Academia de Letras de Pará de Minas

Fundada em 20 de Setembro de 1997 com o objetivo de ser uma referência de valor para as novas gerações, contribuindo com a Arte, com a Cultura e com a Educação da Sociedade de Pará de Minas.

26.2.12

Essas Mulheres

                                                                                Geraldo Fonte Boa

 

No dia 11 de
fevereiro fui ver uma peça de teatro na vizinh
a cidade de Pará de Minas. A peça
foi elaborada e encenada pela Cia de Teatro “Maracutaia”. O  “Maracutaia” atua em Pará de Minas desde o
ano 1993 e tem uma história maravilhosa de sucesso. Isso não significa que não passou
por dificuldades; certamente foram muitas e imagináveis, visto se tratar de um
grupo de teatro do interior e constituído por pessoas que não vivem
exclusivamente do teatro ou para o teatro. Mas amam a arte de interpretar, de
representar.  

Antes de
falar sobre a peça “Essas mulheres”, que teve estreia neste dia 11, vale uma
comentário especial sobre o que encontrei no teatro do Colégio Fernando
Otávio”. Um público maravilhoso, calculei umas 500 pessoas. Superior à LOTAÇÃO
MÁXIMA do teatro, visto que improvisaram algumas cadeiras. Esta situação em si
já representa um sucesso, visto que levar público ao teatro não é uma tarefa
fácil. Ao mesmo tempo serviu de alerta para as autoridades políticas desta
cidade que é cantada como “orgulho do meu coração” pela urgência de um palco
digno para os grupos da cidade. Teatro este que vem se arrastando há anos e
nunca é entregue a comunidade. Mas fiquei realmente surpreso com a resposta do
público à proposta do grupo “Maracutaia”. Isso porque quando vou ao teatro aqui
em Itaúna, vejo um público bem restrito e quase sempre constituído pelas mesmas
pessoas. Outro detalhe importante foi a interação do público com a peça.
Parabéns ao público presente no teatro do Colégio Fernando Otávio”!

Agora vamos
ao espetáculo. O pano de fundo é a realidade do norte de Minas Gerais, mais
especificamente a realidade do Vale do Jequitinhonha. A história é sobre as
chamadas “viúvas de marido vivo”, isto é, das mulheres que tem que assumir o
comando da casa enquanto seus maridos foram para outras regiões em busca de
oportunidade de trabalho. Assim “essas mulheres”, além de administrar a casa, cuidam
do sustento dos filhos, enfrentam as auguras da seca, da saudade e das
“fofocas”. Desta forma “essas mulheres”, encenada pelo Maracutaia, mistura o
drama e o humor na dose certa, sem contudo, perder a poesia, a fé, a esperança
e a beleza sobre a realidade representada e vividas pelas mulheres do Vale do
Jequitinhonha.

Além de
mostrar aspectos desta realidade específica, “essas mulheres” ainda nos convida
para a necessidade do debate crítico de problemas que não são apenas da região
norte do Estado de Minas, mas de todo país. Problemas como: a prostituição e a
desvalorização da mulher; a exploração sexual de crianças; a vagabundagem de
políticos; a ação de pessoas que tiram aproveito da situação de miséria e
pobreza da população; a falta de perspectiva de trabalhadores(as), etc.  Mas, por outro lado, revela a importância  de mulheres que se unem diante de uma
realidade difícil, que embora envolvida na atividade do dia a dia, não deixar
de posicionar-se criticamente diante de sua realidade.

Finalmente,
vale destacar a simplicidade e a criatividade utilizada no cenário. O
artesanato de barro de artesã de Pará de Minas, da Escola de Artes Cica, foi
presença significativa. A cantoria das lavadeiras de roupas (“essas mulheres”)
guerreiras, que muito mais que lavar a roupa, lavam nossas almas com seus
cantos ao som da viola – a trilha sonora foi um show a parte - tendo a
religiosidade permeando e tecendo a vida dessas mulheres.

Desta
forma fica a todos os itaunenses o convite para se emocionar e divertir-se,
caso um dia este ESPETÁCULO esteja nos palcos de nossa cidade. Não perca a
oportunidade. É um espetáculo que vale a pena ser experimentado em nossas almas!

