais estará, tudo simplesmente será.
Dito isto, o anjo-guia desapareceu. Tibúrcio viu, num relance, seu amigo adentrar pelo portal dourado, apressado. Levantou-se, sentiu o profundo silêncio daquele lugar vazio, foi-se dirigindo lentamente para o caminho da esquerda. Porém, quando já estava bem próximo, vacilou. Lembrou-se do que havia dito o anjo e então, sem mais hesitar, voltou-se um pouco e tomou o caminho do meio, na esperança de uma experiência só sua e de construção de suas próprias ilusões