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13:46:47Nem sempre, as sombras são
Levantei-me para pegar um pouco da água do Chafariz para espertar o rosto. Então, notei umas chamas perto das portas daquele lado da igreja. Andei até lá. Sabe, daquelas lanternas usadas em procissão? Fui contando: uma, duas, três, mais uma na frente, bem de frente a porta principal e mais três do outro lado da igreja. Tochas, lanternas, velas, seja o que for. Fincados no chão e acesos. Lembra daquele calafrio de que falei, calafrio que menino sente quando ouve casos mal-assombrados? Além de calafrio, senti os cabelos do corpo se eriçando, suor descendo espinha abaixo, tremedeira. Era dia claro. Mas, eu desandei numa carreira, acho que, de tão grandes as passadas, nunca gastei tão poucos passos para chegar lá na Barra.
A procissão ameaçava sair. O Cristo morto já era acomodado no esquife. Meio a multidão coberta de luto, o ruído seco das matracas se espalhava. Cada devoto levava sua vela já acesa. De cera ou de espermacete? Tal rebuliço me tornava abrandado, como também o percorrer do séqüito pelas ladeiras da cidade, iluminado pelo bruxulear de velas, lanternas, tochas. De onde eu via o movimento ficava a pensar no quanto me era aprazível ver aquele povo todo unido na praça. Nisso, as luzes dos postes se apagaram e um vento veio assim de brusco. A princípio, assoprou de manso. Então, vieram redemoinhos levantando cisco do chão, ninguém sabia onde se abrigar. Voaram chapéus de palha, chapéus de feltro, véus pretos das senhoras, véus brancos das donzelas. Se era meados de abril... Sei não. Do parapeito da escada da Escola de Minas, tinha visão da praça por inteiro. Xi! Um sopro vigoroso fez extinguir quase todas as chamas. Restou uma aqui, outra lá. Nem podia mais avistar o cortejo do senhor morto. Verônica, essa só podia ter-se exalado, sudário e canto.
Restou-me contemplar a praça vazia. Tiradentes, lá do alto de seu posto de guardião, tinha ares de que nem se apercebera daquela agitação incomum do vento, que fazia por dispersar a multidão de fiéis ali disposta a acompanhar, vez outra, o féretro do Cristo que havia sido morto na cruz, para pagar os pecados do homem. Ouvi quando o padre falou em voz muito alta, poucos escutaram sua fala, que o microfone estava mudo. Vão todos para casa. Em ordem. E lembrem-se de rezar e pedir perdão pelos pecados. São os pecados dos homens que fazem com que Deus desperte tamanha fúria na natureza num momento desses. Trovoadas e rabiscos de raios no céu chegaram no repente e apanharam o povaréu a debandar. Eu podia jurar que, há um minuto atrás, digo, há dez minutos atrás, bem, não sei mais há quanto tempo, o céu estava assim, pintadinho de estrelas, a lua cheia brilhava no céu. Praça deserta, notei que alguns fiéis, ainda de velas acesas, desciam rumo ao Pilar. Saí de onde estava e fui até a esquina. Contei sete velas acesas. Corpos vestidos de negro, cabeças cobertas por véus negros. Silhuetas esguias, de estatura alta e compleição forte. Iam, os sete, ladeira abaixo. Chovia forte. O vento não abrandara o suficiente para deixar pavio de vela acesa. No entanto, sete chamas tremulavam. Vendo aquilo, me veio um daqueles calafrios próprios de meninos quando ouvem casos de assombração, contados pelos mais velhos. Coisa pouca essa, que não me tirou a resolução de acompanhar o destino daquelas luzes. Nesse tempo, vi que os sete fizeram algumas rezas, algumas evoluções. As velas acesas, os rostos velados. Depois, montaram guarda ao redor da igreja. Um, postou-se próximo à porta da frente, três do lado que dá para o Chafariz e os outros, do outro lado. Estava que era um breu só. Só via as chamas. De ruído, um matraquear de compasso lento. Encarei a cena de frente, dos lados e fui me amoitar detrás do Chafariz, de onde só via quatro deles, melhor, a luz de quatro velas. Meu corpo cansou de ficar ali, estacado e foi-se amontoando no chão. Nem ligava para a chuva. Sei que, quando dei por mim, o dia já começava a ser claro. Primeiro, fiquei pensando onde eu estava. Depois, olhei para frente e atentei para a lateral da igreja. Gente, nenhuma. Pudera. No sábado santo, não há celebração de missa. Veio-me à idéia a ventania, a chuva. Apalpei a roupa do meu corpo. Roupa, chão, plantas, árvores. Tudo seco. O céu prometia um dia iluminado.
Já contaram, ouvi por aí, que alguma vez, em alguma sexta-feira da Paixão, haviam achado umas tochas, assim, assim, diferentes das de uso na cidade, rodeando a igreja do Pilar. Tem gente que diz que pareciam daquelas, de canzuá. Tem gente que conta que ali haviam visto lanternas que mais pereciam coisas que não eram desse mundo. Via das dúvidas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, beijinho na mão, cruz no pescoço, só ando por aquela região do Pilar, dia claro, de preferência, acompanhado. Que a Senhora do Pilar me dê o perdão, que da pinga, pago promessa, nunca mais eu bebo aquele gole que é de oferecer ao santo.


