Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

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Terra Blog

Arquivo de: Janeiro 2008

29.01.08

Terezinha Pereira / Nem sempre, as sombras são

Nem sempre, as sombras são...


A procissão ameaçava sair. O Cristo morto já era acomodado no esquife. Meio a multidão coberta de luto, o ruído seco das matracas se espalhava. Cada devoto levava sua vela já acesa. De cera ou de espermacete? Tal rebuliço me tornava abrandado, como também o percorrer do séquito pelas ladeiras da cidade, iluminado pelo bruxulear de velas, lanternas, tochas. De onde eu via o movimento ficava a pensar no quanto era-me aprazível ver aquele povo todo unido na praça. Nisso, as luzes dos postes se apagaram e um vento veio assim de brusco. A princípio, assoprou de manso. Então, vieram redemoinhos levantando cisco do chão, ninguém sabia onde se abrigar. Voaram chapéus de palha, chapéus de feltro, véus pretos das senhoras, véus brancos das donzelas. Se era meados de abril... Sei não. Do parapeito da escada da Escola de Minas, tinha visão da praça por inteiro. Xi! Um sopro vigoroso fez extinguir quase todas as chamas. Restou uma aqui, outra lá. Nem podia mais avistar o cortejo do senhor morto. Verônica , essa só podia ter-se exalado, sudário e canto.
Restou-me contemplar a praça vazia. Tiradentes, lá do alto de seu posto de guardião, tinha ares de que nem se apercebera daquela agitação incomum do vento, que fazia por dispersar a multidão de fiéis ali disposta a acompanhar, vez outra, o féretro do Cristo que havia sido morto na cruz, para pagar os pecados do homem. Ouvi quando o padre falou em voz muito alta, poucos escutaram sua fala, que o microfone estava mudo. Vão todos para casa. Em ordem. E lembrem-se de rezar e pedir perdão pelos pecados. São os pecados dos homens que fazem com que Deus desperte tamanha fúria na natureza num momento desses. Trovoadas e rabiscos de raios no céu chegaram no repente e apanharam o povaréu a debandar. Eu podia jurar que, há um minuto atrás, digo, há dez minutos atrás, bem, não sei mais há quanto tempo, o céu estava assim, pintadinho de estrelas, a lua cheia brilhava no céu. Praça deserta, notei que alguns fiéis, ainda de velas acesas, desciam rumo ao Pilar. Saí de onde estava e fui até a esquina. Contei sete velas acesas. Corpos vestidos de negro, cabeças cobertas por véus negros. Silhuetas esguias, de estatura alta e compleição forte. Iam, os sete, ladeira abaixo. Chovia forte. O vento não abrandara o suficiente para deixar pavio de vela acesa. No entanto, sete chamas tremulavam. Vendo aquilo, me veio um daqueles calafrios próprios de meninos quando ouvem casos de assombração, contados pelos mais velhos. Coisa pouca essa, que não me tirou a resolução de acompanhar o destino daquelas luzes. Nesse tempo, vi que os sete fizeram algumas rezas, algumas evoluções. As velas acesas, os rostos velados. Depois, montaram guarda ao redor da igreja. Um, postou-se próximo à porta da frente, três do lado que dá para o Chafariz e os outros, do outro lado. Estava que era um breu só. Só via as chamas. De ruído, um matraquear de compasso lento. Encarei a cena de frente, dos lados e fui me amoitar detrás do Chafariz, de onde só via quatro deles, melhor, a luz de quatro velas. Meu corpo cansou de ficar ali, estacado e foi-se amontoando no chão. Nem ligava para a chuva. Sei que, quando dei por mim, o dia já começava a ser claro. Primeiro, fiquei pensando onde eu estava. Depois, olhei para a frente e atentei para a lateral da igreja. Gente, nenhuma. Pudera. No sábado santo, não há celebração de missa. Veio-me à idéia a ventania, a chuva. Apalpei a roupa do meu corpo. Roupa, chão, plantas, árvores. Tudo seco. O céu prometia um dia iluminado. Levantei-me para pegar um pouco da água do Chafariz para espertar o rosto. Então, notei umas chamas perto das portas daquele lado da igreja. Andei até lá. Sabe, daquelas lanternas usadas em procissão? Fui contando: uma, duas, três, mais uma na frente , bem de frente a porta principal e mais três do outro lado da igreja. Tochas, lanternas, velas, seja o que for. Fincados no chão e acesos. Lembra daquele calafrio de que falei, calafrio que menino sente quando ouve casos mal-assombrados? Além de calafrio, senti os cabelos do corpo se eriçando, suor descendo espinha abaixo, tremedeira. Era dia claro. Mas, eu desandei numa carreira, acho que, de tão grandes as passadas, nunca gastei tão poucos passos para chegar lá na Barra.
Já contaram, ouvi por aí, que alguma vez, em alguma sexta-feira da Paixão, haviam achado umas tochas, assim, assim, diferentes das de uso na cidade, rodeando a igreja do Pilar. Tem gente que diz que pareciam daquelas, de canzuá. Tem gente que conta que ali haviam visto lanternas que mais pereciam coisas que não eram desse mundo. Via das dúvidas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, beijinho na mão, cruz no pescoço, só ando por aquela região do Pilar, dia claro, de preferência, acompanhado. Que a Senhora do Pilar me dê o perdão, que da pinga, pago promessa, nunca mais eu bebo aquele gole que é de oferecer ao santo.

