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21:26:18A GENTE PÕE, DEUS DISPÕE
Hila Flávia
E olha que isso tem me acontecido com freqüência cada vez maior. Não sei se estou perdendo a capacidade de planejar, se estou perdendo a intuição, sei lá, como muxoxa o caboclo, sei lá!
Minha vida foi sempre pautada por um planejamento muitas vezes inflexível. De longo, médio e curto prazo. Determinava meus objetivos e não os perdia de vista. Não que fizesse tudo para conseguir, mas dava voltas, voltas, e acabava, sem nenhum sacrifício maior que o normal, dando conta do recado. Assim fiz meus cursos, trabalhei mais de quarenta anos fora de casa, persegui uma aposentadoria que me bastasse e para tanto me preparei a fim de alcançá-la, publiquei meus livros depois dos quarenta anos de idade, quando foi possível editar, e viabilizei outras metas definidoras da caminhada. Evidente que, ao sabor da imprevisibilidade, montei nos cavalos arreados que passaram pela minha porta e, assim, fui tocando em frente.
Mas, agora, as coisas mudaram. Planejo uma coisa, dá outra. Jogo no leão e dá pavão. Compro passagem para a Lua, acabo chegando ao Sol. Trem danado. No princípio, a existência dos planos B, C, D, e assim por diante, me desconcertou completamente. Fiquei assim meio andando em linhas sinuosas, logo eu, uma criatura de retas intenções.
Passado o impacto das mudanças, estou adorando o novo esquema. Deixando a vida me levar, as coisas ficam mais leves e nem sofro mais o impacto do inesperado, que me fazia sofrer. Não gostava de surpresa e hoje saboreio planos alternativos e me adapto a eles com a rapidez de um raio.
O único senão é explicar o inesperado, quando isso se faz necessário. Como, por exemplo, faltar a uma reunião de confrades por causa de uma pinçada no nervo ciático impedidora de locomoção. Fico triste, pois, minha vontade é comparecer. A dor é forte mas sei que passa. A pausa possibilita ler, aquietar, pensar. Outra situação que vou ter que aceitar é quanto à hidroginástica. Poucas coisas na vida me dão mais prazer do que água. Recomeço o exercício tão necessário e, de repente, algo acontece e sou forçada a parar: uma gripe forte, uma lesão muscular, infecção de ouvido, ataque da artrose por causa do tempo que muda, e por aí vai. Fico numa tristeza só, até recomeçar. Nesses períodos, sou obrigada a ficar de castigo, sabendo de tanta vida pulsando lá fora. Também sei que passa, como tudo no mundo. Mas, até passar, é preciso exercer o dom da paciência em grau elevado.
O cantador, quando explicou que anda devagar por que já teve pressa, tomou uma sábia decisão de vida. Já tive muita pressa e custei, muitas vezes, a entender as paradas da vida. A bem da verdade, jamais compreendi, mas, hoje, que deixo que a vida me leve, soltei as rédeas da montaria e estou que nem o Frei Rosário, saudoso amigo ermitão da Serra da Piedade: quando ainda não existia a estrada que nos levava ao alto da montanha, os carros eram deixados numa casa ao sopé do morro e todos montavam em burros para subir o íngreme caminho rumo ao topo, muitas vezes furando baixas nuvens. Frei Rosário só dizia: soltem as rédeas que o animal nos leva em segurança. Enquanto isso, vamos rezar: Pai Nosso, que estais no céu...
E não é que se chegava lá em cima sem nenhum problema?
Pois é!

criado por academiadeletras
01:59:09 Uma história contra o medo
Terezinha Pereira
Medo, pavor, temor, horror. Quem nunca pelou-se de medo meio a uma situação verdadeira de perigo ou mesmo imaginária? Ter medo do escuro, de almas penadas, da própria sombra.... Ui! Ui! Quem já sentiu tais ou outros medos? Ou não sentiu........ Começo assim por causa de um livro que li nesses dias. Li. Reli. Tresli. A história está catalogada como literatura infantil, infanto-juvenil. Mas, sei não........
O autor, Mia Couto, nasceu num país do lado de lá da África, em Moçambique, numa terra pequena chamada Beira, que fica à beira do Oceano Índico. Diz ele que lá, aprendeu a ser menino por toda a vida. Que lá, a maior parte dos habitantes não sabe ler, não sabe escrever. Porém... porém... eles sabem contar histórias. Melhor ainda. Sabem ouvir. Que as gentes de lá guardam a meninice dentro de si e têm a crença de que o olhar de criança é importante para ser feliz e produzir felicidade para os outros. Por causa desse seu pensar, escreveu para os mais pequenos uma história contra o medo. Como personagem escolheu um gato de cor, ora uma, ora outra e o pôs no escuro. À história, deu o nome de “O gato e o escuro”.
“O gato e o escuro” foi publicado em Portugal em 2001. Ao Brasil, esse presente chegou neste ano de 2008. Um mimo para os meninos pequenos e também os de mais tamanho e tempo de vida, os que conservam em seu interior a meninice, nem que seja um tiquinho só. Graças ao bom senso da editora “Companhia das Letrinhas”, o livro foi editado com a grafia do português de Moçambique. Um deslumbramento de escrita recontada nos desenhos da premiada ilustradora mineira Marilda Castanha. Para Marilda, ilustrar as várias imagens poéticas do livro de Mia Couto, desvendar os medos escuros _ com suas luzes e suas sombras e ilustrar as várias imagens poéticas foi delicioso. Para o leitor........ sei não. Sei não, se teria eu palavras para explicar o que fiquei pensando desse conto. Delicioso? É pouco.
Contar ao leitor a história “O gato e o escuro”, isso não vou. Mas, vou deixar-lhe algumas dessas imagens poéticas que a ilustradora captou no texto, para que faça a sua imagem da história. Mais. Caso o legente ainda não tenha sido surrupiado de toda a sua curiosidade e ainda tenha intenção de saber o que há além do horizonte, correrá o risco de, ligeiro, sair em busca de “O gato e o escuro”.
Prepare-se para viajar pela poesia que vem enxertada na narrativa. Para começar, vou-lhe dar uma imagem. Mas só do comecinho. O tal gato personagem, que traspassa de uma cor para outra e para outra, aparece preto-escuro, sentado no cimo do livro da própria história. E as imagens poéticas? Acontecem:
“... o gatinho gostava passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o pôr-do-sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o poente.” Consegue imaginar uma cena assim?
Lá vão outras:
“Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.” “À medida que avançava, seu coração tiquetaqueava.” “Só quando desaguou na outra margem do tempo ele ousou despersianar os olhos.” “Nada sobrava de sua anterior gateza. E o escuro, triste, desabou em lágrimas.” “E os olhos do escuro se amarelaram. E se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.” “Dentro de cada um há o seu escuro. E nesse escuro mora quem lá inventamos.” “_ ... Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos.” “ Metade de seu corpo brilhava, arco-iriscando.” “Quando a mãe olhava o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam cheios de escuro. Como se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.”
E aí? Pode imaginar a história? Pode ver um gato preto, enroscado do outro lado do mundo? (E.... qual seria o outro lado do mundo? )
Diz o autor que, “se fizermos como o gato desta história, o Mundo inteiro se transforma num brinquedo. E nós poderemos, então, perder o medo de sermos felizes.”
O gato e o escuro _ Mia Couto

