Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Arquivo de: Agosto 2008

06.08.08

HILA FLÁVIA/ As mil e uma noites

                                                                                      

Flávia Flávia          


          Nessas férias de julho acabei de ler para meus netos toda a saga de Cherazade, na coleção das Mil e Uma Noites. Tive que fazer uns cortes daqui e dali, pois as palavras precisavam de tradução para o tempo deles. Mas hoje Grão Vizir, Sultão, Sultana, Príncipes e Princesas, oásis, camelos, tapetes voadores, potes de azeite, vestimentas compridas e véus ficaram todos bem conhecidos dos meninos. Confesso que gostei demais de mergulhar, por muitos meses, no universo do imaginário da esperta moça que conquistou o sultão com suas histórias e com a forma de contá-las, hoje equivalente às novelas da televisão. Quando chegava à melhor parte, o sol nascia e ela só continuava na noite seguinte. Começamos a ler em férias passadas. Voltava para casa e depois continuava a leitura. Assim foram muitos meses de janeiro e julho. Eu também fazia meu suspense, pois gostava de vê-los curiosos com a próxima narrativa.
          Mas vou confessar a vocês a maior dificuldade que encontrei: quando fui contar, já no último volume, a história do Ali Babá, falei:
          - Essa história não vou ler, já sei de cor. E comecei narrando que Ali Babá era chefe de quarenta ladrões. Meu neto Vito foi logo contradizendo:
          - Está errado, o Ali Babá não era chefe de ninguém. Ele era inocente. Está contando a história de jeito errado.
          Então achei melhor voltar ao livro e começar a ler. E, de fato, Ali Babá não era chefe mesmo não. Ele era um pobre lenhador que, um dia, escutando o tropel de muitos cavalos, escondeu-se no alto de uma árvore e assistiu ao Abre-te, Sésamo, e ao Fecha-te, Sésamo, do bando de trinta e nove ladrões chefiados pelo de número quarenta. Mas depois de entrar na tal caverna, andou surrupiando uns tesouros e levando para sua casa. Vinha e levava. Vigiava e roubava dos ladrões. Ficou tão rico que o bando desconfiou e foi lá tirar satisfação, quando a escrava Morgana tratou de exterminar os descontentes.
          Acabada a história, eu falei: Que inocente coisa nenhuma! Ali Babá era também ladrão e além do mais, um matador. Meu neto saiu em defesa do lenhador, dizendo que ele roubara porque o tesouro já tinha sido roubado. Falei que ladrão é todo aquele que toma para si o que não é seu. Não tem essa de ser coisa roubada ou não. E a conversa esquentou. Ele argumentando e eu contra-argumentando. Vejam que dificuldade tem uma avó para passar valores a um menino num país como o nosso, que tem um ditado dizendo: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Falei tanto que pensei que ele se havia convencido.
          Continuei a contar as histórias e, no último dia de julho de 2008, chegamos ao final, quando o Sultão reconheceu que se havia apaixonado pela Cherazade e que viveria feliz com ela para sempre, suspendendo a lei apavorante que antes promulgara.
Ficamos todos alegres e rememoramos as histórias de que eles mais gostaram. Falamos das três irmãs, do Príncipe Ahmed, do Simbad, dos oásis, dos leões de três cabeças que guardavam a água, do espelho que mostrava a imagem da moça mais linda do mundo, do tapete mágico, da maçã que curava qualquer doença, da fada, do Sultão que passeava à noite pelo reino. A conversa quase que durou o tempo de um livro.
          Então fizemos a oração da noite e apaguei a luz do quarto deles. Quando já ia saindo, o tal neto falou:
          - Só tem uma coisa, vovó, continuo achando que o Ali Babá é inocente.
          Quem me salva dessa?