Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Abril 2008

22.04.08

Terezinha Pereira/ HISTÓRIAS DE PESCADORES

2_ Histórias de pescadores


                                                       Terezinha Pereira

        O homem queria parar de correr atrás de notícias. Fatigado, em um findar de ano, com bagagem leve de roupas e algumas garrafas do vinho preferido, partiu para uma ilha deserta. Varou vésperas e dias seguintes ao Natal na solidão. Nada de celular, computador, burburinhos. Apenas o vinho e muita chuva, sem ao menos ver o mar.
O chegar do Ano Novo, levou-o para a beira do mar. E embevecido ficou com o rodopiar das alvas roupas dos iniciados do candomblé. Foi daí que aprendeu a beber da cachaça dos pescadores.
        A partir de então, caminhou por trilhas e trilhas na mata costeira, pé na areia, olho no vaivém do mar azul-infinito. Conheceu gentes, costumes e um sem conta de histórias. Terminadas as férias, achou por bem, desligar-se do trabalho. Sabia que, o que havia acumulado durante anos e anos de correria, apesar das folganças com mulheres mal amadas, noites mal dormidas e de olvidadas bebedeiras, permitir-lhe-ia desfrutar, por algum tempo, das preciosidades daquele lugar.
        Agora, findou abril e já se passaram três anos. Ele não sabe se, como homem acostumado ao burburinho da redação do jornal e da vida buliçosa da cidade, conseguirá ficar ali por toda uma vida. Da pesca, aprendeu as manhas e obtém o bastante para o viver. A promessa, feita no primeiro passar de ano naquele lugar, começa a levar a efeito. Haveria de escrever uma dúzia de histórias, uma a cada mês. Sentiu que chegara a hora de pegar lápis e papel para as primeiras palavras.
        Olha o mar, o céu, os homens a se desenredarem de tralhas e produtos da pesca e escreve o título de seu primeiro livro: “Histórias de gente da beira do mar”.........

(do livro de mini-contos: "Brevidades")

14.04.08

MÁRCIO MEIRELES / PADRE LIBÉRIO: Pobreza, humildad

MÁRCIO MEIRELES / PADRE LIBÉRIO: Pobreza, humildade e fé


Em 2004, o acadêmico Márcio Mendonça Meireles publicou o livro “PADRE LIBÉRIO: pobreza, humildade e fé”. Segundo ele, seu livro foi escrito no correr de muitos anos e sua intenção não foi a de tecer grandes comentários aos milagres atribuídos à intercessão de Pe. Libério junto a Deus, mas sim focalizar o seu perfil e a sua personalidade. Diz também haver escrito grande parte do livro quando Pe. Libério vivia em Pará de Minas e que teve o privilégio de visitá-lo em sua residência por diversas vezes e dessa forma, pôde transcrever alguns fatos que estão em seu livro que lhe foram narrados pelo próprio Pe. Libério.

Márcio Meireles diz acreditar que, aos teólogos do Vaticano é que cabe a função de se pronunciarem a respeito da autenticidade ou não dos tantos milagres que uma grande parte da população da região de Pará de Minas, de Minas Gerais e de diversas partes do Brasil atribui ao santo sacerdote. Um ser humano piedoso generoso e simples, que viveu em Pará de Minas durante muitos anos, tendo conquistado a gratidão da comunidade devido às suas bênçãos e a modo de ser.

Pe. Libério nasceu em 30/06/1884, em Lagoa Santa e faleceu em 21 de dezembro de 1980, em Divinópolis, onde viveu os últimos anos de sua vida, após passar por diversas cidades. Seu corpo foi enterrado em Leandro Ferreira/MG, em lugar de destaque, numa capela construída atrás da igreja principal da cidade. De frente à igreja e à capela, fica o “Museu Pe. Libério”, onde são guardadas as lembranças materiais de sua passagem por este mundo, como trajes, chapéus, móveis, livros e outros objetos e também a “sala dos milagres”. Nessa sala, são expostos milhares de agradecimentos feitos por pessoas de toda a parte do Brasil em forma de ex-votos, cartas, bilhetes, fotografias, cópias de documentos e tudo mais que o ser humano imagina servir de símbolo de agradecimento por uma graça alcançada.

