Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Setembro 2008, 07

06.09.08

Um conto de Natal em tempo de ipê

A casa de Maria era simples. O chão de terra branca batida. Uma luminosidade intensa incoerente às pequenas janelas de cada cômodo.
Maria cozinhava, arrumava a casa, fiava e cantava baixinho para não espantar o silêncio.
Suas vestes e as do marido eram simples e perfeitas como deveriam ser todas as vestes. Maria tecia, embalada pelo silêncio das tardes e pelo som do martelo que José usava para fazer mesas, cadeiras, bancos, camas, bem no cômodo ao lado.
Ela fiava também o tempo. Tempo de espera. Ia fiando sonhos e, por vezes, parava pra ouvir o próprio futuro em seu ventre. E o ventre sobressaltava adivinhando os amores já presentes. José amava Maria e fazia música com serrotes, martelos e pregos o que desde sempre parecia embalar o menino. E se Maria tecia vestes, agora também tecia mantos, panos diversos para receber e cobrir o filho. Ele já não era promessa, era vida pulsando história divina no sangue de Maria.
No tecido que fiava não havia cores fortes, nem brilhos. Era ocre, terra sienna, cor das gentes daquelas paragens.
Maria tinha uma amiga que não era Isabel, sua prima. Era uma mulher especial com nome de Deus: Hila.
Uma vez por semana, ela visitava Maria. Vinha alegre trazendo os filhos. Tratavam-se por “comadre”. Juntas amassavam o pão.
Uma sempre ensinava à outra o que sabia. Maria ensinava a cozer o pão. Hila ensinava a coser a colcha de retalhos. Maria falava do pão que alimenta o corpo e a alma. Hila falava das diferenças que unem, não separam. Maria amava o mundo, e seu filho ainda no ventre. Hila amava o mundo e seus filhos que corriam ao redor do compadre José. Maria silenciava. Hila também. Maria chorava as dores do mundo e as duas rezavam pedindo luzes. Maria amava seu companheiro José. Hila amava João.
Elas eram destas amigas mais que irmãs. Uma pensava e a outra adivinhava. E de tanto adivinhar, Hila pôde acompanhar Maria na hora do parto do menino Jesus. Foi a primeira que pegou o pequeno, cortou o cordão, limpou e o entregou a José que, a um canto, tudo assistia. Hila era o anjo da guarda de Maria.
Hoje esta história se repete nas casas de outras tantas Marias, Reginas, Terezinhas, Anas e Lígias...
Hila continua tecendo com agulhas e com palavras o pão que alimenta e aquece a alma.

E há quem pense que o céu não é aqui e que anjos não existem...

Santos anjos do Senhor
Desta terra às vezes fria
Teçam mantos de amor
Com sabor de alegria.

 

Ana Cláudia Souza Saldanha

O ANÔNIMO

 

Júlio Saldanha

Domingo. Sol claro, banda na praça. Ao redor do coreto um aglomerado de gente se refrescava do sol com melodias suaves que faziam esquecer os incômodos da vida.
Dado um breve intervalo, um cidadão de aparência humilde e forasteira aproximou-se do maestro e timidamente o perguntou:
- Posso tocar uma música com vocês?
A pergunta feita com voz presa de garganta, mal chegou aos ouvidos afiados do maestro que, já adivinhando o pedido, fingiu nem ouvir. Mas ele insistiu:
- Eu toco clarineta.
O maestro continuou remexendo em algumas partituras.
- Já toquei em banda um tempo, sabe...lá na minha cidadezinha...
Já irritado, o maestro respirou profundamente e virou as costas.
- Pode ser qualquer música. Se o senhor não gostar eu paro na hora. É só pra matar a saudade.
Vendo que o homem não era do tipo que desistia muito fácil, o maestro resolveu humilhar o coitado. Deu-lhe um solo para executar. Escolheu a partitura mais difícil de todo seu repertório. Uma música sem dúvida belíssima, mas feita para virtuoses, trazida pelo antigo maestro de uma pequena cidade composta por um anônimo.
Entregou-lhe o instrumento e a partitura e falou:
- Não podemos atrasar com a apresentação. Se quiser tocar só se for agora, não dá tempo nem de passar uma vez.
Sem pensar duas vezes, o desconhecido pegou o instrumento, ajeitou o bocal, respirou fundo e fixou um olhar no maestro como quem dizia estar pronto.
O maestro não conseguiu esconder um leve sorriso malicioso. No microfone, anunciou a música que seria executada por um insistente passante que se dizia clarinetista. Assim não comprometia a sua banda com o ridículo que estaria por vir. Os músicos da banda entreolhavam-se atônitos. Nos semblantes surpresa, pena, deboche. O maestro abaixa a batuta com o prazer do carrasco que desce uma guilhotina sobre o pescoço do inocente condenado.
Aconteceu porém que o suposto calouro executou com desembaraço os primeiros compassos. Um pouco surpreso, o maestro não perdeu o entusiasmo antevendo as passagens dificílimas que estavam por vir.
Mas, para espanto do maestro, dos componentes da banda e mesmo do público presente que nem desconfiava da cilada, a música foi executada até o fim sem problemas. E o som que saia da clarineta não era deste mundo. Com desenvoltura tocou sem errar uma nota sequer fazendo as passagens mais difíceis com uma facilidade inacreditável.
Assobios, aplausos, gritos de bravo e bis sacudiram a praça. Injuriado, o maestro não se conteve e foi cumprimentar o anônimo interessando-se em saber quem era, de onde vinha e como conseguiu tocar daquela forma.
O anônimo então devolveu o leve sorriso malicioso e disse ao maestro:
- Não precisa mentir pra mim. Não sei como, mas quando o senhor me entregou a partitura do dobrado eu logo vi que o senhor sabia muito bem quem eu era e de onde eu vinha...
E o anônimo se foi, rumo ignorado, assobiando seu velho dobrado.