26.01.08

Hila Flávia - MATUTA, MATUTA




MATUTA, MATUTA.
Hila Flávia


Durante um tempo de minha vida fiquei meio inconformada com o jeito que vivia. Fui criada pisando na terra, em casa grande, cheia de gente. Era comum acordar e minha mãe comunicar: você ganhou mais um irmãozinho, ou irmãzinha. A gente nem percebia gravidez da mãe. O novo filho nascia de noite, pelas mãos da parteira, em casa, tão em paz que ninguém acordava. Hoje, com a confusão que se faz para ter um filho, fico até pensando se estou imaginando. Mas era assim mesmo que acontecia. Na adolescência, fiquei alguns anos estudando em colégio interno. Era uma choradeira e uma reclamação geral, mas eu me acostumei. Gostava de estudar, rezava muito, habituei-me à solidão e passei a conviver harmonicamente com ela. De uma casa cheia passei para um enorme espaço silencioso. Aproveitei para ler muito, alfabetizava adultos, cantava no coral, jogava vôlei, tudo me interessava. Foi um tempo proveitoso. Depois, voltando para minha terra, fui lecionar na roça, depois na cidade e me mudei para Belo Horizonte, quando do meu casamento.
A grande mudança foi esta. Passei a viver num mundo concretado, em apartamento, sem a beira e o beiral de uma casa, rua barulhenta, sem o som do trem-de-ferro e do canto do galo de madrugada, amigos novos, cosmopolitas. Eu pensava: que faço eu nesse mundo particular e cheio de neuroses se sou feita das gerais e das minas? Por que eu me alimento de comidas diferentes se gosto é de carne de porco torradinha e café moído na hora? Achava-me um ser humano em estado bruto transportado para uma vida de estufa.
Mas o tempo passou e, aos poucos, fui retomando meu jeito bom de viver. Moro em apartamento, mas tenho uma área com uma coberta. Na parede da coberta minha irmã pintou o Lago de Furnas e encheu de árvores. Até um enorme e escandaloso ipê amarelo fica florido o ano inteiro. A natureza tem seus milagres. Tenho bancos de praça, quatro cachorros lindos e ótimos, pois como são de cimento não me dão nenhum trabalho. Têm nome e estão amarrados numa correntinha, pelo sim pelo não. Chamam-se Tobi, Moreno, Lili e Jota. Uma mesa grande com oito bancos completa o espaço. Estou em casa. Numa casa que é apartamento também, pois faz parte de um edifício.
Outra volta é a casa de Furnas, meu recanto e meu encanto. Minha completa volta às minhas origens, pois lá os pássaros estão por todo lado, o vento canta, o sol esturrica, os jardins são cheirosos de rosas, alecrins, cebolinhas, salsas e manjericões, tudo misturado. Tem um coqueiro que dá coco, como cantava o Ari Barroso. E castanheiras, que são ninhos de morcegos. O Lago é um espetáculo. Recebe o sol de manhã e faz festa para a lua. E se colore todo faceiro, fazendo fita e se fazendo precioso. Lá também tem uma cadela irmã do Tobi, que se chama Lua. Boazinha do mesmo jeito. Não dá trabalho algum.
È isto, tanto matutei, matuta que sou, que acabei direcionando minha vida para o lado que vim. Acredito piamente que quando a gente fica determinada a conseguir realizar um objetivo, o universo conspira a favor. Tudo vai se encaminhando, se ajeitando, se arrumando.
Hoje matuto deitada numa rede, vendo o dia ir dormir e recebendo os primeiros raios de luar.
Louvado seja Deus, Senhor de meus dias e minhas noites. Louvado seja o Senhor da Vida.