Infelizmente, a edição do livro de Márcio Meireles encontra-se esgotada e ele ainda não providenciou uma segunda edição, apesar dos muitos pedidos que recebe. Por essa razão, já com autorização de Márcio Meireles, brevemente publicarei neste blog da ALPM, alguns trechos de “PADRE LIBÉRIO: pobreza, humildade e fé”, principalmente com relação   a passagens que se referem ao objetivo de Márcio Meireles, que foi o de focalizar perfil e personalidade do sacerdote que ainda hoje é tido como santo, pelas pessoas que com ele conviveram.


(Terezinha Pereira)

Acadêmico Márcio Meireles

13.04.08

Terezinha Pereira/ CERIMÔNIA DO CHÁ


Dia desses, a mestramiga convidou suas discípulas
Para, junto a ela, participarem de uma “cerimônia do chá”.
Que fossem de branco e que levassem lápis
de variadas cores e uma xícara desalada.

Seria para dividirem, além do chá, o silêncio das falas,
as notas das melodias, olores e sabores diversos,
a diversidade das cores inventadas pelo deus que habita cada ser,
a partir da trindade primária dos pigmentos.

Além disso, precisariam colocar os pés no chão, pedregoso, áspero, atapetado e caminhar, passos lentos, à luz do fogo de velas, em direção
a seu eu interior e, nesse ponto, atinar o seu ponto da emoção.
Então, por isso mesmo, ninguém foi meio a esmo.

De primeiro, a mandala, cada uma delineada de um jeito,
em preto no papel branco, foi oferecida às convivas.
Era o momento de se usar as cores, pensar seus desejos,
Dos simples aos mais íntimos, ao som de música criada além mar.

E o tempo, o tempo, o tempo........ Esse se vai, despercebido. Nem mesmo
a mandala estava já coberta de cores, chegada era a hora de sentir
os pés no chão. Dar os passos. Num silêncio de vozes, ao som de música
branda e pura, vinda de terra distante.

Num repente, voz desconhecida entremeia a música.
Chega para conduzir as caminheiras, em ajustado compasso,
ao destino daquele ir, meditar.
Singular momento........

Cada ser dentro de seu próprio ser, de seu deus,
criado à sua imagem-semelhança.
Não importa o nome: Deus, Jesus, Flor de Lótus,
Canjerê, Kyrie, Tupã, Javé, Ganesha, Buda........

Imóveis, olhos fechados, o toque de um sino, seguido da voz da mestra.
Chegara a hora do chá, do retornar ao mundo de fora do corpo.
No abrir dos olhos, vê-se o fogo de velas.
Não se pode dizer, se clareia ou penumbra o ambiente. Apazigua.

Cada uma, uma a uma, é convidada a buscar, na mesa posta,
sua xícara desalada e a seu lugar retornar.
A música que sai do aparelho de som , no servir do chá,
chaleira borbulhante, nesse momento é daqui da terra.

“Theotókos”, que para os do além mar é mãe de Deus,
chega ao som de instrumentos de Urbano Medeiros, que lhe deu vida.
Deveras.
Chegou no momento e no lugar perfeito para ser ouvida.

O sabor dos petiscos exigem, antes, o sentir do seu cheiro.
Disseram, as que lá estiveram, nunca haverem
compartilhado de banquete de tamanho apreço.
Nem faltou o sentir dos laços do abraço, da permuta dos ganhos.

Houve risos, lágrimas, ternura e muito mais. Um sentimento de paz.
E cada uma, praticamente sem dizer mesmo quase nada,
no findar da “cerimônia do chá”, saiu de lá, renovada.
E seu entranhado eu não ficou por isso mesmo.




