Flávia Flávia 
Nessas férias de julho acabei de ler para meus netos toda a saga de Cherazade, na coleção das Mil e Uma Noites. Tive que fazer uns cortes daqui e dali, pois as palavras precisavam de tradução para o tempo deles. Mas hoje Grão Vizir, Sultão, Sultana, Príncipes e Princesas, oásis, camelos, tapetes voadores, potes de azeite, vestimentas compridas e véus ficaram todos bem conhecidos dos meninos. Confesso que gostei demais de mergulhar, por muitos meses, no universo do imaginário da esperta moça que conquistou o sultão com suas histórias e com a forma de contá-las, hoje equivalente às novelas da televisão. Quando chegava à melhor parte, o sol nascia e ela só continuava na noite seguinte. Começamos a ler em férias passadas. Voltava para casa e depois continuava a leitura. Assim foram muitos meses de janeiro e julho. Eu também fazia meu suspense, pois gostava de vê-los curiosos com a próxima narrativa.
Mas vou confessar a vocês a maior dificuldade que encontrei: quando fui contar, já no último volume, a história do Ali Babá, falei:
- Essa história não vou ler, já sei de cor. E comecei narrando que Ali Babá era chefe de quarenta ladrões. Meu neto Vito foi logo contradizendo:
- Está errado, o Ali Babá não era chefe de ninguém. Ele era inocente. Está contando a história de jeito errado.
Então achei melhor voltar ao livro e começar a ler. E, de fato, Ali Babá não era chefe mesmo não. Ele era um pobre lenhador que, um dia, escutando o tropel de muitos cavalos, escondeu-se no alto de uma árvore e assistiu ao Abre-te, Sésamo, e ao Fecha-te, Sésamo, do bando de trinta e nove ladrões chefiados pelo de número quarenta. Mas depois de entrar na tal caverna, andou surrupiando uns tesouros e levando para sua casa. Vinha e levava. Vigiava e roubava dos ladrões. Ficou tão rico que o bando desconfiou e foi lá tirar satisfação, quando a escrava Morgana tratou de exterminar os descontentes.
Acabada a história, eu falei: Que inocente coisa nenhuma! Ali Babá era também ladrão e além do mais, um matador. Meu neto saiu em defesa do lenhador, dizendo que ele roubara porque o tesouro já tinha sido roubado. Falei que ladrão é todo aquele que toma para si o que não é seu. Não tem essa de ser coisa roubada ou não. E a conversa esquentou. Ele argumentando e eu contra-argumentando. Vejam que dificuldade tem uma avó para passar valores a um menino num país como o nosso, que tem um ditado dizendo: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Falei tanto que pensei que ele se havia convencido.
Continuei a contar as histórias e, no último dia de julho de 2008, chegamos ao final, quando o Sultão reconheceu que se havia apaixonado pela Cherazade e que viveria feliz com ela para sempre, suspendendo a lei apavorante que antes promulgara.
Ficamos todos alegres e rememoramos as histórias de que eles mais gostaram. Falamos das três irmãs, do Príncipe Ahmed, do Simbad, dos oásis, dos leões de três cabeças que guardavam a água, do espelho que mostrava a imagem da moça mais linda do mundo, do tapete mágico, da maçã que curava qualquer doença, da fada, do Sultão que passeava à noite pelo reino. A conversa quase que durou o tempo de um livro.
Então fizemos a oração da noite e apaguei a luz do quarto deles. Quando já ia saindo, o tal neto falou:
- Só tem uma coisa, vovó, continuo achando que o Ali Babá é inocente.
Quem me salva dessa?

