Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2008, 24

24.02.08

Terezinha Pereira/ SOPROS DE VIDA

      Consta em seu registro de nascimento, que foi no dia 15 de dezembro de 1907, no bairro de Laranjeiras, no Rio de Janeiro, que o grande homem recebeu o primeiro sopro da vida. Como toda criança ao nascer, logo deu seu primeiro choro. Oscar Ribeiro de Almeida Niemeyer Soares precisava do ar para ter a vida.
      Hoje, não se importa com o inevitável momento em que dará o último sopro _ e nessa hora, outros serão os que se abrirão em choros. Entende que é vida é um minuto. Deve ser por isso que fugiu de arestas. Nada de quinas, de esquinas, de pontiagudos, nem mesmo de gente de temperamento complicado.
       De menino, com o dedo, desenhava formas de nuvens no ar. Percebeu logo a liberdade que lhe dava os espaços da linha curva. Daí, tirou simplicidade, beleza, arte e idéias. Riscou curvas cilíndricas, de cone, entradas, saídas, coberturas e contornos sinuosos e até mesmo, espaços ondulantes, extensos.
      No entanto, diante dos risos e choros da vida, preferiu não se curvar. Frente à imprevisibilidade da vida, chora e ri, que a vida é rir e chorar. Faz caso de estar dentro da realidade. Cuida-se de ser um ser de utilidade, solidário. Questiona que, diante da vida, todos estão num mesmo barco e que o espaço entre o primeiro e o último sopro é muito curto. Deve ser por isso que diz “estar livre para construir hoje o passado de amanhã”.
      É conhecido no mundo inteiro, pela ousadia que teve de se aproveitar da novidade do concreto armado para fazer executar grandiosidades; monumentos arquitetados com seus riscos singelos, que mudam de direção com suavidade, porém com audácia, como o curso dos rios, as nuvens do céu, as ondas do mar, a silhueta das montanhas de sua terra e até mesmo como o contorno do corpo da mulher preferida. Riscos que fazem brotar do chão verdadeiras esculturas, as quais despertam nas pessoas, quer sejam poderosas ou não, entendedoras de arte ou não, momentos de prazer, de espanto, de surpresa.
      Diz que a natureza lhe foi generosa, permitindo-lhe saúde.
       Ou teria sido ele mesmo, que teria se aproveitado da genialidade que lhe foi dada pela generosa natureza para, até hoje, fazer de seu trabalho, de suas idéias de igualdade social, do seu jeito de aceitar as pessoas do jeito que elas são, com seus defeitos e qualidades, como o sopro da própria vida?

(Para Oscar Niemeyer, arquiteto brasileiro e um dos nomes mais importantes da moderna arquitetura mundial, que ficou em nono lugar num resultado de uma pesquisa computada por uma empresa de consultoria global , “Synectics”, que apontou os “100 maiores gênios vivos do mundo atual”. Gênio que, aos 100 anos de vida, ainda trabalha todos os dias no seu escritório de arquitetura em Copacabana, no Rio de Janeiro e recebe as pessoas com a simplicidade de um homem comum, como se essas pessoas fossem as mais importantes.)


Terezinha Pereira, Oscar Niemeyer, Sílvia Capanema P. Almeida

Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2008


23.02.08

Ana Cláudia / INTERROGAÇÕES

Tornou-se praxe a descrença na educação. Dos entendidos no assunto aos totalmente desinformados são corrente frases como: a educação está falida, não tem jeito para a educação, o povo de hoje não aprende nada, os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem...
Que há uma crise na educação é verdade e todos sabemos. Mas qual a solução? Eu também não sei. A solução para mim passa por reflexão.
Como gente da História, sou levada a buscar o ponto de vista no passado. Neste passado não muito distante, encontro uma educação para poucos, uma escola voltada para os conhecimentos acadêmicos, uma moral rígida e uma família estruturada com pai, mãe e filhos, uma casa que, por muito pobre que fosse, tinha um nível de organização doméstica sem televisão, um país saindo do campo e entrando na era industrial.
Esta escola para poucos recebia da sociedade um aluno que não mudava, não dominava, nem controlava a vida de seus pais, muito pelo contrário, ele estava sujeito a vida desses pais e compreendia os pais como referência, provedores, e, portanto com respeito hierárquico. Em casa, este aluno recebia noções de comportamento social e aprendia que era preciso respeitar as pessoas mais velhas, ceder a vez, o lugar. Era inconcebível para um pai, um filho desrespeitar um professor. É claro que esta educação rígida tinha seus espinhos e não vou me deter nisto, pois meu raciocínio busca outras paragens.
Tenho pensado que a crise da educação não é da educação propriamente e sim uma crise social com base na desestruturação familiar. Os professores que estão em sala de aula em maioria, foram alunos desta educação “cuspe e giz”. Eles ficaram horas, quietos, sentados, calados diante de um professor que “supostamente” detinha o conhecimento e depois, na faculdade, eles também não aprenderam a usar a criatividade como ferramenta fundamental para a escola de hoje e responderam a questões fechadas, falso ou verdadeiro, e muito pouco exercitaram o próprio pensamento. Depois foram para a sala de aula e encontraram um aluno que não tem nada a ver com o perfil do aluno que ele, professor, foi em sua fase escolar.
Por um lado, temos um aluno que navega na internet, tem livros, viaja, foi criado por babás e têm expressão própria e, por outro, um aluno jogado à sorte, ou sem pai, ou sem mãe, na rua. Nos dois casos, os alunos já não entendem o professor da mesma forma que no passado e também a era é agora tecnológica caminhando para uma era emocional.
Eu sei que o papel da escola é um e o da família é outro. Que bons modos, respeito, organização se aprende em família. Mas a família atual está tendo bons modos, respeito e organização? Como dar aquilo que não temos?
A escola insiste em oferecer conhecimentos acadêmicos. Existe um currículo a vencer. E, para complicar, existem também alunos com famílias estabilizadas buscando para seus filhos estes conhecimentos acadêmicos que lhes abrirão um futuro promissor nas universidades federais e nos concursos públicos.
Como a escola pode se resolver neste fogo cruzado? Passa a educar para valores e somente valores e deixa de ensinar juros, porcentagem, raiz quadrada e complemento nominal? Ou ensina o aluno a dizer bom dia, obrigado, a ouvir e falar e avalia isto ao final do bimestre e o conhecimento acadêmico fica por conta do próprio aluno que poderá busca-lo quando for necessário?
Meu leitor estou transbordando interrogações. Como não é papel do escritor ter respostas para tudo, aproveito meu espaço para fazer uma exposição dos meus pensamentos ainda em fase germinativa e, portanto nebulosos, correndo o risco de estar escrevendo um monte de disparates.
O blog está a disposição para comentários, afinal duas cabeças pensam melhor e a solução existe pois, como disse a Maisa Lage certa vez para mim: só a morte não tem solução.