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25.2.12

As flores de folhas secas

                                                                           Geraldo Fonte Boa

 

A desesperança intala-se

sobre as pétalas de flores de folhas secas

Do fim eminente que se aproxima

tornas os espinhos agudos,

escuros, tenebrosos

 

 

Pouco a pouco perde o perfume,

a seiva não se renova

ficará apenas lembranças

de um tempo vivido

de um história contada

de uma jura de amor

eterno

 

 

Flores de folhas secas

em juras de amor eterno

que com o tempo se esvai

desesperança…

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12.6.11

O mistério da caixa-preta/ FLÁVIO MARCUS DA SILVA

Fui conduzido por um jovem militar fardado até uma sala onde duas cadeiras e uma mesa constituíam todo o mobiliário, e fui apresentado a um outro militar, mais velho, talvez com pouco mais de quarenta anos [embora seu olhar cansado e seus cabelos grisalhos lhe dessem um ar de sexagenário viúvo e deprimido].

Quando entrei na sala, o militar de meia idade se encontrava sentado numa das cadeiras, com as mãos em cima da mesa, folheando alguns papéis, e, ao me ver, fez um gesto quase imperceptível com a cabeça, indicando-me a outra cadeira.

O militar mais jovem fez uma continência e foi embora, fechando a porta atrás de si.

Senti que algo muito sério e misterioso pairava no ar, pois ao me sentar, o militar me fez ler e assinar um termo de sigilo e confidencialidade, deixando claro para mim que o vazamento de informações sobre aquele caso complicaria muito a minha vida. Não questionei nada, pois naquele momento a curiosidade já tomava conta do meu espírito, fustigando-o, empurrando-o na direção do medo, como sempre acontecia quando eu me encontrava prestes a aceitar uma nova missão.

Sou conhecido no mundo inteiro por lidar com situações sobrenaturais, cientificamente inexplicáveis, que me levaram a escrever mais de vinte livros e centenas de artigos, nos quais eu relato e analiso casos de arrepiar os cabelos, ocorridos em quase todos os continentes. Porém, nos meus trinta anos de carreira, lidando com fenômenos paranormais de vários tipos, aquele foi o primeiro termo de sigilo que eu fui obrigado a assinar, o que me surpreendeu, apesar de toda a minha experiência no ramo, fazendo meu coração disparar de ansiedade.

O caso era completamente novo para mim:

Um avião bimotor com dez passageiros e três tripulantes a bordo perdeu contato com os controladores de vôo e desapareceu do radar às 23:53, no dia sete de junho. Até um minuto antes, o contato com a torre de controle era normal, sem nenhum sinal de alarme ou de tensão entre os pilotos; mas, de repente, tudo se apagou. Era uma noite escura, com céu nublado, mas sem risco de tempestade; nada indicava uma pane nos instrumentos, e o contato com outros aviões naquela região se mantinha normalmente, sem problemas.

Até aí tudo indicava um acidente de grandes proporções, com alguns detalhes misteriosos, mas que certamente seriam explicados quando a caixa-preta fosse encontrada em meio aos destroços.

Só que não havia destroços. O avião foi encontrado, mas intacto, como se tivesse realizado um pouso suave na pista de um aeroporto qualquer. Todos os equipamentos funcionavam perfeitamente, sem nenhum problema.

O que, no entanto, deixou os militares perplexos foi o fato da aeronave ter sido encontrada no alto de uma montanha, em uma área de topografia acidentada, cercada por enormes rochas pontiagudas e árvores, não havendo a menor possibilidade de ter ocorrido ali um pouso normal de avião.

“Eu estava lá e vi tudo com meus próprios olhos”, disse o homem à minha frente, tentando disfarçar o espanto e o medo que penetravam as névoas de seu olhar frio e perturbador. [Ele fazia parte da equipe de busca que encontrou o avião, no dia seguinte ao desaparecimento]. “Eu estava lá, tirei fotos, mas até agora não consigo acreditar…”.

A curiosidade me sufocava; meu corpo todo tremia; mas ao mesmo tempo eu sentia pena daquele homem que me encarava, já desarmado, com as lágrimas brotando de seus olhos desprotegidos, incapazes de disfarçar a emoção que aquela narrativa lhe provocava.

“Veja as fotos”, disse ele, estendendo para mim uma pasta de cor parda, que ele tirou de uma pequena gaveta na mesa. [Talvez ele a mantivesse escondida para não aguçar ainda mais a minha curiosidade, caso ele decidisse não mostrá-la].

