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Toda hora e vez é vez e hora de Rosa
Terezinha Pereira
Dores veementes me apoquentavam. Conforme me disseram, três meses, até então, já durava minha lamúria. No leito de ferro de um hospital, colchão retesado, encapado com matéria plástica, jazia eu. Ressentia a perna perdida.. Ainda não sei como fora a minha perna. Esquerda. Creio que Ítalo, companheiro de noites do ontem, de quando não me lembro, passa as noites a meu lado. Conforta-me. Relata de espectros inventados por agentes maiores, os de poder mágico, em suas escrituras. Os que se valem de palavras catadas com precisão. Tecidas para durar infinito. Se Ítalo seria também só um texto........ Não saberia ao certo. Estava a me contar outro caso. Outro fantasma? Surgira.
[ _ Um homem “cumpridor, ordeiro e positivo” _ começou ele. Um homem “quieto”. Consentia que a mulher dirigisse a casa e seus miúdos, meninos e meninas, de jeito que ela pensasse que fosse a regente do barco. Não depreendera ela, em tempo algum, que a embarcação em que conduzia a família, um dia vazasse água. E foi o que houve, quando o marido sossegado mandou que lhe fizessem uma canoa forte, de toras bem escolhidas........ uma canoa onde coubesse apenas o remador. Quando essa ficou preparada para ser lançada na’água, o marido anunciou sua ida.
Ouvindo o “cê vai, ocê fique, você nunca volte!” da mulher, ele fincou o pé na estrada. Quer dizer, pôs a canoa no rio que ficava a meia légua da casa. E na terceira beira do rio, o homem passou a morar. Terceira, uma outra? Margem esquerda, margem direita. Beira de cima, de baixo, no fundo? À beira de, ao lado de. Margem de cá, margem de lá. Bem. O homem quieto escolhera viver dentro de uma canoa forte, de pau seleto. Para durar infinito.
Persistiu. Quem contou foi o filho que sobrara. Ao contar, cabelos brancos já começavam a apontar-lhe na cabeça, no corpo. Desde miúdo, quando o pai havia mandado fazer a canoa e dentro dela havia ido morar em outra margem do rio, ele ia até à beira _ de seu lado do rio _ e levava agrados ao pai. Comida, roupa, tudo o que ele pegava em casa, na calada. Se era o pai que levava... Não soubera nunca. Nada vira.
Uma irmã, crescida, arranjou um marido, teve um filho. Chegado um tempo, ela quis levar o filho para que o pai o conhecesse. Uma beleza a cena: a irmã, vestida de branco, na margem de cá, levantando o menino bem lá no alto, para que o avô o conhecesse e o abençoasse. Nessa quadra, o pai já devia ser que nem bicho, cabelos, barba e unhas crescidas. Um bicho. A criancinha não iria gostar de ver o tutu. Mas, que a irmã sentiu, sentiu. A família ressentiu-se. Neto é um ente tão doce. E o pai........do neto nem queria saber.
Depois do tanto chorar, mãe e filhos debandaram para uma outra margem de rio. Da família, ficara o dos cabelos começando a embranquecer. Se queria tomar o lugar do pai, se queria também virar um fantasma, de carne e osso, que as gentes imaginam ver, vez ou outra, a remar uma canoa no rio, de cá pra lá, de um ponto a outro, seguindo o divagar depressa de suas águas, isso teria ele do seu querer para escolher. Decidir ser um espectro sem ser. ]
Sem entender como chegara àquela cama de hospital, da mesma forma não compreendia, se seria Igor algum espectro outro. Ou se o homem da canoa........
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“Espectro # 4”, extraído do conto "Se uma pianista numa noite branca..." publicado em “Cadernos Literários 1 - Terezinha Pereira”, da ALPM - Academia de Letras de Pará de Minas, 2004.
Esse trecho faz referência ao conto mais-que-perfeito, A TERCEIRA MARGEM DO RIO, de João Guimarães Rosa, escritor mineiro com poder mágico para narrar histórias, nascido em Cordisburgo (cidade do coração) antes Vista Alegre, em 27 de junho de 1908. Aos 19 de novembro de 1967, três dias após tomar posse na ABL -Academia Brasileira de Letras, o coração de João bateu pela última vez. Como a ele é atribuído o dito “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, não vou dizer que ele, prematuro, faleceu naquela data. Rosa tornou-se encantado. Deixou seu nome registrado, para sempre, na cumeeira da história da literatura brasileira.
E toda hora e vez é vez e hora de Rosa. 

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20:07:44