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13:42:18
TIZÉ
Terezinha Pereira
_ Mãe, vou matar a senhora. Recebi um aviso de Deus. O mundo não demora pra acabar. O pai já está com o Pai do Céu há muito tempo, a senhora não diz? Agora mesmo, Deus, num clarão, me avisou que o pai quer a senhora junto dele. Fui o escolhido para lhe encaminhar ao Pai do Céu.. Então, logo depois que senhora for, vou para o paraíso também.
A mãe, que cuidava da lida da cozinha, olhou fundo nos olhos do filho de trinta anos, que desde menino cuidara da roça com o maior zelo e que, de supetão, acabava de entrar em casa. Há dez dias, ele estava desaparecido. Por esse tempo, padrasto e vizinhança toda andara léguas e léguas à caça de Tizé, moço que até então havia sido bom de fazer gosto. Desse jeito, sem mais nem menos, surge ele a brandir uma faca com a mão esquerda, a dizer que estava ali para matar a mãe. Na direita, retinha o chapéu de feltro herdado do pai, que não largava em momento algum.
Uma escuridão no céu e um vento forte anunciavam uma tempestade prestes a cair. A mãe havia acabado de juntar os gravetos que secavam no terreiro, que na manhã seguinte bem cedo, teria que atiçar o fogo do forno para assar os biscoitos. Era o seu labor diário, o que dava a toda a família o ganhame para o de comer, que seu segundo marido, pai de suas cinco filhas, punha no jogo tudo o que produzia no mês.
Nesses dias todos, passara ela angustiada, agoniada, aflita, atormentada. Era o único filho homem que morava em casa, que o outro fora buscar a vida na capital. E sumir de casa? Assim... Sem noticiar. Nada dissera a ela, nem ao padrasto, nem às irmãs e nem mesmo aos companheiros de cuidar da roça. E vai que nessa hora, ele chega num repente, falando aquela absurdeza.
Como mãe costuma ser advinha.... A mãe de Tizé passara aqueles dias pensando. O Tizé não estava lá no seu estado normal. Andava falando coisas sem sentido. Acendendo um cigarro de palha no toco do outro. Às vezes, ele chegava até a boca do forno de assar quitanda e acendia dois cigarros de uma só vez. Outras, fazia um cigarro com uma palha de milho inteira e fumava aquele canudo comprido, até queimar os dedos. As crises de riso. Ela percebera. Ficava ele olhando para o céu e rindo. Do nada. Ria sem parar.
Não se sabe se foi devido ao temporal que ameaçava desabar... Entretanto, a mãe sempre dissera que fora a mando de Deus, pois ela passara todos aqueles dias a conversar com seu Pai do Céu. Nesse quase anoitecer, no instante mesmo que Tizé lhe dava aviso de morte, na rua de chão batido de frente da casa, passava uma boiada. Cabeças pra mais de cem. Na mesma horinha, um raio clareou a casa por inteiro. O estrondo de trovão que logo chegou, sacolejou as louças da cristaleira da sala. A boiada debandou-se. Disseram que bois, vacas e bezerros pegaram uma carreira desembestada. Muitos saíram da trilha e foram entrando casas a dentro, que nesse tempo ainda não era preciso de muralhas nem portões para cercar as casas.
Questão de segundos, de minuto durou a cena da entrada do filho com a faca na mão, a dizer que cumpria o destino de tirar a vida da mãe; o súbito clarão de um raio; o retumbar anormal de um trovão, o estouro da boiada. E... o entrar de um bezerro amarronzado na cozinha da casa, olhos de fogo, a encarar Tizé. A mãe, desolada, benzeu-se. Fez o nome do pai, o sinal da cruz. O filho, frente a frente com o bezerro deixou cair a faca e desapareceu.
Algumas pessoas viram Tizé sair da casa na disparada e sumir no pasto perto do ribeirão. Aqueles que estiveram à sua procura, uns homens da vizinhança, alguns até treinados a agarrar garrote dos bravos a unha, não conseguiram agarrá-lo quando ele saía de casa.
A mãe sobrevivera. No seu dia-a-dia, até o dia de seu encontro com o Pai do Céu, quando já passava dos oitenta, ela fazia suas orações a Deus para dizer-Lhe de sua gratidão por haver preservado sua vida naquele dia de único trovão e estouro de boiada. Também era-Lhe grata pela vida de Tizé, que não morrera de fome, nem de frio, naqueles dias de chuva constante que caíra a partir daquela cena de horror. Imaginava o que ele passara, até ser encontrado, um caco de gente, numa loca de um sítio de mata espessa....... Apesar das tantas visitas que passara a fazer ao filho em hospitais psiquiátricos. Porém......... Isso é uma outra história.