A primeira foto era do avião visto à distância, cercado de rochas e árvores, em meio às montanhas. As árvores ao seu redor [por todos os lados] estavam intactas, com seus galhos frondosos, cheios de folhas: só isso já provava a impossibilidade de um pouso naquela área. Mas tudo, TUDO naquela foto gritava: IMPOSSÍVEL: as pedras, os morros… Nenhuma marca no chão, nenhum destroço; o trem de pouso baixado, limpo, impecável, como se tivesse sido acionado para uma aterrissagem normal.

Outras fotos mostravam detalhes do avião: nada, absolutamente NADA que indicasse um pouso forçado – na verdade, nada que indicasse um pouso.

Como teria aquele avião chegado ali? Essa era a primeira pergunta sem resposta, o primeiro enigma daquele caso intrigante e assustador.

Mas o pior ainda estava por vir: o fato mais espantoso e inexplicável de todos, algo que eu nunca tinha visto em toda a minha vida:

As fotos seguintes mostravam o interior do avião. Na primeira, em um plano afastado, todos os passageiros apareciam sentados em suas poltronas, como se prosseguissem viagem. Mas um detalhe importante saltava aos olhos do observador atento: mesmo à distância, era possível perceber em seus rostos – em todos eles –, um sorriso enigmático.

“Estão todos mortos”, disse o militar, mergulhando o rosto na mesa, entre os braços cruzados, que tremiam a cada soluço. Consegui ouvi-lo dizer, balbuciante: “Os laudos das autópsias não revelam nada, absolutamente nada… Nenhuma causa…”.

Olhei as outras fotos: cada rosto individualmente, em close: cada sorriso, cada olhar… Todos mortos? Não dava para acreditar… Mas, no entanto, era verdade. Dava para ver que os sorrisos e os olhares, que me pareciam ser de prazer, de encantamento, de entrega a um destino almejado por todos, desenhavam-se em corpos já sem vida, tomados por aquilo que a interrupção definitiva da existência terrena lhes imprime: rigidez, palidez… Mas os sorrisos eram vivos: eles transmitiam uma mensagem que, para mim, naquele momento de emoção intensa, ainda era confusa, misteriosa, mas que me levava a pensar em tudo, menos na morte. Nada ali transmitia medo, agonia, dor, aflição, sofrimento, mas justamente o contrário: naqueles sorrisos eu via alegria, esperança, satisfação, regozijo, prazer.

O que era aquilo, meu Deus?

O homem levantou o rosto, olhou para mim como se o mundo desabasse ao seu redor e isso lhe fosse indiferente, apontou para uma foto e disse: “Minha esposa”; e para uma outra, com os dedos trêmulos: “Meu filho…”.

Um silêncio profundo tomou conta da sala naquele momento. Nossos olhares se pregaram um no outro: o dele implorando uma explicação que o salvasse de si mesmo, resgatando-o do abismo da dor, do sofrimento; e o meu dizendo que sim, que eu faria tudo para solucionar aquele mistério, por sua família desaparecida, por ele, por mim…

Terminada essa troca significativa de silêncios, ele se levantou da cadeira e abriu a porta da sala, chamando uma mulher que se encontrava parada no corredor: “Major, por favor, traga a caixa-preta”.

A caixa-preta…

O que teria registrado a caixa-preta daquele vôo para a morte?

“Você se acha suficientemente espantado e perplexo?”, perguntou-me ele, enquanto se acomodava de novo na cadeira.

Não respondi.

A porta se abriu e uma pasta escura e volumosa foi posta sobre a mesa por uma militar de meia idade, séria e compenetrada.

“Obrigado”, disse o homem, enquanto a mulher se retirava, fechando a porta.

“Então…”, continuou ele. “Você se acha suficientemente surpreso e intrigado com o que eu lhe contei e mostrei até agora?”.

Eu não conseguia responder.

Ele sorriu, fechou os olhos e disse, sem disfarçar a dor que dilacerava seu peito: “Só que o mais espantoso e assustador vem agora… Está aqui…”.

E ele bateu a mão direita três vezes sobre a pasta:

“Na caixa-preta”.

Nossos olhares se cruzaram de novo e ele me perguntou:

“Está preparado?”.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA (OU NÃO).

