Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.
<  Março 2008  >
S T Q Q S S D
          1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
31
Buscar
Receba os posts
Terra Blog

Arquivo de: Março 2008, 17

16.03.08

"Se eu quiser falar com Deus"

“SE EU QUISER FALAR COM DEUS...”

Deus fala comigo através da palavra escrita. Por isso fico muito atenta a todo e qualquer livro que porventura caia em minhas mãos. Eu acabo por devorá-lo no afã de encontrar o recado divino. Às vezes, o livro inteiro é um sinal. Às vezes, um parágrafo ou uma frase, ou somente uma palavra e até a entrelinha.
A palavra escrita coloca-me em comunhão com o homem e com Deus. Ela é uma espécie de elo capaz de unir os homens sem, contudo, roubar-lhe a liberdade.
Um livro não me passa em branco. Ele vem ao meu encontro e eu o ouço. Raramente deixo um livro falando sozinho, mas já aconteceu. Não o vejo como dono das verdades do mundo. Sei que escritores são de carne e osso. A verdade da palavra, sua realidade, é capaz de lembrar-me que a mentira pode ser a verdade em dimensões abstratas do inconsciente, este mar profundo de mistérios ainda por conhecer. Mas sei que a palavra é o início de tudo e, por isso, a respeito profundamente.
Deus criou o mundo com palavras: - faça-se isto ou aquilo... Era a palavra dando forma a idéia e condenando o homem a uma vida de pensamentos. O filho de Deus é o Verbo que se fez carne. O verbo é a ação. É o movimento. Portanto a palavra está em movimento. Em eterna criação.
Deus sabe que O procuro nos livros e então vem ao meu encontro assim. E não pense, leitor, que se trata de ler livros confessionais, religiosos apenas. Seria óbvio. Trata-se de encontrá-lo em qualquer livro e principalmente na literatura.
O ato de ler é um ato de coragem, de silêncio interior. É quando nos colocamos na posição de ouvintes, de observadores, de aprendizes. É uma espécie de contemplação ou de oração, pois para rezar é preciso silêncio interior, entrega e coragem de encontrar e ouvir o que, às vezes, nem queremos ouvir. Portanto são atos muito parecidos: ler e rezar.
Durante a leitura, diante de um personagem, posso compreender melhor o ser humano e assim deixar de julgá-lo, posso sentir compaixão, posso encontrar respostas as minhas perguntas, posso encontrar caminhos e posso sentir raiva também. Diante disto, posso compreender melhor meus demônios.
Como educadores, cansamos de dizer aos alunos que a leitura é muito importante, que é uma viagem, que vale a pena, mas mais do que tudo isto, não mostramos para eles o quanto a leitura é um mergulho em nós e em Deus. Eu mesma nunca consegui passar isto... Talvez a leitura seja uma descoberta pessoal, como a própria fé. Os jovens não estão lendo e culpamos a escola. Mas o mundo hoje não favorece a leitura. Leitura pede silêncio, pede imaginação, pede solidão. E o mundo está barulhento, cheio de imagens e ninguém quer ficar sozinho.
Alguns escritores foram fundamentais em minha vida: Mário Quintana, Clarice Lispector, Simone de Beauvoir, Sartre, Érico Veríssimo, Nélida Piñon, José Saramago, Pedro Nava, Gabriel Garcia Márquez, Marina Colassanti, Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Manoel Bandeira, Dalai Lama, Dom Bosco, Júlio Saldanha, Mauro de Vasconcelos, Márcio de Souza, Frei Betto, Lia Luft, Menotti Del Picchia, Núbia Marques, Rilke e outros tantos, mesmo que ilustres desconhecidos... Por todos, eu pude dizer como o soldado que vai para a guerra: eu era uma antes e me tornei outra depois.
Creio que melhor sempre, pois mesmo aqueles que me fizeram ver o quando o homem é capaz de ser irracional, fez com que eu vislumbrasse no mal a existência do bem.
A arte imita a vida e lendo é como se eu pudesse descortinar a história e vê-la de um ângulo privilegiado. É como se Deus me permitisse olhar de vários pontos como só Ele pode fazê-lo.
Algo interessante é a relação que crio com o livro: seu formato, cor, textura, cheiro. Uma relação táctil, olfativa, visual, sensitiva. Nada que se compare à frieza da tela do computador. E ainda pensam que os livros terão fim...
Mas o mais incrível é que o livro maravilhoso me rouba as palavras, me deixa um tempo em estado de graça, me traz um silêncio pouco experimentado e cheio de paz e é quando minha fé se torna maior, pois fico deslumbrada com o poder criativo do homem, imagem e semelhança de Deus. Fico “orgulhosa” da nossa espécie e me apaixono. Nenhuma arte foi capaz de me trazer isto e saibam que experimentei muitas artes!
Não tenho a pretensão de que, com este relato de minha intimidade espiritual, as pessoas se entreguem a mesma forma de oração, acho a conversa com Deus algo muito particular e Ele fala de variadas maneiras, em variados momentos. Nenhuma forma de falar com Deus ou de ouvi-lo é mais certa ou mais eficaz. Faço mais no sentido de responder ao pedido de minha amiga, a escritora Adélia Salles, presidente da Academia de Letras de Pará de Minas, que durante a última reunião pediu que eu colocasse estas idéias no papel, transformando-as em palavras escritas.
Vejo que esta forma de oração (leitura?) nem é só minha e já está registrada em papel desde 1981 nas palavras e na voz de Gilberto Gil: “Se eu quiser falar com Deus tenho que ficar a sós, tenho que apagar a luz, tenho que calar a voz, tenho que encontrar a paz, tenho que folgar os nós dos sapatos, das gravatas, dos desejos, dos receios, tenho que esquecer a data, tenho que perder a conta, tenho que ter mãos vazias, ter a alma e o corpo nus.”
E é mesmo...
Boa leitura e boa oração.