Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Março 2008, 08

08.03.08

REEDIÇÃO

Desde 2006 tenho publicado no jornal Diário de Pará de Minas uma série de artigos "A PALAVRA CANTADA NO BRASIL" enfocando a poesia na história de nossa música popular. Até agora, já foram mais de cem artigos desde o descobrimento do Brasil, passando no momento pelos compositores da década de oitenta. A série de artigos continuará sendo publicada normalmente no jornal diário, mas, a partir desta semana, passa a ser reeditada na internet a partir do primeiro, sendo acrescentado um por semana. A novidade é que as músicas citadas nos textos vêm com um ícone abaixo para que possam ser ouvidas.  

Para conferir basta visitar o site: www.cursodeviolao.net

coisas e Coisas

coisas e Coisas

Pablo Neruda colecionava coisas. Ao ler sobre isto no livro “Paula” de Isabel Allende confesso que fiquei impressionada. É que ando com uma vontade cada vez maior de esvaziar gavetas, de não ter o que não preciso e de precisar cada vez menos, tornando-me cada vez mais leve...
Fico imaginando o poeta em sua casa na Isla Negra, no ano de 1973, já doente e após ter deixado a embaixada em Paris para voltar ao Chile, onde ditava suas memórias e escrevia seus últimos versos.
Posso vê-lo olhando o mar, posso ouvir o vento zunindo entre pinheiros e eucaliptos naquele lugarejo de casas fechadas e ruas desertas. Posso ver sua casa num labirinto de madeira e pedra, um conjunto de construções ampliadas e emendadas de forma mirabolante. Posso seguir as palavras de Isabel Allende e entrar pelo pátio com sua sirene de navio, esculturas, restos de naufrágios que foram resgatados do mar e, posso, de uma escarpa, ver a praia infatigavelmente batida pelo Pacífico e inevitavelmente posso compreendê-lo envolto em seus tesouros.
Eram coleções de conchas, garrafas, bonecas, livros e quadros. Ele, afirma Isabel, era um infatigável comprador de objetos. “Amo todas as coisas, não só as supremas, mas as infinitamente pequenas, o dedal, as esporas, os pratos, as floreiras...”
Neruda também contou à escritora como descobrira, nos mais variados lugares do mundo, as suas figuras de proa, enormes carrancas com rosto e seios de sereia que presidiam as antigas embarcações. Ele dizia que aquelas lindas moças nasceram para viver entre as ondas e por isso ele as colocava olhando para o mar.
O poeta estava cercado de coisas e todas elas tinham grandes significados. Traziam lembranças de outras terras, outros tempos, outras gentes. Povoavam a memória e fertilizavam o imaginário deste homem que muito mais do que fazer poemas vivia de maneira poética.
E agora, onde estão estas coisas? São como botões que soltam das roupas e se perdem no mundo? Dizem que as coisas são impregnadas pela alma de seus donos. Quando se trata de instrumento musical penso é que tais coisas têm alma própria. Um piano, um atabaque, um violino...
Assim nascem as relíquias e também as coleções. Se chegasse em minhas mãos uma simples concha vinda diretamente de Isla Negra, recolhida em tempos idos pelas mãos de Neruda, não tenham dúvida, eu guardaria como ouro puro. Uma caneta de Mário Quintana, um rascunho do Érico Veríssimo, uma carta do Pedro Nava, um livro querido de Clarice Lispector, um disco do Sartre ou Simone de Beauvoir e outros tantos que fizeram este mundo melhor, com certeza, teriam seus objetos, morada certa em minhas gavetas e não resta dúvida que também eu estaria salva do vazio existencial. Afinal, existem coisas e Coisas.