(Hila Flávia Marinho Teodoro nasceu em Pará de Minas/MG. Mora em Belo Horizonte/MG. Ocupa a Cadeira no. 9 da "Academia de Letras de Pará de Minas". Tem como patrona: Cora Coralina.)

20.01.08

Terezinha Pereira/ Quem pode com os mistérios da m

Quem pode com os mistérios da meia-noite?

Terezinha Pereira

_ Me conta mais um causo? Hoje quero um de lobisomem.
_ Lobisomem? Metade lobo, metade homem. O que você sabe de lobisomem?
_ Que pra ver lobisomem precisa do clarão da lua cheia. Que noites de sexta-feira da paixão costumam ser boas pra lobisomem, que essas sempre caem na lua cheia.
_ É mesmo, menina. Sabe que tem gente que já diz que já viu algum? Jura pelo Senhor morto que vai no esquife da procissão. Lobisomem é assombração conhecida no mundo inteiro, antigo. Dizem que na época dos deuses gregos já cultuavam o homem lobo_ o Lobo-Zeus. E que na época medieval os feiticeiros se transformavam em lobos em seus rituais e as feiticeiras usavam pele de lobos em seus trabalhos de magia.
_ Mistérios.
_ O Zé Ramalho cantou esses mistérios da meia-noite, falou dos que voam longe e que a gente nunca sabe se vão ou se ficam, nem quem vai, nem quem foi. Além de meia-noite, de lua cheia, pra ver lobisomem é preciso de encruzilhada.
_ Encruzilhada?
_ Lugar onde se cruzam estradas, caminhos. Lugar onde as idéias embaralham nas nossas cabeças. São tantos.
_ Me diz: é um lobo ou é um homem que vira lobisomem?
_ Chiiii! Você está muito perguntadeira ........ Mais certo que é o homem.
_ Como é que acontece? Quem que pode se transformar num lobisomem?
_ Dizem que pode ser por legado. Algum lobisomem velho, que ninguém tentou desencantar, pressente que vai morrer e sente desejo de passar seu fado a alguém, pra não perder a raça. He...he... Por isso que menino-homem tem que tomar muito cuidado quando algum senhor, desconhecido ou não, lhe fizer uma pergunta de raspão “tu queres?”. Quem ouve uma pergunta assim, pode estar certo de que quem indaga é um homem-lobisomem à beira da morte, querendo lhe passar herança. He...he...he...Outros dizem que virar lobisomem é questão de destino. Por exemplo: ser filho de padre com moça rezadeira, de compadre com comadre, de padrinho com afilhada ou então, ser o sétimo filho de um casal e deitar num lugar onde um lobisomem havia pernoitado. Ah! Ser o oitavo filho, homem, depois de sete filhas mulheres, esse é um grande perigo também. São sinas de que um predestinado não escapa.
_ Credo. Nenhum menino nessas condições escapa?
_ Não escapa, se ninguém tentar quebrar a sua sina. Há algumas saídas. Pra isso, exige gente de coragem. He... he.... Em noites de sextas-feiras de lua cheia, o homem que vira lobisomem procura uma encruzilhada, de preferência com bastante poeira. He... he... não me pergunte por quê. Lá, tira suas roupas, deita-se no chão e vai rolando, rolando, rolando na poeira até acontecer a metamorfose. Depois de transformado, ele sente uma fome danada, que só passa se ele se alimentar com sangue.
_ E o que ele faz?
_ Cumpre seu destino, uai. Visita sete cemitérios ou sete vales ou sete morros ou sete encruzilhadas. E sai em busca de um filhote de animal pra beber o seu sangue. Quem mora perto de encruzilhada tem que ter cuidado com criancinhas de colo nas sextas de lua cheia. É um perigo, pois, não achando filhotes, o lobisomem pega até mesmo bebezinhos.
_ Mas, pra que precisa de gente de coragem pra desencantar um lobisomem?