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01:36:17

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23:19:27 O GATO CONSAGRADO

Foi a primeira vez que entrei na casa de Dionísia. Perdi-me no cômodo que lhe servia de cozinha, de quarto de dormir, de sala e ainda abrigava uma infinidade de imagens de santos e de gatos. Não pude calcular quanto gatos vi, enroscados por todo lado, espreguiçados no sofá, na cama forrados de mil xales de mil cores e de mil miçangas. Vi gatos andando e miando pra lá pra cá. Nesse dia, Dionísia não fora a igreja. Nem no dia anterior. Encontrei-a caída num tapete de mil retalhos, misturada com os gatos, molhada de urina, de suor e com o corpo quente de febre. Pode ser que os gatos lambiam seu rosto na intenção de fazê-la refrescar. Ou para fazê-la sair daquele torpor. A moradia ficava num beco na periferia da cidade, cercada de mato e de algumas plantas floridas, que poderiam ter sido trazidas de sobras de ornamentação da igreja. Nenhum vizinho próximo.
Gatos causam-me uma sensação de estranheza. Repugnância? Uma gastura. Pode ser. Como a porta estava destrancada, entrei. Precisei pedir licença aos gatos para levantar a Dionísia do chão. Precisava pedir ajuda, alguém para me ajudasse a carregá-la até o carro. Não sei como, nem de onde, surgiu o mudo com seus trejeitos. O mudo que vivia vagando pela cidade, que não perdia cerimônia alguma da igreja. Teria me seguido. Pode ser. Bendita a hora em que ele resolveu me bisbilhotar. Custando a firmar a mão inquieta desde a nascença, ele fez sinal de que deveríamos levantar a mulher desacordada e sair com ela dali. Quando a deitamos no banco traseiro, o mudo, ligeiro, sentou-se no banco da frente, bateu a porta do carro e abotoou o cinto. Dali, olhei a casa, tentando apreender o que havia visto lá dentro. Imagens de todos os santos, velas de cores várias, umas acesas, outras não. Terços pendurados em jarras com flores já murchas, cruzes enfileiradas de alto a baixo nas paredes que nem pareciam ter cor. Um cheiro morrinhento, que nunca esqueci. O banheiro........ a rude cabana coberta de palha do lado da casa? Os gatos. De mais várias raças, cores, tamanhos, textura de pelos........ Todos pareciam me ameaçar, miando alto. Quereriam dizer-me algo, quando fechei a porta da casa? Não sei se tinha pressa de socorrer a mulher ou de me ver livre daquela casa gato-assombrada. As velas acesas.......Voltei para apagá-las. O receio era que se perdessem os arranjos daquela casa.
Foram dias de hospital. A Dionísia, de olhos fechados, aparelhos ligados para manter-lhe a vida. Numa manhã de ventania, creio que no décimo dia, quando fui fazer-lhe a visita diária, peguei-lhe a mão como sempre fazia e senti um ligeiro movimento, que me pareceu um afago, que se estendeu por todo o meu braço. Estaria ela a acarinhar um de seus gatos? Não sou um deles........ Gritei para enfermeira que a doente reagia. Dias após, ao aparentar-se curada, apesar de seu rosto mais ossudo, cabelos mais bancos, desgrenhada, foi levada para casa na ambulância. Não quis acompanhá-la. Temia........ Os bichos haveriam morrido de fome........ O cheiro. Aquela casa adornada de tudo, estaria exalando pior cheiro........ Uma enfermeira de família acompanhou- a. Levou-lhe junto roupas limpas, frutas, legumes e outros alimentos. Os funcionários do hospital ofereceram-lhe também um vaso com flores, com os votos de um breve restabelecimento.
Dois dias depois de voltar a casa, Dionísia foi à missa. Assentou-se no mesmo lugar de sempre, acompanhou as orações com a voz desentoada de sempre e foi receber a comunhão. Desta vez, sem pressa. Como se a possibilidade de ser a primeira da fila não mais lhe importasse. Observei-a voltando da comunhão, desconfiada, segurando a ponta do cachecol entre as duas mãos. Na noite seguinte, aconteceu do mesmo jeito e eu estranhei........ Estaria se escondendo? Escondendo? Ela sempre tivera urgência para comungar. No terceiro dia, na igreja, achei-a um pouco triste, como que desolada. Pensei que podia estar com fome, teria ela dado toda a comida aos gatos? Deveria ter ficado mais tempo no hospital? Quando ela saiu, apertando a ponta do cachecol entre as mãos, resolvi segui-la. Dionísia era-me uma incógnita, desde que eu chegara na cidade, há dois meses. Não sei dizer o motivo real que me levou lá na casa dela, naquele dia em que a encontrei desmontada no chão, como que emergindo de um lago de gatos........ Segui seus passos curtos e apressados. Ainda bem que a iluminação da cidade é fraca e ela, nem uma vez, olhou para trás. Quando chegou na trilha de terra que leva à sua casa, parei e esperei que entrasse. Devagar, ela abriu a porta da casa. Uma porção de gatos, num só miado, vieram-lhe lamber os pés, as pernas. Sem olhar para fora, ela encostou a porta. Aproximei-me da única janela. Pelas frestas, vi que havia acendido alguma vela. Corri até janela e pude espreitar o que acontecia lá dentro. No altar mais cheio de imagens, Nossa Senhora Aparecida, São Judas, Santa Rita, São Jorge, Padre Cícero e alguns anjos alados, outros não, estava deitado um enorme gato escuro, peludo. Dionísia caminhou em direção ao altar e desdobrou o cachecol. Pude ver que tirou alguma coisa branca da dobra. Ao redor de suas pernas, alguns animais miavam, como se lhe pedissem colo. Imaginei que o gato escuro de cima do altar estivesse morto, mas quando ela o acarinhava, ele se moveu. Vi que ela levantou a cabeça do gato e abriu-lhe a boca para oferecer-lhe a coisa branca que havia tirado da dobra do cachecol. Então, pude perceber que a mulher empurrava na boca do gato enorme, a hóstia que havia recebido em comunhão. Um ruído de folhas a meu lado me fez perceber a presença do mudo, agitado, repetindo os gestos da sagrada comunhão.

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