07.03.08

Adélia Salles/ CARTA ABERTA PARA ANA CLÁUDIA

    
     Querida amiga,

     Acabei de ler, pela segunda vez, sua magnífica crônica "Coisas e Coisas", publicada no jornal Diário, de 7 de março de 2008.
     Nela você começou por dizer que Pablo Neruda colecionava coisas. Está aí uma coisa que nunca fiz, é claro que, quando ganho algo que me agrada muito, ou eu guardo ou uso. E nunca jogo fora, primeiro porque não sou de jogar nada fora, segundo porque o objeto sempre me lembra quem o deu para mim. Então, às vezes chego a me emocionar quando o revejo. Isto aconteceu comigo nas últimas vezes em que me hospedei no meu antigo apartamento de Brasilia. Os objetos sempre me lembravam os amigos que já se afastaram da minha vida, e nem sempre me lembrava da ocasião em que o presente chegou às minhas mãos.
     Mas você tem toda razão: há momentos em que precisamos "limpar as gavetas", até mesmo as da alma e isto é muito difícil de se fazer. Porém, coleções, comprar coisas pelo simples fato de colecionar, de possuir mais um exemplar para exibir como troféu aos meus amigos e familiares, isso eu nunca fiz.
     Agora, voltando ao seu artigo, que foi para isso que me dispus a escrever: falar de Pablo Neruda é, para mim, um prazer sempre renovado. Isto porque eu estive lá nas três casas do Poeta: eu visitei a Isla Negra, que é a mais interessante das três, e visitei também as outras duas: La Sebastiana, em Valparaiso, e La Chascona, em Santiago. Todas elas foram transformadas em museus, abertos à visitação pública onde são cobrados os ingressos, claro, para que o mundo conheça as manias, excentricidades e às vezes o mau gosto do Poeta.
     La Chascona significa "a esgadanhada", sua terceira esposa. Pelas fotos ela foi muito bonita mas seus cabelos estavam constantemente num desalinho de dar dó. La Sebastiana deve ter sido a primeira ou segunda, quem sabe?, era muito mais velha do que Neruda, mas se amaram muito e por longo tempo foram felizes.
     Quanto à pergunta que você fez sobre o destino de tantas lembranças, é fácil responder: está tudo guardado e muito bem organizado para que as pessoas, seus admiradores, possam ver e reparar tudo com muita calma. Quando eu disse acima que alguma coisa é de mau gosto, eu me referia a uma mesa posta na casa de Santiago, como se estivesse aguardando a chegada de alguns comensais. Na frente de cada prato estavam organizadas três taças de "bico de jaca", dispostas em triângulo: uma transparente, outra verde bandeira e outra vermelho sangue. Chocantemente horrível aquele arranjo! Estou habituada a reparar mesas postas em museus ou em bazares de Natal, por pessoas de classe, onde se vêm taças as mais belas e finas, transparentes, e uma de cor bem suave. Então o conjunto fica belíssimo. Aquela mistura de cores tão fortes foi chocante. Inesquecível!
     E agora, para terminar, quero dizer a você, querida amiga, que o desejo que você manifestou de possuir alguns objetos que teriam o valor de um tesouro, posso perfeitamente prometer a você um: uma carta de Pedro Nava. Possuo algumas, quando for a Belo Horizonte vou escolher uma delas (uma em que ele cita minha humilde pessoinha, só que usou meu apelido ridículo), então vou tirar uma xerox, ficar com esta e dar a você o original. Está prometido. Pode me cobrar, a carta será toda sua.


Abração de sua amiga,

Adélia

Fotografias: Chile, onde viveu Pablo Neruda

 

        

                     

Terezinha Pereira/ MACHADO DE ASSIS NO TEMPO E NO

       Lindolfo Xavier, escritor e jornalista nascido em  Pará de Minas
                  que conviveu com Machado de Assis  - PARTE I
                            

                                                 

                                                 

