| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 3 | ||||
| 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 |
| 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 |
| 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 | 24 |
| 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 | 31 |
A GENTE PÕE, DEUS DISPÕE
Hila Flávia
E olha que isso tem me acontecido com freqüência cada vez maior. Não sei se estou perdendo a capacidade de planejar, se estou perdendo a intuição, sei lá, como muxoxa o caboclo, sei lá!
Minha vida foi sempre pautada por um planejamento muitas vezes inflexível. De longo, médio e curto prazo. Determinava meus objetivos e não os perdia de vista. Não que fizesse tudo para conseguir, mas dava voltas, voltas, e acabava, sem nenhum sacrifício maior que o normal, dando conta do recado. Assim fiz meus cursos, trabalhei mais de quarenta anos fora de casa, persegui uma aposentadoria que me bastasse e para tanto me preparei a fim de alcançá-la, publiquei meus livros depois dos quarenta anos de idade, quando foi possível editar, e viabilizei outras metas definidoras da caminhada. Evidente que, ao sabor da imprevisibilidade, montei nos cavalos arreados que passaram pela minha porta e, assim, fui tocando em frente.
Mas, agora, as coisas mudaram. Planejo uma coisa, dá outra. Jogo no leão e dá pavão. Compro passagem para a Lua, acabo chegando ao Sol. Trem danado. No princípio, a existência dos planos B, C, D, e assim por diante, me desconcertou completamente. Fiquei assim meio andando em linhas sinuosas, logo eu, uma criatura de retas intenções.
Passado o impacto das mudanças, estou adorando o novo esquema. Deixando a vida me levar, as coisas ficam mais leves e nem sofro mais o impacto do inesperado, que me fazia sofrer. Não gostava de surpresa e hoje saboreio planos alternativos e me adapto a eles com a rapidez de um raio.
O único senão é explicar o inesperado, quando isso se faz necessário. Como, por exemplo, faltar a uma reunião de confrades por causa de uma pinçada no nervo ciático impedidora de locomoção. Fico triste, pois, minha vontade é comparecer. A dor é forte mas sei que passa. A pausa possibilita ler, aquietar, pensar. Outra situação que vou ter que aceitar é quanto à hidroginástica. Poucas coisas na vida me dão mais prazer do que água. Recomeço o exercício tão necessário e, de repente, algo acontece e sou forçada a parar: uma gripe forte, uma lesão muscular, infecção de ouvido, ataque da artrose por causa do tempo que muda, e por aí vai. Fico numa tristeza só, até recomeçar. Nesses períodos, sou obrigada a ficar de castigo, sabendo de tanta vida pulsando lá fora. Também sei que passa, como tudo no mundo. Mas, até passar, é preciso exercer o dom da paciência em grau elevado.
O cantador, quando explicou que anda devagar por que já teve pressa, tomou uma sábia decisão de vida. Já tive muita pressa e custei, muitas vezes, a entender as paradas da vida. A bem da verdade, jamais compreendi, mas, hoje, que deixo que a vida me leve, soltei as rédeas da montaria e estou que nem o Frei Rosário, saudoso amigo ermitão da Serra da Piedade: quando ainda não existia a estrada que nos levava ao alto da montanha, os carros eram deixados numa casa ao sopé do morro e todos montavam em burros para subir o íngreme caminho rumo ao topo, muitas vezes furando baixas nuvens. Frei Rosário só dizia: soltem as rédeas que o animal nos leva em segurança. Enquanto isso, vamos rezar: Pai Nosso, que estais no céu...
E não é que se chegava lá em cima sem nenhum problema?
Pois é!

criado por academiadeletras
01:59:09