Flávio Marcus da Silva – HP: www.nwm.com.br/fms

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República Dominicana - Parte I / JOSÉ ROBERTO PEREIRA

Diário em Terras Estrangeiras III - República Dominicana - Parte I

Era alta madrugada quando o avião levantou voo no Aeroporto Internacional de Confins. O céu escuro estava salpicado de estrelas e, ao longe, com algumas nuvens espaças, bem finas. Um tímido clarão se desenhava lá pela região centro-oeste do estado. O avião voava em direção a um escuro sem fim. A manhã que nascia delicadamente tentava alcançar o avião que nos levava. Fiquei por um longo tempo olhando aquela paisagem surreal. Por fim, abandonei-me ao sono. Acordei. Dormir novamente. Acordei e só fui despertar de vez quando a aeronave, em sua rota rumo a uma escala no Panamá, sobrevoava o Oceano Atlântico. Creio que estávamos no meio da tarde e, devido ao fuso horário panamenho, duas horas a menos em relação ao fuso horário brasileiro, fiquei um pouco confuso sobre a pontualidade das horas. Sentia uma leve tonteira, não sei se pelo sono que ainda me rondava ou se pelo encanto que as paisagens panamenhas, vistas da pequena janela do avião, me causavam. Esforcei-me para tentar visualizar o famoso Canal do Panamá, sem sucesso. Enxergava apenas pequenas embarcações pesqueiras, navios cargueiros e ilhotas cercadas por um mar de cores esverdeadas e azuis.

O avião pousou em solo panamenho e, minutos depois, Paulo e Jainer, meus amigos de viagem, e eu seguíamos rumo a República Dominicana. Sobrevoamos por mais de duas horas o Oceano Atlântico, passando pelo trecho onde ele se encontra com o Mar do Caribe. Do alto, esse gingante de águas salgadas e profundas já se mostrou deslumbrante com seus diversos tons de azul claro.

Pousamos no Aeroporto Internacional de Punta Cana, na região norte da ilha. A diferença de fuso horário na República Dominicana era de uma hora a menos em relação ao horário oficial do Brasil. Nas circunstâncias, nem olhando relógios que mostravam os números eu saberia dizer que horas, realmente, eram.

As paisagens dominicanas pareceram-me semelhantes a algumas paisagens do estado da Bahia. A diferença do lugar estava apenas na língua e no ritmo musical que nos recebeu ao desembarcamos: o merengue, um dos maiores patrimônios culturais daquele país que nos acolhia. Ao darmos entrada na documentação para entrarmos no país, uma série de contratempos (os quais não vem ao caso descrever aqui) nos fizeram perceber o rigor das leis dominicanas para com estrangeiros. O país está entre os mais procurados para o turismo sexual, para turismo visando uso de entorpecentes e contrabando de espécies nativas, o que talvez justifica o fato de terem aberto nossas malas em pleno saguão do aeroporto e de nos submeterem a procedimentos desconfortantes. Após passarmos por esses entraves, finalmente entramos na van que nos aguardava para nos levar ao nosso destino: um charmoso resort em uma praia paradisíaca na famosa ilha Hispaniola, descoberta por Cristóvão Colombo em 1492. Hispaniola significa pequena Espanha, homenagem de Colombo à Espanha. Antes ela era chamada de Quisqueya pelos índios taínos e caraíbas que a habitavam. Após o processo de colonização, a ilha sobreviveu a invasões bárbaras, a terremotos, furacões, tempestades tropicais e conquistou sua independência, definitivamente, em 1865.

A van seguia do aeroporto para o hotel por estradas recém-construídas e sem nenhuma placa de sinalização. Nenhum motoqueiro que passou por nós durante o trajeto, que durou aproximadamente trinta minutos, usava capacete. Algumas motocicletas carregavam três, quatro passageiros… Um inacreditável número de equilíbrio de circo mambembe. Vários veículos sucateados transitavam milagrosamente sem problemas mecânicos e aparentemente sem nenhuma dificuldade imposta por leis de trânsito (se é que existem leis de trânsito por lá). Ao longo do caminho, pouquíssimos casebres eram vistos, o que atestava o quanto a região norte ainda é desabitada. Entramos por várias “quebradas” até que, finalmente, um magnífico hotel nos saltou aos olhos. Impressionantemente belo e imponente, com uma paradisíaca praia ao fundo. Porém, logo atestamos que todo paraíso tem lá suas limitações e complicações…

Os primeiros dias no magnífico resort não foram nem de perto o combinado aqui no Brasil. Trocamos de quarto umas quatro vezes devido a problemas com chuveiro, torneiras, esgoto etc. A direção do hotel achou por bem nos colocar em uma suíte presidencial, de frente para o mar, depois que ameaçamos voltar imediatamente para o Brasil. A partir daí, sim, desfrutamos as férias que tínhamos planejado: mar azul, restaurantes com culinária internacional, gigantescas piscinas com hidromassagem, spa, bar molhado, buffet vinte e quatro horas à disposição, diversos tipos de bebidas, jardins tropicais com flamingos e patos nativos de encher os olhos etc etc e etc… Tudo All Inclusive. Punta Cana, atualmente, é a “menina dos olhos” de turistas de todo o mundo, devido aos preços baixos e aos cenários naturais de indescritível beleza.

