Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2008

31.05.08

HILA FLÁVIA / Non Sense - poema

NON SENSE


                                                                                         Hila Flávia


A saudade podada a foice
invade a calada da noite.

Saudade do beijo não dado
do abraço negado
da conversa não tida
da palavra não dita.

Saudade do gesto não feito
do dizer tão imperfeito
da mão não estendida
da ternura não sentida.

Que saudade mais sem sentido
essa do que poderia ter sido.

 


Hila Flávia- dezembro-2007                   

                   

22.05.08

fotografias/ Marli das Bonecas

Fotos de Marli das Bonecas e seus trabalhos, feitas em dez/2007 por Lúcia Araújo, professora, que reside em Divinópolis,  veio a Pará de Minas para comprar bonecas de Marli:

 

 

 

   

Fotografia, dez/2007: Lúcia Araújo, professora   universitária em Divinópolis, que veio a Pará de Minas para comprar bonecas feitas pela Marli.

21.05.08

Terezinha Pereira/ CRIADORES DE BONECOS, DE HISTÓR

                          Criadores de bonecos, de histórias e de alegria

                                                                                  Terezinha Pereira

      Os primeiros bonecos que comprei da “Marli das bonecas” foi há quase trinta anos. Presentes para minhas sobrinhas meninas. Hoje, já doutoras ou quase, ainda se lembram das bonecas de pano da Marli. Nessa época, Marli saía com uma braçada de bonecos pelas ruas e praças da cidade. Parecia levar um buquê de cores várias, o qual despertava a atenção da meninada. “Ô mãe, compra!”
      A bonequeira também oferecia suas obras nas ruas e em locais de trabalho. Tinha freguesia certa. Como eram graciosos, macios, criativos, algumas lojas da cidade se dispunham a expô-los em suas vitrines. Serviam de manequins para roupas de bebês, ornamentavam vitrines e serviam de chamariz para crianças. Foi assim que alguns lojistas, sem objetivarem ganhos próprios, ajudaram na divulgação da arte da Marli. Encantava-me com os bonecos tamanho bebê, que ficavam expostos numa loja de móveis, sentadas em confortáveis poltronas. Logo, surgiram as criaturas de Monteiro Lobato, de Maurício de Sousa. Emília, Pedrinho, Narizinho e outras figuras por ele criadas que, ao lado de Mônica e sua turma, enchiam de graça vitrines, braços, cestas de bonecos da Marli.
      Até hoje, quando não encontro um adequado livro de história para presentear alguma criança no seu aniversário, vou atrás dos bonecos de pano feitos pelas mãos de ouro da Marli. Apesar de simples, de não estarem na grande mídia dos programas infantis da televisão, para grande parte das crianças que conheço, esses ainda são seus brinquedos preferidos ou mesmo os seus “companheiros” na hora de dormir. Mesmo quando já “velhos”, surrados, alguns com olhos e boca repintados, cabelos substituídos por outros fios, outras cores, tranças reformadas, novos laços de fitas. Além disso, ainda ganham roupas de última moda bonequeira, feitas pela própria Marli, pela Silvana de Souza, costureira de especial estilo ou outras especialistas do ramo.
      Desde a criação da “Feira de Artesanatos” nesta cidade, que funciona aos sábados pela manhã e é “ponto facultativo” ao artesão que queira expor seus trabalhos às sextas, à tarde, Marli tem seu espaço para colocar seus objetos de desejo_ dos mais pequenos como dos mais crescidos.
      Com o tempo, a produção da bonequeira foi renovada. Vieram chaveiros, adornos para mochilas e roupas de criança, colares, pulseiras e brincos feitos de bonecas miúdas, sem deixar de lado personagens que há tempos fazem parte do universo infantil: os que saíram de livros de histórias para crianças. (Sem limite de idade. Afinal, quem não conserva dentro de si alguma coisa de infância?).
      Num sábado há muito passado, dei de cara com a “Bonequinha Preta” na barraca da Marli, lá na feira. A própria. Aquela que, há mais de 60 anos, havia caído da janela da sala da casa de Mariazinha. Nessa hora, entrei no conto da Alaíde Lisboa de Oliveira.
      “Teimosinha, a Bonequinha Preta deixara de seguir os conselhos de sua mãezinha, quando essa saiu para passear com a mãe grandona. Que ficasse quietinha e não subisse em lugar algum para alcançar as janelas da casa para ver a rua, foi o que lhe recomendou Mariazinha...
