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Márcio Simeone
Um dia tiraram a venda dos olhos de Tibúrcio, ainda muito jovem, mas que tinha agora que seguir por sua própria conta. Fora avisado que, daqui por diante, contaria, contudo, com o auxílio de um anjo-guia, sendo o seu o anjo Aparício. Ensinaram-lhe uma oração, muito simples e eficaz, para invocar a presença do anjo, sempre que necessário.
Ao ver-se livre da venda, seus olhos se inundaram de luz, naturalmente ofuscando-lhe. Recobrando pouco e pouco sua visão, Tibúrcio pensou estar sonhando. Olhava e olhava ao redor e nada via: só um grande e claro vazio. Um vazio tão vazio que o perturbou. Ao fundo do nada (embora sempre tivessem lhe dito que o nada não tinha fundo, porque nada tinha) notou três caminhos que se bifurcavam. Não era, pois, um total vazio. Havia uma entrada para uma trilha à esquerda, simples e modesta, outra à direita, com um grande portal dourado, e ainda outra no meio, na qual havia apenas uma placa com uma seta que o indicava.
Logo lhe ocorreu que não poderia nem deveria ficar parado ali, no meio do nada, e que, para se por em movimento, carecia optar por um dos caminhos. Como fazer a escolha? Sentindo-se só, inseguro, lembrou-se da invocação de seu anjo-guia. Fez a oração, ansioso, e num átimo surgiu o anjo Aparício, numa nuvem. Assim, do nada para o nada. Feitas as devidas apresentações, Tibúrcio foi direto ao assunto, tamanha a aflição para seguir por um dos caminhos, pedindo ao anjo que o indicasse um deles.
Contrariando sua expectativa, o anjo Aparício não apontou para nenhum deles, limitando-se a descrevê-los:
_Querido amigo, todos os três caminhos levam ao mesmo lugar. O caminho da esquerda é o mais longo. O da direita é um atalho e o do meio... é o do meio. Dito isso, sumiu-se rapidamente do nada para o nada.
Tibúrcio, ao menos, tranqüilizou-se ao saber que, fosse qual fosse sua escolha, iria dar no mesmo lugar. Era então, apenas uma questão de tempo, de quando chegar lá. Não teve muita dúvida. Seduzido pelo portal dourado e determinado, como todo jovem, a chegar o quanto antes aonde quer que fosse, adentrou pelo atalho da direita.
Assim que entrou, viu-se numa mata densa e escura, numa trilha pedregosa. Teve medo, mas continuou confiante de que esta era a melhor opção. O medo fez com que apertasse o passo. Quando deu por si, seguia em grande velocidade e tinha os olhos fixos à frente, concentrando todos os seus esforços em um ponto pequeno e luminoso bem adiante. Foi tão rápido que logo saiu daquela mata e viu findar a trilha. Ainda meio zonzo, demorou um pouco a notar que estava num local igual àquele do qual havia partido. Olhava ao redor e nada via, só um grande, imenso vazio. No meio do nada, não via sequer o caminho pelo qual tinha vindo. Mas lembrou-se que, logicamente, em algum ponto deveria haver novas trilhas pelas quais pudesse ir adiante. Sentiu-se de novo desamparado. Era insuportável permanecer imóvel, no vazio. Foi então que achou, de novo, os três caminhos, com as entradas exatamente iguais às que vira anteriormente. Decidiu recorrer de novo ao anjo-guia e, do nada, apareceu Aparício.
Este lhe entregou um bilhete. Logo reconheceu, pela caligrafia, como sendo de seu melhor amigo. Dizia: “Querido amigo Tibúrcio: Mando-lhe notícias de um lugar maravilhoso. Logo que comecei minha jornada pensava mesmo encontrar essa pequena porção do paraíso. Tudo aqui é cheio de cores, de sons, de cheiros, de sabores. Não tive dúvidas de que aqui chegaria, mas confesso que não imaginava que seria tão rápido. Segui minha intuição e foi simples: tomei sempre a trilha direita. De saída, chamei meu anjo-guia. Mas depois, nem foi mais preciso! Fiquei tão encantado com este lugar que tive uma idéia: escrevi esta mensagem e pedi ao meu anjo que a encaminhasse a você (afinal, lá onde moram esses anjos, com certeza ele teria como deixar o bilhete nas mãos do seu guia). Espero que, ao lê-lo, você possa seguir logo para cá. Com carinhoso abraço...”. (continua)

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07:04:43