Após desfrutar dessas maravilhas, tomei um ônibus rumo à capital Santo Domingos para conhecer boa parte do país e da ilha. Era madrugada de uma quarta-feira e caía uma fina chuva tropical. Deixei meus amigos, Paulo e Jainer, submersos em um sono profundo, em um quarto de hotel em Punta Cana, e fui rumo ao desconhecido…
(Publicado no Jornal Diário de Pará de Minas, dia 28 de maio de 2011.)

…Continua.

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ARLINDA (No tempo dos cruzados novos)/Terezinha Pereira

Numa tarde de maio, quando o tempo de frio ameaçava chegar, Arlinda recebeu um telegrama. Foi o primeiro de sua vida. Leu o escrito sem compreender o que dizia. Dobrou-o com o cuidado que tinha com coisas importantes e colocou-o em cima da cristaleira. O filho, quando chegasse de suas andanças desnorteadas, podia lhe explicar porque a CAIXA havia-lhe enviado aquilo.
Tudo o que obtivera em toda a sua existência estava guardado na CAIXA. Era com os juros desse dinheiro que inteirava sua minguada pensão. Tinha que comer e comprar remédio para Paulo, que ficara doente da cabeça aos dezoito anos.
Arlinda casara-se com quarenta anos e enviuvara-se logo após o filho nascer. O amado marido, com quem vivera apenas três anos, fora para ela um perfeito companheiro. E, desde o dia que, de repente, ele morreu, ela passou a privar-se dos prazeres da vida. Do marido, havia herdado uma casa de seis cômodos e a pensão do INSS para cuidar de si e do menino de dois meses. Menino que se tornou no motivo único de alegria e riso daquela mulher magra, olhos espertos, pele clara cheia de sardas, cabelos lisos aparados bem curtos, rosto lavado.
Ano a ano, Arlinda lutou para dar ao filho uma vida decente. Lavava, passava, fazia quitanda. Inteligente, estudioso e trabalhador, Paulo, aos dezoito, com louvor, concluiu o segundo grau. Teve de deixar o vestibular para mais tarde. A ideia da mãe era a de venderem a casa para se mudarem para uma cidade onde houvesse Faculdade de Direito. Desde cedo, Paulo sonhava estudar para advogado. Deixar a mãe morando só, nem pensava ele. Ele não fazia parte de turmas de amigos, não ficava na rua até varar madrugada nem frequentava bares ou discotecas. Ficava por conta de seu trabalho com a mãe e dos estudos. O que Arlinda e o filho não poderiam supor é que precisariam vender a casa por razão bastante diversa.
Enquanto esperava pela mudança, Paulo arranjou um emprego numa empresa de computação. Dedicava-se. Varava noites trabalhando com prazer. Até que um dia foi tomado por uma estranha doença que o deixava horas, às vezes dias, perdido no tempo. Na primeira vez que teve uma ausência de memória estava trabalhando. Foi levado ao hospital. Ficou internado em observação. No dia seguinte, foi para casa. Nem se lembrava como havia ido parar no hospital.
A partir daí, veio a tormenta. O rapaz passou a ter momentos de lucidez alternados com completa ausência de memória, quando não se lembrava quem era, nem o que fazia, nem com quem falava. Afastou-se do trabalho. Passou a vagar pelas ruas, pelas redondezas da cidade por horas ou dias. Precisou ser internado várias vezes em clínica psiquiátrica.