      A Bonequinha Preta ficou só e tristinha em casa. Nisso, ouviu um gatinho miar lá fora. Seria no passeio ou no meio da rua? Ela gostava tanto de gatinhos! Tão bonitinhos! No entanto, não levou em conta seu tamanho de boneca. Que Mariazinha não brigasse com ela ao chegar. Ela queria, precisava mesmo, ver o gatinho que miava lá na rua... Assim, ela não achou outro jeito, senão subir ao topo da poltrona para, de lá, alcançar a janela. Insistiu, pulou, pelejou até. Porém... ao dar um forte impulso com as pontinhas dos pés para chegar bem alto........ _ Ora, ela queria mesmo ver o gatinho que miava lá na rua!..._ Que susto! Ela caiu da janela. E... que sorte! No momento em que ela caía, por debaixo da janela da casa de Mariazinha, passava um verdureiro levando na cabeça um tabuleiro cheio de pés de alfaces macios... macios...”
      Saio da história e observo as novidades da Marli. Uma graça! Várias Bonequinhas, de vários tamanhos, dependuradas pela barraca, espalhadas sobre o balcão. Olhinhos arregalados, trancinhas com laços de fita vermelha nas pontas, vestidinho vermelho de bolinhas, meias azuis........ Alegria! - pensei, “A Bonequinha Preta” saiu de dentro do livro!”
      Então, indaguei à Marli sobre seu “novo” modelo de boneca, a que eu conhecera na infância. Sorrindo, enquanto costurava um boneco também de livro de história, pois seus dedos não param nunca, ela falou que “Bonequinha Preta” estava de novo em moda e que há um bom tempo, ela custava a dar conta das encomendas de “Bonequinhas Pretas” e de “Bonequinhos Doces”, aquele que acabava pintar-lhe as feições. Nas escolas, os professores contavam histórias de Alaíde Lisboa de Oliveira. A grande criadora de histórias para os mais miúdos e também para os mais crescidos, completava um século de vida, a maioria desse tempo, dedicada à função de educadora, de quem que cultiva, além do saber, os sonhos, a alegria, o prazer de ler. Marli disse que, em outras épocas, havia feito bonecas pretas, mas de outros jeitos. Comentou que foram algumas crianças que levaram o livro “A Bonequinha Preta” para ela copiar a figura da boneca de trancinhas arrematadas por lacinhos vermelhos, vestido vermelho com bolinhas pretas ou brancas, meias azuis, sapatos pretos. Fora a conta de fazer a primeira e não parar mais. Logo depois, algumas crianças vieram com o livro “O Bonequinho Doce”. Queriam que ela o fizesse também. Distraio-me e entro na história “O Bonequinho Doce”.
      “Lucinha e Lalá queriam brincar com algum menino, ter um irmãozinho. Veio-lhes uma idéia. Que tal fazerem um boneco com um pouco de água, farinha e açúcar? O que elas nem imaginavam, era que criariam um menino boneco tão esperto! Mal acabaram de pintar-lhe o chapéu de azul, o Bonequinho Doce saiu em disparada. As meninas correram atrás do irmão amigo, que apenas acabava de nascer. Mas, como ele era esperto! (........) elas não conseguiram pegá-lo (........) Ao ver um lago, com um pato a nadar, o Bonequinho, ligeiro, pulou na água para brincar. Que pena! Ele era feito de farinha, açúcar e água! Logo começou a se diluir sob o olhar de uma porção de pessoas que correram atrás dele para pegá-lo de volta para as duas meninas.... Que tristeza! O boneco fundiu-se de vez com a água do lago.
      Porém, como as meninas eram sabidas ........ a história tem um final menos triste........
      Alaíde Lisboa de Oliveira, criadora de grandes clássico da literatura infantil, completou cem anos de vida e ainda viveu mais dois anos. Faleceu em 4 de novembro de 2006. Conta-se que ela costumava dizer, depois de seus 90 anos, que “A Bonequinha Preta” fora uma grande surpresa para ela. Que ela nunca poderia pensar que seu livro, criado lançado há tantos anos, continuasse alegrando crianças de uma época tão diferente da de quando ela a escrevera.
      Fico pensando........ Ainda bem que Alaíde, um dia, pegou do lápis e do papel e escreveu histórias para crianças. Ainda bem que ainda existem escolas que permitem que perdurem personagens de livros infantis, fator que instiga o lado lúdico, a fantasia das crianças. Ainda bem que existe a Marli para “retirar” personagens de livros de histórias e fazer que esses passem a tomar parte da vida dos nossos pequenos de hoje. Ainda bem...
(fotos de Marli e seus bonecos no post seguinte)

17.05.08

Hila Flávia/ DIRCEU ÁLVARES DA , aluno que ensinou

                            

