Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2008, 19

19.02.08

Déa Miranda/ COISAS DE CRIANÇAS


 
               
          Convivi com os meus filhos durante todo o tempo e em todas as fases de suas vidas. Essa convivência permitia que eu desfrutasse de todos os seus momentos. Presenciava o que falavam e faziam. Poder participar disso me fazia muito bem e foi uma das melhores coisas que já aconteceram comigo. Imaginem agora esse vasto material na mão de uma pessoa que gosta de escrever: em que se transformaria? Pois bem, foi isso que aconteceu. O resultado está em uns três cadernos de duzentas folhas, escritos com letra redonda e colegial. O “colegial” fica por conta de meu irmão. Ele sempre diz que minha letra conserva as características de uma escrita colegial. Fazer o quê, não é? O tempo vai passando e a minha letra continua colegial... 
          É bom lembrar aqui que meus filhos foram crianças como quaisquer outras. É importante que se diga isso para que não se crie uma antipática apologia “às gracinhas”, “aos encantos”, “às inteligências” deles. Toda criança é maravilhosa, pois carrega dentro de si a inocência, e Deus habita em cada uma delas. Precisa dizer mais alguma coisa? A diferença dos meus filhos para os outros foi que tiveram a sina de nascerem de uma mulher com mania de escrever e que passou todo o tempo ao lado deles registrando tudo. Posso dizer que nada deixei escapar. No final do dia, quando eles adormeciam, eu escrevia as suas historinhas. Se me perguntavam qual o objetivo daquilo, eu dizia que certos momentos não podem ser perdidos no tempo. É preciso que fiquem eternizados. E eles ficaram e têm sabores e aromas agradáveis. São um misto de brigadeiro e guaraná, de talco e sabonete pompom. E creio que têm sons também. Não dá para desvincular o som (ou seria balada?) de tudo que é bonito. Talvez dê até para ouvir as risadinhas gostosas deles e por que não dizer sonoras?
          Tudo isso eu pude sentir hoje, ao folhear um desses cadernos. E como não é bom desfrutar sozinha dos bons momentos, escolhi dois para partilhar com os meus leitores.
          “Eu me encontrava na cozinha cuidando de alguns afazeres quando minha filha (ela estava com quatro anos) chegou muito contrariada, demonstrando que alguma coisa a aborrecera, e me disse: “Mamãe, venha ver o que meu irmão fez no meu quarto!” Saí atrás dela imaginando encontrar algum malfeito. Ela caminhava à minha frente com aqueles passinhos espertos e diligentes. Assim que chegamos ao seu quarto, ela apontou para a parede perto de sua cama e disse irritada: “Olhe só o que ele colocou aí!” Vi a foto do Zorro fixada na parede por um durex. Sem compreender a irritação dela com uma coisa tão simples, falei: “Isso não tem importância! Ficou bonito, não ficou?” Ela abaixou os olhinhos meio envergonhada e disse: “Ficou, mamãe. Eu acho o Zorro muito bonito!” Com mais dificuldade ainda para entender, repliquei: “Pode deixar ele aí então. Que importância tem?!” Ela olhou-me com uma carinha desconsolada e falou baixinho: “Mas eu vou ficar olhando toda hora para o Zorro e vou acabar ficando apaixonada por ele”.
          Outro dia, ela chegou perto de mim com as mãos cheias de sementes de mamão, me mostrou a película que as envolve e perguntou se aquilo era plástico. Fiquei pensando como eu ia explicar a ela que fazia parte da natureza, ou seja, não havia sido feita pelo homem. Falei: “Isto não é plástico. Foi o Papai do Céu que fez para proteger a semente do mamão”. Ela ouviu com muita atenção, mas não disse nada. Saiu silenciosamente, carregando as sementinhas, os olhos fitos nelas. Sumiu durante um bom tempo. Depois surgiu toda sorridente, estendeu as mãozinhas para mim (as sementes ainda se encontravam lá, só que estavam todas sem a tal película) e disse: “Mamãe, veja só! Desmanchei aqueles negocinhos todos que o Papai do Céu fez nas sementinhas do mamão!”.

18.02.08

Regina Marinho / Meu avô

Meu avô ( Regina Maria Melo Marinho Ferreira)


Meu avô materno, Augustinho de Melo, era um ser espaçoso. Digo espaçoso, mas o sentido não é de pessoa “folgada”. Ele tomava os espaços mesmo, ora cantando suas modas de viola, ora nos pegando com seus “causos” e adivinhas, ora nos pondo no colo pra roçar-nos o bigode, e ora, simplesmente, por causa de sua estampa cativante: cabelos totalmente brancos, invariavelmente escondidos sob o chapéu, sorriso generoso, um coração desinquieto e um jeito muito próprio de se apresentar: “sou Augusto Augustinho de Melo”. Ele tinha orgulho do seu nome e era incapaz de desmembrá-lo. Cada parte tinha de ser nomeada, sob o risco de ele não se dar a conhecer. A exemplo de seu gesto, é que resolvi também nomear todos os meus nomes, frisando bem o parentesco que tanto me alegra.
Por ocasião da missa de 7º dia de seu falecimento, aos 97 anos, li um texto que escrevi, pra dizer que ele estava ali, naquele momento, como agora sei que está aqui, do meu lado. E é este o texto que agora transcrevo, com carinho e saudade.

[A viola, num canto da sala, está silente, faz tempo. Mas se a ela fosse concedido, soaria os acordes chorosos de uma, duas ou tantas modinhas e toadas guardadas em seu bojo! A gente guarda também, no coração, uma saudade crescente...
Vejam só. Parece agora que ele está aqui. É ele sim! Chega piedoso, tira o chapéu, toca o chão com o joelho direito e faz o sinal-da-cruz. Com a viola rente ao peito, apura o ouvido e afina as cordas. Raspa a garganta e declara, depois de um breve e sonoro acorde: “eu vô cantá uma moda de viola!” Inspira fundo e traz a voz de lá de dentro, junto com as saudades que ele guardava. Mete os dedos nas cordas com vontade. São batidas retumbantes, como o pulsar do coração! Canta e conta a história do negro “Rio Preto”, que assombrava a Bahia, Caxangá e Pajeú. Desfia os lamentos do sertanejo que, após perder tudo, sofria numa cama com a “febre tremedêra”. E assim vai...Depois da cantoria, raspa de novo a garganta, que a voz já está estremecida, e sentencia: “chegô a hora de Augusto Augustinho de Melo ir cantá noutras bandas!” Então se apruma, acena com o chapéu, despedindo-se, depois o acomoda sobre os belos cabelos brancos. Mas, antes de sair, dá alguns passos à frente, olhando como se procurasse alguém. Reconhece, entre todos os rostos, aquele mais amado, de quem já o esperava há muito tempo e que, ao vê-lo aproximar-se, abre-lhe um sorriso sem igual. Ele oferece o braço à sorridente senhora, olhando para ela com os olhos molhados de ternura! Aí então se anima e convida: “vamo cantá, Gervelina, a moda do Canto do Pavão?” Ela sorri novamente, afirmando com um sinal de cabeça. Então ele tira o canto e ela acompanha. Ele eleva a voz, engatando a segunda, e vão saindo.
Adeus, vovô! Vá em paz por esta estrada, juntinho de vovó, sabendo que o amamos muito e temos orgulho de ser seus filhos, netos e bisnetos. Diante de Deus, não se acanhe. Diga do mesmo jeito firme de sempre: “sou Augusto Augustinho de Melo”.]