      Lindolfo Xavier nasceu em Pará de Minas em 19 de fevereiro de 1876. Era filho de Fernando Otávio da Cunha Xavier e de Maria Amélia Xavier Capanema. Alguns de seus parentes, da família Xavier, são destaques da cidade, como o pai Fernando Otávio, cujo nome foi dado ao maior colégio da cidade. O sobrinho, Ovídio Xavier de Abreu, foi presidente do Banco do Brasil e também deputado federal. Dr. Edward Moreira Xavier, médico respeitado foi prefeito da cidade e o Sr. Zezinho Xavier, vereador eleito diversas vezes foi um grande benfeitor da terra na área de ação social.
      Lindolfo Xavier mudou-se da então “Cidade do Pará” para a recém inaugurada cidade de Belo Horizonte, onde viveu até abril de 1907. Nessa época, mudou-se para o Rio de Janeiro a convite de Afonso Pena, então Presidente da República, para trabalhar no “Ministério da Viação e Obras Públicas”. No “Ministério da Viação” teve como companheiro de trabalho o grande escritor Machado de Assis, que exercia a função de Diretor Geral de Contabilidade. Joaquim Maria Machado de Assis, nosso escritor maior, além de ser um mestre das letras, exercia função importante como funcionário público, na capital federal, onde sempre trabalhou, desde quando foi nomeado para o cargo de “amanuense”, em 1873, ainda no tempo da Monarquia.
      Como jornalista e escritor, Lindolfo Xavier deixou diversas obras como: peças de teatro, livros didáticos de Geografia, Historia, crônicas, contos e novelas. Dentre tantas obras, deixou também “Machado de Assis no tempo e no espaço”, a que chamou de um ligeiro ensaio, onde narra sobre sua convivência com Machado de Assis como colega de trabalho e sobre como era a vida pública do escritor no tempo em que com ele conviveu, no Rio de Janeiro, de 1907/1908.
      “Machado de Assis no tempo e no espaço” foi escrito por ocasião “2o. Congresso das Academias de Letras”, em que se comemorava o centenário de nascimento de Machado, nascido em 1839. Foi publicado em 1940, pela Coeditora Brasílica Cooperativa, Rio de Janeiro.
     Tomar conhecimento de que um cidadão de Pará de Minas conviveu com tão importante escritor despertou-me a curiosidade. Quando pesquisamos sobre Machado, podemos encontrar muita coisa a respeito de sua obra, de sua biografia. Porém, torna-se precioso poder conhecer alguma coisa a mais sobre ele, narrado por alguém que com ele conviveu e, especialmente, por alguém nascido em nossa terra.
      Em seu livro, Lindolfo Xavier comenta que “Machado de Assis, na chefia da Contabilidade, convivia com Ministros, desdobrava-se em vertiginoso expediente, lia e estudava os processos, opinava com clareza e segurança de pontos de vista. Impugnava contas, requisitava esclarecimentos, reclamava provas e documentação das despesas. Meticuloso no confronto das colunas dos gastos comas verbas orçamentárias, exigia que se produzisse intensa luz sobre os assuntos em foco. E só dava o parecer aprobatório, quando não lhe restava mais dúvida sobre o processo.” Segundo Lindolfo “Machado era atencioso, ágil, solícito, delicadíssimo. A todo momento estava no gabinete do Ministro, no desempenho de suas funções.” A respeito da grafia de Machado de Assis, ele comenta: “ A letra de Machado de Assis, firme, inalterada, legível e forte, estirava-se pelas folhas, ora breve, em lacônico parecer, ora em linhas cerradas, de grafia inconfundível, com os períodos curtos, certos, frisantes, mostrando o estilete da crítica severa, em função de julgamento dos assuntos que examinava. Contas e relatórios, aberturas de créditos e aplicação de verbas orçamentárias aos serviços públicos nacionais, tudo merecia dele minudente estudo. Esse funcionário não se limitava ao despacho nas horas de expediente oficial. Na sua pasta de marroquim preto, levava papéis para casa e os estudava calmamente nas horas da noite destinadas ao repouso”. E ainda: “ Afogado na massa do trabalho, sem dar folgas a si mesmo, foi assim que ele conseguiu, sozinho, as promoções, até chegar ao posto de diretor geral de contabilidade.” A respeito das horas de lazer do colega de trabalho, que Lindolfo classificava como ‘fenômeno’, este conta: “Na casa dos Barões de Vasconcelos, mantinha o poeta das Falenas o hábito de freqüentar o jogo familiar do besigue, do xadrez, do gamão, do Main-Jaune, do sete e meio, das damas. Aparecia, invariavelmente, às 8 da noite, com Carolina (a esposa), que não jogava: batalhava com as cartas e com os tentos, ou com as pedras, discutia, gaguejava, retardão: gostava de ganhar sempre, mas não era de jogo de dinheiro. Às 11horas retirava-se com Carolina.”
     Curiosa, a narrativa sobre a última conversa que Lindolfo teve com Machado de Assis e Artur Azevedo. Falavam de Afonso Arinos, autor que retratava em seus textos os sertões brasileiros. Nesta conversa, Lindolfo contou a Machado sobre algumas ocasiões típicas de Minas, falou das festas de “acabamento de capina” que aconteciam nas margens do rio Paraopeba, no município de Pitangui; contou sobre os batuques na Fazenda do Junco, nas regiões de Pompéu, mostrando a alegria primitiva e rude, das violas, dos sapateados, das embigadas, no aboio do gado. Teria Machado agradecido por aquele momento de reminiscências do sertão de Minas, acrescentando: “Há tanto entusiasmo nessa vida selvagem!”
     Sobre os últimos momentos de vida do escritor, Lindolfo comenta: “Trabalhou até bem perto do término de seus dias. A lucidez acompanhou-o sempre, a ponto de só se afastar dos deveres para dar o mergulho na eternidade”.
     Para não esticar muito este artigo, proponho ao leitor uma segunda parte, em que narrarei mais algumas impressões de Lindolfo Xavier a respeito de seu colega de trabalho no “Ministério de Viação e Obras Públicas”, situado no Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil.


                                                                   ***

* O livro “Machado de Assis no tempo e no espaço”, de Lindolfo Xavier, foi adquirido no final de 2005, em um sebo virtual, após informações obtidas no “Museu Histórico de Pará de Minas” a respeito do autor. Integra o acervo do grupo de pesquisa “Paralivros2005”, que anda à procura de textos e livros publicados por autores nascidos ou moradores de Pará de Minas, desde a época do “Arraial do Patafufo”.

Caso o leitor conheça alguma publicação de outro autor desta terra, que tenha publicado textos ou livros a partir do século XVIII, por gentileza, entre em contato com a ALPM, através deste blog, no link "comentários ou escreva uma mensagem para Terezinha Pereira, endereço:

 
terezapereiras@nwm.com.br

(Terezinha Pereira)