05.04.08

banais são as guerras que acabam com os jardins

Em meu jardim há um canteiro de papiros. É uma planta festiva, tem um quê de fogos de artifícios. Uma haste comprida que culmina numa cabeleira vasta de fios leves. Uma espécie de bambu, já conhecido no antigo Egito. Talvez minha predileção por esta planta passe também pela relação dela com o papel.
Mas, estou a falar do papiro para contar, na verdade, um episódio que muito me marcou nos últimos dias: um passarinho resolveu fazer seu ninho nesta planta do meu jardim. Achei desde o princípio que não se tratava de um lugar adequado. Mas quem sou eu para pensar a engenharia dos pássaros?!
Assistimos ao trabalho árduo de recolher pequenos gravetos, horas e horas “costurando” a cama prometida.
O ninho ficou pronto e começamos a gestar os novos vôos. Até que a chuva deu o ar da graça e molhou nossas expectativas.
Ao rufar dos ventos fortes eu comecei a ficar apreensiva. Ia e vinha vigiando o ninho. Já cansada de não ter certeza e entregue à minha impotência exclamei:
- Ora, se Deus cuida dos lírios do campo e das aves do céu, cuidará desta também. Ele deve ter aprovado esta construção maluca!
Bati em retirada e acalmei meu coração depois, é claro, de ter amarrado todas as hastes com um cordão, visando deixá-las menos a deriva.
E foi nesta hora, que minha filha, em sua espiritualidade infantil, por isso mesmo mais verdadeira e profunda, dona de palavras tão parcas, porém certas nas horas certas completou:
- Deus ajuda sim, mas é através das pessoas. Ele quer que as pessoas façam a sua parte.

Dias depois leio “Massa e Meriba” do meu amigo Pe. Gabriel que termina o sábio texto assim: “Deus não resolve para nós aquilo que compete a nós mesmos resolver”.

A chuva passou e eu desamarrei a planta. Nova chuva, ainda mais forte chegou pela madrugada. O ninho tombou, não caiu, mas não conseguiu segurar os ovos. Um se espatifou. O outro ficou sobre uma folha, não quebrou. Subi na escada e aprumei o ninho arriado amarrando-o e devolvendo o único ovo restante.
O pássaro voltou. Acho que não compreendeu. Está ainda a espreita.
Fico cheia de perguntas: terá ele aprendido, contudo, uma lição? Será que o fato de perder o ninho, as crias, de viver um fim tão dentro ainda do começo, teve para ele algum significado? Afinal, até o bem e o mal, nesta perspectiva ficam tão relativos. São apenas conceitos.
Os jardins são mesmo paraísos onde Deus se faz presente. Neles é possível tocar o milagre de cada flor, pássaro, inseto que venham ser neste mundo. Mas para tê-lo é preciso colocar as mãos na terra, plantar as flores, cuidar, regar, educar. Um jardim também precisa ser podado. No jardim, a fé acontece gratuitamente. Por tê-la eu planto e porque planto eu colho. Há o ato de plantar e colher. Em caso de flores, colher a beleza principalmente. É a ação e reação. Ação e conseqüência que estudamos em História.
Fiquei horas refletindo sobre o que ando plantado e o ando colhendo nesta vida... E é certo que precisamos arrancar as ervas daninhas que em surdina brotam entre as sementes que semeamos.
Também vejo o milagre do movimento que garante a vida: o dia, a noite, o sol, a lua...E nesta caminhada diária deixar morrer o que é morto e transformar o fim em princípio.
São reflexões. Devaneios, mania de poeta...
Leio para meu companheiro estes pensamentos e falo da minha vergonha de estar falando de jardins, ninhos falidos de passarinhos enquanto o mundo se digladia em guerras, mortes, catástrofes de toda monta e ele, lúcido, como sempre, sentencia: “banais são as guerras que acabam com os jardins.”

Terezinha Pereira: A RÉPLICA


                                                            1_ A réplica           


           Ela subia as escadas do prédio quando encontrou a rival. Quem diria........ A dita, uma qualquer, saída do nada, usava roupas de marca, que lhe insinuavam o corpo modelado na academia, cabelos tintados de escuro e até lentes de contato, as quais mudavam seus olhos para verde. Na mão, apenas uma sombrinha. Se essa mulher ilusória estivesse tingida de preto, de azul ou de amarelo, ela a reconheceria entre milhares. Olhou-a fundo nos olhos esmeraldas-falsas e chamou-a de puta.
          A outra, se para se ocultar ou se para agredir aquela que lhe imputava tão chulo atributivo, abriu a sombrinha em direção a seu rosto. O inimaginável era que a ponta da sombrinha pudesse fincar bem fundo no olho azul-celeste direito da ex de seu novo love e acabar fazendo vazar todo o seu sangue e lhe tirar a vida em poucos minutos, antes mesmo de ser socorrida.
          Para a de olhos cor de esmeraldas-falsas........ bye, bye, carrão importado e cartões de crédito internacionais........ que na nova morada que passou a habitar, não lhe seriam de nenhuma serventia.

 

 

Terezinha Pereira

(da coletânea de mini-contos "Brevidades" )