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AO SAUDOSO ACADÊMICO SÍLVIO LAGE
Privilégio!
Sim, este é o sentimento de quem conheceu e conviveu com o escritor Sílvio Lage.
Privilégio em beber na fonte a água pura de seus ensinamentos.
Privilégio em ouvi-lo sábio em sua simplicidade.
Privilégio em senti-lo humano em sua verdade.
Ele, que terminou seus dias entre nós dizendo do antagonismo da vida e, por isso, das mais variadas facetas da verdade. Privilégio em conhecer alguém que caminhou pela vida sem medo. Ousando ser feliz, arriscando palavras e riscando mágoas deste mundo, pois tudo ele justificava com sua serenidade ou, pelo menos, nos levava a compreender.
Ele que era inteiro poeta: alma e corpo. Alma de poeta é sempre criança, investigadora, sonhadora, encantada com tudo. Corpo de poeta é quase sempre sedentário, posto que está a mercê de uma mente viajante.
Privilégio também em tornar-se filho, pois ele adotava cada um, cada história. Tornava-se pai e pedia a Deus que abençoasse seus filhos das palavras. Ah...que saudade!
Mas o privilégio maior estava no sorriso. Um sorriso que cabia o universo e que ele experimentava em seus singulares versos. Um sorriso largo que largava sobre nós a certeza de amor intenso abraçado a rimas e métricas. Ele era exigente com as palavras e gostava que elas estivessem sempre em traje de festa e ainda, sutilmente, muito inteligente, maquiava a cada frase um humor tão particular que mais uma vez tenho de dizer. Ah... que saudade!
Hoje penso que ele está no vôo dos pássaros. Nos últimos tempos andava tão pesado... Agora voa alto, sobe sobre as nuvens e de lá desmaia alegrias. Livre de seu corpo, sua alma experimenta os ares tão íntimos de seus poemas nesta vida.
Agora ele também é poesia. A poesia que existe entre as palavras, no silêncio, no vazio. A poesia que existe quando já não há código, signos e só o sentimento. Ah! Que saudade eu tenho deste homem que soube amar e se fazer amado por tantos.
Privilégio é isto: poder dizer.
Conviver é mais que viver. É com viver.

criado por academiadeletras
21:18:34Bandinha da roça (1957)
Letra: Sílvio Lage
Música: Antônio Baiano
Lá vem partitura
Pra turma tocar
Em honra do cura
Que’stá pra chegar
O mestre-de-banda
Vestido a rigor,
Na frente ele anda
Regendo com ardor.
Que belo conjunto
De gente garbosa!
Cabelos com unto
E pele sedosa.
Um toca clarim
Soprando sem fim.
Manuel Clarineta
Empolga a retreta.
Com o seu saxofone
O João gramofone
Sem tempo, não fala,
Só pensa na escala.
Pregada na gola
Do moço da frente,
Que faz cabriola
E toca repente
Com o seu bombardino,
A folha pautada
Que é cópia de um hino,
Já foi decorada.
O baixo fazendo
Cadência pro povo,
E o bombo batendo,
Tem brilho de novo.
Tem mais, tem requinta
Tem sax, trombone
Tem folhas com tinta,
Tem formas de cone.
E tem um garoto
De pasta na mão
E traje já roto,
Que tem por função
Levar os papéis
Pra que os bacharéis
Se possam lembrar
Do que vão tocar.
E o Mestre Ventura?
É um grande talento !
Não lê partitura,
Nem toca instrumento.
(Esta letra de música foi composta pelo nosso saudoso acadêmico Silvio Lage com música de Antônio Baiano em 1957. Uma preciosidade de nossa música recentemente transcrita para partitura pelo acadêmico Júlio Saldanha para que faça parte do acervo do arquivo musical de Pará de Minas que será criado em breve).

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21:06:31