Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.
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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2008, 26

25.02.08

Terezinha Pereira/ ACADEMIA É CULTURA


     Algumas embarcações vieram lá de Portugal e chegaram ao Brasil. Por engano. Dizem. Haviam partido de Portugal em direção às Índias, em busca de iguarias. Junto com a tripulação e marinheiros veio um escrivão de nome Pero Vaz de Caminha. Para registrar, por escrito, os  feitos  da  viagem.  Dizem.  Viagem  marítima, naquela época, era experiência perigosa, arriscada, com incertas decorrências,acontecimentos imprevistos, surpreendentes. Como o achamento dessa grande terra, nunca antes vista. Também dizem.
      Haviam de contar a Dom Manoel, rei de Portugal. E no dia primeiro de maio de 1500, uma semana após atracarem as naves na costa deste hoje nosso Brasil, o escriba Pero Vaz de Caminha pegou da pena e do papel da época e escreveu uma carta com palavras catadas entre as melhores, dizendo logo no início que “para aformosear nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.” Falou das gentes que encontraram por aqui, das águas, da vastidão de terra e das águas. Essa carta acabou se tornando o primeiro documento da história e, na opinião de muitos, o primeiro texto da literatura feita no Brasil. Se muitos não consideram a carta de Caminha como um documento literário, não importa. Como um bom narrador, o escrivão Caminha começou dizendo que nada colocaria no papel para embelezar ou tornar mais feio o caso que estava narrando ao rei, que escreveria o que havia visto e lhe parecera. O que não deixa de ser marca de texto que tende para literatura.
     Foi mais ou menos assim que o Dr. Murilo Badaró, presidente da Academia Mineira de Letras, começou a falar da história de literatura no Brasil. Se atendeu, com tanta gentileza, a um convite de Adélia Salles, presidente da Academia de Letras de Pará de Minas, para falar a respeito do “papel das academias de letras na formação da nacionalidade”, haveria ele de falar a respeito de como a literatura começou a se formar na nossa nação, não é mesmo? Perdeu quem não esteve lá na Câmara Municipal na tarde de sexta, dia 11 de maio. Deixou de assistir a uma grande aula de história da literatura, que já comecei a contar como sucedeu e de qual vou contar mais um pouco.
     A nação brasileira foi se constituindo num certo alvoroço, o descobridor tinha lá seus desejos, seus ímpetos, suas crenças. Junto com os que queriam riquezas, vieram os que ansiavam por outros valores, os que queriam “cuidar” daqueles seres primitivos, sem roupa, de corpos pintados, de rostos furados, cheios de argolas ou outros ornamentos que foram citados na carta de Caminha. Padre Antônio Vieira foi dos que vieram depois. Por estas bandas, escreveu seus “Sermões”, com palavras escolhidas, justamente para aformosear seu discurso e para evidenciar as importâncias da época. São magníficos discursos, tidos ainda hoje, como os melhores textos em prosa da literatura brasileira. De acordo com o nosso palestrante, tais Sermões devem ser lidos e relidos por todo aquele que pretende um dia saber escrever da boa literatura.
     Vamos caminhar mais um pouco na história. Alguns brasileiros saíram da terra então colônia para fazerem seus estudos na terra mãe. Fizeram literatura quando estavam além-mar, como, por exemplo, Basílio da Gama, nascido em Tiradentes, que escreveu “O Uraguai”, um poema épico que trata da expedição mista de portugueses e espanhóis contra as missões jesuíticas do Rio Grande, para executar as cláusulas do Tratado de Madri, em 1756. Depois, vieram outros: os poetas das primeiras academias literárias, conhecidas como arcádias, os poetas parnasianos da época da Inconfidência Mineira. No entanto, conforme opinião de nosso palestrante Murilo Badaró formada de muitas e ricas leituras, a literatura genuinamente brasileira começou no período conhecido como romantismo com José de Alencar, Gonçalves Dias e Machado de Assis, que surgiu na transição para o realismo. A sugestão do palestrante a respeito da leitura dos textos de Machado de Assis vale para todos que apreciam uma boa leitura e mais ainda para os que querem praticar a arte do bem escrever: “leiam Machado de Assis, releiam, tresleiam, leiam mais outras vezes. Os escritos dele são como fontes de tesouro.” E, acho eu, ninguém vai perder o juízo com tanta leitura de Machado.
     Quem se lembra de Fagundes Varela, Castro Alves, Cruz e Sousa, Gregório de Matos? Quem esteve presente no salão da Câmara Municipal pôde ouvir a leitura de magníficos versos de poetas importantes do século XIX........ Então, chegou o século XX e na década de 20, surgiu o modernismo de Mário de Andrade e outros. Alguns anos depois, nascido nessas Minas Gerais, surgiu Guimarães Rosa, que é tido como o maior autor brasileiro de ficção. Seu romance “Grande Sertão – Veredas” narra fatos da vida do homem do sertão do norte de Minas com palavras, com as quais “reinventa” a língua portuguesa.
     Creio que não me lembro de tudo que Murilo Badaró falou como estudioso de literatura e sabedor da importância de uma Academia de Letras para continuidade e preservação da cultura de uma cidade, de uma nação. Porém, lembro-me bem da importância de suas palavras para o conhecimento de como se formou a literatura no nosso país. O leitor que não esteve lá, pode conversar com outras pessoas que o ouviram e saber de mais um pouco.
     Pessoas importantes de nossa cidade estiveram presentes, como o prefeito Zezé Porfírio, Cristina Gabriela (secretária de educação), Célio Duarte (secretário de cultura), Edna Morato (diretora de cultura), Francisco Júnior (presidente da câmara municipal), Nanci Teixeira, Cristina Teodoro, Marco Aurélio (vereadores), Dr. Carlos Donizetti (diretor do Fórum juiz da 2a. vara cível da comarca), acadêmicos da Academia de Letras de Pará de Minas, diretores e professores de escolas, escritores, representantes de toda a imprensa da cidade e os amigos das letras que atenderam ao convite da nossa academia. Foi realmente uma noite de gala da literatura de Pará de Minas. Pena que o tempo previsto para a duração da fala do nobre acadêmico foi curto para as tantas coisas que ainda podem ser ditas a respeito da importância das academias e da literatura e também do que vem acontecendo no país, a partir de Guimarães Rosa. Fica para uma outra vez.

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* “Academia é cultura” _ programação que a Academia de Letras de Pará de Minas promoveu no ano de 2007, em comemoração aos seus 10 anos de existência.