_ Quando alguém suspeita que um amigo, parente ou mesmo um conhecido vira lobisomem, se quiser quebrar o encanto dele _ dizem que homem-lobisomem sofre muito, não tem sossego nas noites de lua cheia_ essa pessoa tem que esperar hora e dias certos, e segui-lo. Quando ele parar numa encruzilhada, fica de tocaia e aproveita quando ele estiver se espojando na poeira para lhe enfiar um espinho no corpo, bem fundo, pra sangrar muito. He... Assim, ele não vira lobisomem dessa vez e nunca mais. Porém, o corajoso precisa que tomar cuidado, pois se levar um respingo de sangue corre o risco de virar um.
_ E as roupas que o homem deixa espalhadas pelo chão?
_O homem se levanta, põe as roupas e esquece de tudo.
_ E o outro jeito?
_He... he... está achando a coisa interessante, hem? Se o desencantador tiver medo de chegar muito perto do quase lobisomem quando ele estiver rolando no chão, espera que ele saia pra fazer suas andanças, meio lobo meio homem, corpo coberto de pelos, orelhas esticadas, olhos de fogo e unhas enormes. Então, pega todas as roupas que ele tiver deixado no chão e queima tudo, com cuidado pra não deixar nenhum vestígio.
_Mas, e quando ele voltar pra pegar suas roupas?
_Não me pergunta. He... he... Nem imagino o que acontece quando ele desvira lobisomem e procura a roupa pra vestir antes de voltar pra casa. É uma outra história.
_Estou pensando. Pode ser uma pista. Algum homem que chega em casa num sábado pela manhã, pelado de tudo. Pode ser um homem-lobisomem........
_ He...he...he... menina, sei não.
_ E a outra forma de desencantar um lobisomem?
_ Essa tem a ver com a missa do galo.
_ A missa do galo? Ué, mas missa do galo tem só uma vez por ano!
_ Pois é. Quem preferir, se tiver medo de enfrentar o bicho, deve assistir a uma missa do galo na noite de Natal. Só vale missa rezada à meia-noite. No final da missa, a pessoa pega algum resto de uma vela de cera que tenha ficado acesa durante a celebração. Depois, com a cera da vela, ela unta uma bala de revólver e pum! Atira no lobisomem, ferindo-o de raspão. É garantido que depois disso o predestinado nunca mais virará lobisomem.
_Mas, tia, quem lhe contou essas coisas do lobisomem?
_ Foi o Zé da Tonha, aquele meu compadre lá dos Tavares. He... he... Lembra que eu voltei com ele da missa do galo no Natal passado? Ele me disse, assim como que quase que cochichando, que havia ido à missa mais pra pegar um toco de uma vela de cera do altar da igreja. Que ele tem um amigo que some de casa toda sexta de lua cheia, beirando a meia-noite e que, todo sábado seguinte, de manhã, alguém encontra na região alguma novilha, algum cachorro morto, com o sangue todo chupado.
_Ah! e quem pode desvendar os mistérios da meia-noite?






Fotopoema II

 

 

 

Fotopoema

A poesia pode ser escrita de várias formas
nenhuma é melhor que a outra.
A melhor forma de dizer um poema
é aquela que melhor expresse sentimentos.


Um poema não se diz apenas com palavras
com rimas, com rítmos
com ocultamento ou jogo de sonhos...
um poema se diz com sentimentos...


Ah! o sentimento é a alma do poema! 
O sentimento é o próprio poema.
Assim com a flor ofertada a pessoa amada
é o amor personificado, concreto.

Assim, o poema é, de certa forma,
uma fotografia sentimental do poeta.
Alguns utilizam de palavras maravilhosas,
outros, de palavras simples,
e outros não utilizam palavras,
mas imagens.

Como aquelas que recebemos
dias atrás, por e-mail:
João de Barro sobre um mourão de cerca...
Maria-fumaça numa paisagem de Minas Gerais...
ou ainda aquela outra de um beija-flor em um galho seco...


Estas imagens fotográficas nos emocionam...
revelam sentimentos até então perdidos na memória
nos dá um momento de prazer incalculável....
são fotopoemas 
que não precisam de palavras para serem
compreendidos,
precisam ser sentidos...

(Para o fotogógrafo Thales)