DIRCEU ÁLVARES DA SILVA ,

                                                       ALUNO QUE ENSINOU 

                                                                                     Hila Flávia


        Era eu uma professora primária de longas tranças enroladas numa cabeça cheia de sonhos. E tinha como mestra maior a Dona Orozina, que me estimulava o conhecimento e me inoculou um profundo e jamais perdido amor pelos alunos.
        Dentre eles um menino grande se destacava. Doce, tímido, inteligente, sem saber o que fazia com o tamanho de suas pernas e seus braços. Por isso se movimentava com tanto cuidado e vagareza. Para não trombar nas coisas e nas pessoas.
        Dirceu me chamou logo a atenção e seu jeito suave conquistou o coração da jovem professora. Como era cuidadoso com seus objetos, com sua escrita, com seu estudo. Destacou-se entre os colegas por sua disciplina e seriedade.
        O tempo foi passando e nossas vidas tomando rumos diferenciados, embora estivéssemos, já então, morando na capital. Eu trabalhando em cartório, após deixar o magistério para cursar a Faculdade de Direito da PUC. Ele, também formado bacharel, concursado e prestando serviços no Departamento Estadual de Estradas e Rodagem, o DER.
        Meu local de serviço passou para o começo da Avenida João Pinheiro, em Belo Horizonte, e Dirceu, no seu trajeto para casa, passava por lá. Um dia, ele entrou para conversar um pouco. Foi o começo de anos e anos de uma convivência diária e prazerosa, embora em doses pequenas de tempo. A conta de contar as novidades e dizer o que estava escrevendo ou pensando escrever. Virou rotina sua visita e, quando ele não aparecia, meus colegas comentavam:- Ô Dona Hila, o poeta não passou aqui hoje. O que aconteceu? Eu procurava saber, telefonava, era nada. Só falta de tempo mesmo.
        Encontramos-nos na Associação de Escritores, em Pará de Minas e, depois, na Academia de Letras. Fechamos nosso círculo, pois em todos os espaços de meu pensamento, trabalho e escrevinhações, tinha a companhia amiga do poeta Dirceu.
        Sua doença me deixou triste, pois sabia desde o princípio da gravidade e do que estava para vir. Apesar de toda a esperança que via em seus olhos, foi definhando, ficando ainda mais alto e mais magro, mais fraco e mais debilitado. Todos nós, seus colegas de Academia, sentíamos vontade de colocá-lo no colo, mas em que colo caberia um poeta tão comprido? Nós o mimamos com nossos olhares de ternura, com um silêncio afetuoso quando ele falava sobre o que estava passando, sem uma queixa e sem uma reclamação da vida. Tão novo o meu aluno. Tão fora de hora a sua ida.
        Quando de seu falecimento, tive certeza de que um anjo foi ao encontro do Pai. Um poeta-anjo que jamais fez mal a qualquer pessoa durante a sua breve existência, que presenteou seus amigos e parentes com um testemunho de fé raramente visto e que nos deixou escritos tão lindos.
        Quando releio Tomás Antônio Gonzaga fico pensando que não foi coincidência que seu pseudônimo foi dado ao nosso Dirceu. Ambos sonhadores, visionários, buscando Marílias em cada amor que aparecia, dedicando suas vidas na luta por um ideal. O Inconfidente na velha Vila Rica e Dirceu Álvares da Silva no projeto de recuperação de presidiários. Ambos na peleja pelo sonho da liberdade e da dignidade do homem. E por falar nessa palavra tão linda, vêm-me os versos do Romanceiro da Inconfidência, da Cecília Meirelles:

“Liberdade - essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!”
 
        Hoje eu sei que Dirceu a explica muito bem, já que sempre entendeu perfeitamente o sonho alimentado.

11.05.08

ORAÇÃO DO PÃO-NOSSO

Obrigado, Senhor
Por este alimento que temos o privilégio
De receber agora.

Que ele seja energia,
Para que no corpo torne vitalidade;
Que seja balanceado e medido,
Despertando no coração justiça e bondade;
Que seja leve e sadio
Para que no espírito clareie a verdade.

No pão-nosso-de-cada-dia sei que estás
No ar discreto que semeou a semente,
Na terra em cio que a fez germinar,
Na água do rio que irrigou as raízes,
No fogo do sol que coloriu as flores e gerou os frutos.

Está também o trabalho de várias mãos,
Inclusive as nossas, este milagre da vida.

Senhor,
Tu que ensinaste
E demonstraste seu amor
Através da água transformada em vinho,
Das redes cheias de peixes,
Do pão multiplicado,
Do pão repartido,
Do pão consagrado,
Não permitais
Que profanemos este bem
Por nossas ansiedades,
Culpas e fraquezas.

Assim,
Amaremos a nós mesmos mais que ontem
Assim como nosso próximo,
Fazendo de cada refeição
Um momento sagrado
De partilha e cumplicidade.