E, nesse vai-e-vem para a capital para fazer consultas, exames, internação, acabou toda a economia que Arlinda e o filho haviam juntado durante anos para a época da faculdade. Restava a casa. Arlinda, num dos momentos lucidez do filho, sugeriu-lhe que vendessem a casa. Paulo tentou dissuadi-la da idéia. Mas, em verdade, não tiveram outra alternativa. E a casa foi na bacia das almas. Colocaram o dinheiro na Poupança da CAIXA, para gastarem apenas os rendimentos e, quando o rapaz estivesse bem de saúde, pudessem comprar outra. Passaram a morar de favor num barracão de fundos de propriedade de um primo de Arlinda. Foi então que ocorreu o bloqueio dos cruzados novos.
Era 1990. O Brasil, após anos de governo militar entrava na era de democracia. Tomara posse um jovem presidente legitimamente eleito pelo povo. Até então, o país vinha caminhando com uma inflação que cada vez mais crescia. Alimentos, remédios, eletrodomésticos, tudo passava a custar cinquenta, sessenta, até setenta por cento mais caro no mês seguinte. Uma promessa feita por todos os candidatos à Presidência da República naquela pré-eleição era acabar com o gigante da inflação.
No primeiro dia de governo, o presidente eleito, junto a sua equipe econômica, anunciou, através de cadeia de rádio e televisão, que haviam elaborado um plano capaz de, em pouco tempo, devolver o poder de compra ao trabalhador. Os salários seriam alinhados e a inflação zerada. As medidas seriam duríssimas, mas seria dado um tiro certeiro na inflação.
A partir do primeiro dia após o feriado bancário decretado para que as mudanças pudessem ser realizadas, o dinheiro circularia com o nome de cruzeiro. Cada titular de conta bancária poderia sacar até cinquenta mil cruzeiros de sua conta. A identificação do titular seria pelo seu CPF. O restante do dinheiro de cada titular-CPF ficaria bloqueado como o nome anterior da moeda que era o cruzado novo. O valor bloqueado seria corrigido, se houvesse inflação e devolvido ao próprio dono, após dezoito meses, em doze parcelas. (Será que havia acabado, realmente, a ditadura no Brasil?) Arlinda deu-se conta de que haviam ficado sem a casa e quase sem dinheiro nenhum. Sua pensão da previdência não dava para comida, passagens, táxi e remédios. E não dispunham mais dos rendimentos da caderneta de poupança.
Naquela época, o moço permanecia internado numa clínica da capital por alguns dias, melhorava e voltava para casa. Quando manifestava novas crises era de novo internado. Arlinda e Paulo haviam aberto diversas contas conjuntas, com dias limites diferentes e cada um deles acabou sacando mais de cinquenta mil cruzeiros em suas contas. Quando a CAIXA fez a junção de contas de mesmos titulares pelo CPF, o fato foi constatado. E foi por essa razão que a CAIXA enviara à Arlinda o tal telegrama. Solicitava o comparecimento dela e de Paulo na agência para reporem o valor que haviam retirado a mais do que o permitido pela recente mudança. Ela não conseguiu entender. Estavam proibidos de gastar o seu próprio dinheiro! Valor resultado das economias de toda uma vida e da venda da única e simples casa que haviam recebido em herança. “Como é que podem fazer isso com uns pobres coitados como nós?” Era o que Arlinda queria compreender.

