Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Fevereiro 2008, 02

02.02.08

Terezinha Pereira/ RAZÃO DE SANGUE

Razão de sangue / Terezinha Pereira


_ A senhora queria matar a criança. Defenestrou-a.
_ Não, senhor juiz, não fiz isso. Só atirei a criança pela janela.
_ Deixou a criança crescer na sua barriga para então jogá-la pela janela.
_ Eu não queria a criança
_ E daí, resolveu matá-la.
_ Não queria matar. Mas não queria a criança
_ Como praticou o aborto?
_ Não fiz isso. Tomei chá de buchinha-paulista. A criança saiu.
_ Abortou a criança e jogou-a no ribeirão.
_ Não. Joguei-a pela janela logo que a aparei. A criança caiu no ribeirão.
_ E o pai? Também não queria a filha?
_ Não tinha pai. Nem avó, nem tios. Ninguém viu a barriga nem ninguém sabia da criança.
_ Mas, a criança saiu de sua barriga.
_Saiu. Porém, não a queria. Depois, foi o sangue. O sangue que desceu pelas minhas pernas me revelou.
................................
_ A ré fulana de tal, indiciada nos autos do processo X, está condenada a tantos anos de prisão. Regime fechado.

Hila Flávia/ TENZIN GYATSO

TENZIN GYATSO
Hila Flávia

Tenzin Gyatso é o décimo quarto Dalai Lama do Tibet. Suas declarações, que lemos com imenso gosto no livro Uma ética para o novo milênio, da Editora Sextante são, no mínimo, intrigantes. Ele mesmo afirma que elas podem parecer estranhas, já que vindas de um personagem religioso. Na verdade, o que gostaria mesmo é de transcrevê-lo para quem não tem paciência de ler o livro todo, capítulo por capitulo, frase por frase, letra por letra. Em partes. Com vagar. Saboreando tal alimento raro, deixando que as palavras e os conceitos passem pelos olhos e caiam na alma calmamente. Assim a digestão será melhor e mais proveitosa.
Sua Santidade afirma que, a rigor, não importa se uma pessoa tem ou não uma crença religiosa. Muito mais importante é que seja uma boa pessoa. Ele analisa uma população universal diversificada, tão diversificada que uma religião única não pode satisfazer toda a humanidade. Ninguém tem meios de distinguir entre certo e errado se não levar em conta os sentimentos e os sofrimentos dos outros. Ele analisa que, nas histórias de todas as religiões, os maiores responsáveis por conflitos infligiram vio-lência, brutalidade e destruição a seus semelhantes, embora houvesse muitos que professavam uma fé religiosa, muitas vezes em alto e bom som. Eu acrescento que agiam até em nome de sua crença para cometer tais barbaridades. Crença religiosa, para o Dalai Lama, não é garantia de integridade moral. Pessoalmente, fico absolutamente encantada com o seu pensamento, por causa da simplicidade de seu falar e da proximidade com o falar de Cristo, meu Guia e meu Mentor. Chego à conclusão de que o BEM tem uma só linguagem: a da ética e do amor.
Outro aspecto que me chamou atenção no livro foi o termo karma. A toda hora se escuta que fulano ou sicrano está cumprindo seu karma, como se tudo fosse predestinado. Destino. Maktub. Mas existe uma reflexão sobre esse vocábulo, que entrou definitivamente no cotidiano das pessoas. Dalai Lama escreve que a palavra karma é de origem sânscrita e significa ação, força ativa. Isso quer dizer que o re-sultado dos acontecimentos futuros pode ser modificado por nossas ações. Não é uma energia independente que marca com ferro em brasa nosso destino. Uma vez argumentei com uma pessoa de frágil vontade que ela estava impondo, com seu comportamento, um grande sofrimento aos seus familiares. E ela me respondeu que era o karma deles passar por aquilo. Respondi, ainda sem os argumentos que tenho hoje, que se fosse para ser karma, seria só o dele, que impor aos demais os efeitos de seu comportamento danoso era demais. Não o convenci nem ele me convenceu. Hoje, teria como desarmá-lo de sua enorme covardia.
A pergunta é: quem cria o karma? Dalai Lama responde: nossas ações. Nós mesmos. O que fazemos, pensamos, dizemos, desejamos, omitimos, cria o karma. Em tudo que fazemos existe causa e efeito, sempre existe causa e efeito. Jogar em cima do fatalismo o que nos acontece é destruir qualquer forma de esperança e de livre arbítrio. É cômodo e covarde. Existem coisas inevitáveis, como a morte, a velhice, as doenças que advêm da longevidade. Mas existem reações que pioram o inevitável. Choramingar sobre o acontecido é uma delas. Fingir que não existem e fugir, é outra. Enfrentar com dignidade, vivendo o que não for possível evitar, aceitando a dor e crescendo como ser humano, é não acrescentar ao sofrimento físico a dor do sofrimento da revolta.
São posturas diante da vida, da morte, do sofrimento, da alegria e da esperança.
Li outro dia uma mensagem na internete que me fez muito bem. Um homem muito poderoso visitou um sábio e notou que este vivia com muita simplicidade. No quarto, apenas uma cama, uma mesa, uma cadeira, muitos livros, poucos pertences. Perguntou o visitante: onde estão seus móveis e seus bens? O sábio retrucou com outra pergunta: e os seus? O visitante se explicou dizendo que estava ali só de passagem. E o sábio respondeu: eu também.
De passagem estamos todos nós, queiram ou não os que se sentem eternos no planeta. Que a caminhada seja no rumo da harmonia e da serenidade, é meta que faço questão de ter em mente.