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01:40:32Toda hora e vez é vez e hora de Rosa
Terezinha Pereira
Dores veementes me apoquentavam. Conforme me disseram, três meses, até então, já durava minha lamúria. No leito de ferro de um hospital, colchão retesado, encapado com matéria plástica, jazia eu. Ressentia a perna perdida.. Ainda não sei como fora a minha perna. Esquerda. Creio que Ítalo, companheiro de noites do ontem, de quando não me lembro, passa as noites a meu lado. Conforta-me. Relata de espectros inventados por agentes maiores, os de poder mágico, em suas escrituras. Os que se valem de palavras catadas com precisão. Tecidas para durar infinito. Se Ítalo seria também só um texto........ Não saberia ao certo. Estava a me contar outro caso. Outro fantasma? Surgira.
[ _ Um homem “cumpridor, ordeiro e positivo” _ começou ele. Um homem “quieto”. Consentia que a mulher dirigisse a casa e seus miúdos, meninos e meninas, de jeito que ela pensasse que fosse a regente do barco. Não depreendera ela, em tempo algum, que a embarcação em que conduzia a família, um dia vazasse água. E foi o que houve, quando o marido sossegado mandou que lhe fizessem uma canoa forte, de toras bem escolhidas........ uma canoa onde coubesse apenas o remador. Quando essa ficou preparada para ser lançada na’água, o marido anunciou sua ida.
Ouvindo o “cê vai, ocê fique, você nunca volte!” da mulher, ele fincou o pé na estrada. Quer dizer, pôs a canoa no rio que ficava a meia légua da casa. E na terceira beira do rio, o homem passou a morar. Terceira, uma outra? Margem esquerda, margem direita. Beira de cima, de baixo, no fundo? À beira de, ao lado de. Margem de cá, margem de lá. Bem. O homem quieto escolhera viver dentro de uma canoa forte, de pau seleto. Para durar infinito.
Persistiu. Quem contou foi o filho que sobrara. Ao contar, cabelos brancos já começavam a apontar-lhe na cabeça, no corpo. Desde miúdo, quando o pai havia mandado fazer a canoa e dentro dela havia ido morar em outra margem do rio, ele ia até à beira _ de seu lado do rio _ e levava agrados ao pai. Comida, roupa, tudo o que ele pegava em casa, na calada. Se era o pai que levava... Não soubera nunca. Nada vira.
Uma irmã, crescida, arranjou um marido, teve um filho. Chegado um tempo, ela quis levar o filho para que o pai o conhecesse. Uma beleza a cena: a irmã, vestida de branco, na margem de cá, levantando o menino bem lá no alto, para que o avô o conhecesse e o abençoasse. Nessa quadra, o pai já devia ser que nem bicho, cabelos, barba e unhas crescidas. Um bicho. A criancinha não iria gostar de ver o tutu. Mas, que a irmã sentiu, sentiu. A família ressentiu-se. Neto é um ente tão doce. E o pai........do neto nem queria saber.
Depois do tanto chorar, mãe e filhos debandaram para uma outra margem de rio. Da família, ficara o dos cabelos começando a embranquecer. Se queria tomar o lugar do pai, se queria também virar um fantasma, de carne e osso, que as gentes imaginam ver, vez ou outra, a remar uma canoa no rio, de cá pra lá, de um ponto a outro, seguindo o divagar depressa de suas águas, isso teria ele do seu querer para escolher. Decidir ser um espectro sem ser. ]
Sem entender como chegara àquela cama de hospital, da mesma forma não compreendia, se seria Igor algum espectro outro. Ou se o homem da canoa........
* * * * *
“Espectro # 4”, extraído do conto "Se uma pianista numa noite branca..." publicado em “Cadernos Literários 1 - Terezinha Pereira”, da ALPM - Academia de Letras de Pará de Minas, 2004.
Esse trecho faz referência ao conto mais-que-perfeito, A TERCEIRA MARGEM DO RIO, de João Guimarães Rosa, escritor mineiro com poder mágico para narrar histórias, nascido em Cordisburgo (cidade do coração) antes Vista Alegre, em 27 de junho de 1908. Aos 19 de novembro de 1967, três dias após tomar posse na ABL -Academia Brasileira de Letras, o coração de João bateu pela última vez. Como a ele é atribuído o dito “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, não vou dizer que ele, prematuro, faleceu naquela data. Rosa tornou-se encantado. Deixou seu nome registrado, para sempre, na cumeeira da história da literatura brasileira.
E toda hora e vez é vez e hora de Rosa. 

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20:07:44
O Coração desnivela a mão
Palavras vem e vão
Sentimentos são
Espalhados por grifos
Desalinhados
Em busca da perfeição.
Fonteboa (12/05/1997)
(Está é um pouco antiga, mas ainda gosto!)

criado por academiadeletras
18:07:11
No chão de terra o pó se levanta
Perpassa os dedos de meus pés nus
Deixam marcas turvas na terra natal
A poeira, pouco a pouco, ganha o ar
Quando do atrito silencioso e seco.
O calor do chão queima a sola de meus pés
Enquanto este acaricia a terra solta
Do calcanhar à ponto dos dedos
Minh’alma acarecia a saudade
Saudade só.
Fonteboa
(Estou de volta!)

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18:04:57