*****

_ Moça, recebi este telegrama. _ disse Arlinda à atendente da CAIXA. Meu filho explicou que estão pedindo para devolvermos dinheiro a vocês. Ele entendeu direitinho. Ele é doente, mas quando está bom entende bem o que lê. Mas esse dinheiro é nosso, moça. Era nosso. Já gastamos todo. Olha aqui.
Dizendo isso, a mulher pegou um saco plástico e foi retirando de dentro um bolo de receitas médicas, guias de internação, atestados. Esparramou tudo em cima do balcão.
_ O dinheiro, moça, gastamos foi com remédios, comida, passagens de ônibus para a capital, porque não é todo o dia que a prefeitura fornece condução.
Arlinda contou a história da doença do filho à funcionária da CAIXA, que a ouviu com atenção e coração partido. Não podia fazer nada. A ordem havia saído do novo Governo. Naquele tempo, A CAIXA e quase todos os bancos, ainda sem apoio de modernos recursos da informática e diante do inusitado fato de terem de trabalhar com duas moedas diferentes ao mesmo tempo_ o dobro das contas existentes em cada agência, tiveram poucas horas para se organizarem. As contas de Poupança, por não serem movimentadas por cheque, haviam sido abertas pelos titulares com documento de identidade, carteira de trabalho e até mesmo sem documento nenhum. A maior parte dos clientes de poupança nem tinha o CPF cadastrado. Foi um deus-nos-acuda Um trabalho artesanal, regularizar todas as contas, juntá-las por CPF numa conta única e verificar o valor que cada cliente havia sacado. E, juntadas todas as contas de um mesmo CPF, tendo sido constatado saque de valor superior aos cinquenta cruzeiros permitidos pelo Governo, o cliente era convidado a comparecer ao banco e devolver o valor retirado a maior para ficar bloqueado como Cruzados novos.
Naquele momento, o que a moça pôde fazer foi pegar a ficha das contas e mostrar à Arlinda que ela e o filho, juntos, haviam feito saques de valor maior do que o permitido pelo novo Governo. Democrático. Eleito pelo povo. E ainda por cima, reforçar que, segundo instruções superiores, eles deveriam repor o valor da diferença.
_ Pode mandar me prender, moça. Dinheiro, não temos mais. Estamos é precisando. Estamos morando de favor. Se eu tiver que ficar presa não vai fazer diferença. A gente mora apenas num barraco de quarto, sala, cozinha e banheiro. E o Paulo passa a maior parte do tempo internado em hospital psiquiátrico.
Desolada, a mulher juntou seus papéis no saco de plástico e saiu. Em vista de tanta tristeza, a moça havia-lhe sugerido que poderia escrever uma carta contando tudo o que ela estava passando, juntar receitas, atestado médico, que ela enviaria à administração da CAIXA, que a encaminharia ao Ministério da Fazenda para analisarem o caso.
Passado algum tempo Arlinda voltou à Caixa.
_ Escrevi a carta, moça. Aquela ministra que fica explicando as coisas na televisão não haverá de reparar. Não terminei o curso primário. Escrevi do jeito que falo, mas expliquei bem certo porque tirei o dinheiro, você sabe. Se o Paulo estivesse bom nesses dias, veria que carta bonita ele iria escrever no computador. Os xerox das receitas e dos atestados, olha aqui. Está tudo junto.
Engasgada, a moça pegou a carta manuscrita em duas folhas de papel almaço e a papelada que Arlinda lhe entregou. Colocou tudo dentro de um envelope. Disse a ela que encaminharia a correspondência naquele mesmo dia e que desejava que o Ministério da Fazenda lhe enviasse uma resposta satisfatória. E foi o que fez.
_ Você me disse para procurar um advogado, moça. Não vou fazer isso. Esse dinheiro já nos deu muita amolação. Também não confio em advogado e em mais ninguém. Quem sabe a dona Zélia terá, um pouquinho só, de dó de nós e deixará a gente retirar o resto. Pedi isso pra ela na carta. Se pelo menos o Paulo estivesse trabalhando! O dinheiro que recebo da pensão mal dá pra gente comer. E os remédios? E casa pra morar? Será que vamos ter de ficar morando de favor para sempre? Estamos passando muita dificuldade. Foi muita ruindade o que esse presidente novo e essa ministra faladeira fizeram com o povo.
Após aquele dia, vez ou outra Arlinda ia até a CAIXA para saber se haviam-lhe enviado uma resposta. Quando fez um ano que ela havia mandado a carta, ela comentou com a moça que ainda não recebera nenhuma comunicação da ministra, nem havia sido presa e que o filho não estava nada bem.

*****

Em agosto de 1991, a chuva parecia haver-se esquecido de que tinha a tarefa de cuidar das plantas. Tudo que era verde estava seco e cor de terra. Um vento sem nenhuma umidade foi chegando, encarregando-se de levar para as ruas da cidade folhas e galhinhos carbonizados, provenientes das serras próximas atingidas pelas queimadas. Quando a chuva veio, durou uns dois dias e foi cuidar de outras terras.
Na estiada, uma mulher saiu pelos pastos para catar dos gravetos sobrados das queimadas. Junto com a lenha encontrou um corpo carbonizado, já em decomposição. Um corpo que acabou sendo reconhecido por uma senhora que há dias procurava o filho doente da cabeça que estava sumido. Ao ver aquele corpo todo queimado, desfigurado, a mulher disse que, por infelicidade, era o corpo de seu filho. Que uma mãe seria capaz de reconhecer um filho até por uma unha.
Tempos depois, mais magra, mais abatida, envelhecida, olhar cansado, sem brilho, sem esperança, Arlinda procurou a moça na CAIXA. Os cruzados novos já estavam liberados.
_ É isto que tenho? O dinheiro e a casa, o homem levou. Meu filho, moça, foi Deus quem levou. Com o fogo. _ Foi o que disse Arlinda quando a moça da CAIXA informou-lhe o saldo de suas contas.
Sem deixar a moça dizer nada, contou-lhe o que havia acontecido com o filho, deu-lhe as costas e saiu. Passados dois meses, a moça soube que Arlinda havia morrido.