criado por academiadeletras
23:41:31
Flávia Flávia 
Nessas férias de julho acabei de ler para meus netos toda a saga de Cherazade, na coleção das Mil e Uma Noites. Tive que fazer uns cortes daqui e dali, pois as palavras precisavam de tradução para o tempo deles. Mas hoje Grão Vizir, Sultão, Sultana, Príncipes e Princesas, oásis, camelos, tapetes voadores, potes de azeite, vestimentas compridas e véus ficaram todos bem conhecidos dos meninos. Confesso que gostei demais de mergulhar, por muitos meses, no universo do imaginário da esperta moça que conquistou o sultão com suas histórias e com a forma de contá-las, hoje equivalente às novelas da televisão. Quando chegava à melhor parte, o sol nascia e ela só continuava na noite seguinte. Começamos a ler em férias passadas. Voltava para casa e depois continuava a leitura. Assim foram muitos meses de janeiro e julho. Eu também fazia meu suspense, pois gostava de vê-los curiosos com a próxima narrativa.
Mas vou confessar a vocês a maior dificuldade que encontrei: quando fui contar, já no último volume, a história do Ali Babá, falei:
- Essa história não vou ler, já sei de cor. E comecei narrando que Ali Babá era chefe de quarenta ladrões. Meu neto Vito foi logo contradizendo:
- Está errado, o Ali Babá não era chefe de ninguém. Ele era inocente. Está contando a história de jeito errado.
Então achei melhor voltar ao livro e começar a ler. E, de fato, Ali Babá não era chefe mesmo não. Ele era um pobre lenhador que, um dia, escutando o tropel de muitos cavalos, escondeu-se no alto de uma árvore e assistiu ao Abre-te, Sésamo, e ao Fecha-te, Sésamo, do bando de trinta e nove ladrões chefiados pelo de número quarenta. Mas depois de entrar na tal caverna, andou surrupiando uns tesouros e levando para sua casa. Vinha e levava. Vigiava e roubava dos ladrões. Ficou tão rico que o bando desconfiou e foi lá tirar satisfação, quando a escrava Morgana tratou de exterminar os descontentes.
Acabada a história, eu falei: Que inocente coisa nenhuma! Ali Babá era também ladrão e além do mais, um matador. Meu neto saiu em defesa do lenhador, dizendo que ele roubara porque o tesouro já tinha sido roubado. Falei que ladrão é todo aquele que toma para si o que não é seu. Não tem essa de ser coisa roubada ou não. E a conversa esquentou. Ele argumentando e eu contra-argumentando. Vejam que dificuldade tem uma avó para passar valores a um menino num país como o nosso, que tem um ditado dizendo: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Falei tanto que pensei que ele se havia convencido.
Continuei a contar as histórias e, no último dia de julho de 2008, chegamos ao final, quando o Sultão reconheceu que se havia apaixonado pela Cherazade e que viveria feliz com ela para sempre, suspendendo a lei apavorante que antes promulgara.
Ficamos todos alegres e rememoramos as histórias de que eles mais gostaram. Falamos das três irmãs, do Príncipe Ahmed, do Simbad, dos oásis, dos leões de três cabeças que guardavam a água, do espelho que mostrava a imagem da moça mais linda do mundo, do tapete mágico, da maçã que curava qualquer doença, da fada, do Sultão que passeava à noite pelo reino. A conversa quase que durou o tempo de um livro.
Então fizemos a oração da noite e apaguei a luz do quarto deles. Quando já ia saindo, o tal neto falou:
- Só tem uma coisa, vovó, continuo achando que o Ali Babá é inocente.
Quem me salva dessa?

criado por academiadeletras
13:42:18