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11.3.11

COCORICÓ - José Roberto Pereira

José Roberto Pereira

Quando os primeiros raios do sol atingiram o telhado do galinheiro, um vento leve passou, levantando uma fina camada de poeira, o galo pedrês cantou pela quarta vez. A galinha garnisé, sentindo as primeiras contrações para botar seu ovo, percorreu todos os caixotes onde ficavam os ninhos, nenhum disponível. Todas as galinhas resolveram colocar seus ovos no mesmo horário, congestionando o galinheiro. Alguns ninhos tinham até fila de espera.

A galinha garnisé começou a suar frio, estava muito apertada para botar seu ovo, o primeiro daquela temporada. Andou mais uma vez por toda a extensão do galinheiro. Nada. Rodopiou sem sair do lugar, depois caminhou até o final da fileira de ninhos, numa última tentativa desesperadora de encontrar um que estivesse vago. Deu de bico com sua amiga, a galinha carijó, que estava na mesma situação. As duas começaram a cacarejar para que alguma galinha deixasse o ninho, mas nada; as filas só aumentavam.

Foi nesse instante que a galinha garnisé olhou à sua volta e percebeu que, entre a parede do galinheiro e último caixote, havia um espaço aconchegante e seguro para colocar seu ovo. Caminhou até ele, olhou e ficou encantada.

__ Como nenhuma galinha tinha visto aquele lugar entre a parede e o último caixote? – cacarejou baixinho. Não pensou duas vezes e se acomodou naquele espaço ideal para o que precisava. Ajeitou-o um pouco com a ajuda dos dois pés, arrancou umas penas do corpo e fez um ninho lindo. Após alguns minutos, colocou ali o primeiro ovo de uma futura ninhada.

Depois saiu dali cantando afinadíssimo de tão feliz e aliviada que estava. Deu de bico novamente com sua amiga galinha carijó, que ainda estava à procura de um ninho. Sem titubear um segundo, a galinha garnisé ofereceu à amiga o lugar seguro que tinha encontrado para que ela também colocasse os ovos dela lá. A amiga agradeceu e entrou naquele lugar ainda não notado pelos outros moradores do galinheiro e se aliviou.

O sol caminhou por todo o terreiro até que se escondeu atrás do pé de manga, avisando aos galináceos que era hora de se recolher no poleiro do galinheiro para passar a noite. Nenhuma estrela se apagou durante a noite toda. Só quando o sol começou a nascer é que elas foram embora. A agitação no galinheiro recomeçou. O congestionamento era gigantesco, um bando de galinhas já estava posicionado em fila indiana de frente para os caixotes para colocar seus ovos nos ninhos. O barulho era ensurdecedor, todas cantavam cocoricó ao mesmo tempo, quando, de repente, as duas amigas passaram cacarejando calmamente em direção ao último caixote com ninho. Em pouco tempo, as duas tinham colocado seus ovos num ninho que nenhuma penosa conhecia. Com o ninho cheio de ovos, não demorou para serem descobertas. A cena indignou boa parte dos habitantes do galinheiro. Um mar de intrigas se formou.

_ Um ninho exclusivo para as duas – disse uma galinha preta, indignada.

_ Como elas encontraram aquele espaço? A dona do galinheiro não recolheu os ovos delas? – falou uma galinha gorda de cor branca.

_ Certamente a dona do galinheiro não sabe da existência daquele ninho! – comentou o galo pedrês, sem saber que havia colocado mais lenha na fogueira.

_ Como assim? Quer dizer que elas vão chocar aqueles ovos? E nós? E nós, que temos nossos ovos recolhidos todos os dias? – gritou uma galinha de pernas penudas.

_ Se isso acontecer, eu me depeno! – ameaçou a mais magra das galinhas.

Daquele dia em diante, só se cacarejava sobre o ninho cheio de ovos, escondido atrás do último caixote do galinheiro. O galo pedrês não teve mais sossego. A todo instante, vinha uma, duas, meia dúzia, um bando e meio de galinhas reclamando da situação. O que mais pesava nas reclamações era o fato de que a dona do galinheiro ainda não tinha descoberto o ninho repleto de ovos brancos e azuis.

Os dias passaram ligeiros. As duas amigas de ninho entraram no período de chocagem. A inveja pairava sobre todas as outras penosas. O galo pedrês tentava manter a calma, disfarçando sua satisfação de ver aquela ninhada de ovos prontos para serem chocados e de saber que, posteriormente, veria seu terreiro cheio de pintinhos. Quando as duas finalmente terminaram de colocar seus últimos ovos (elas que, durante todo aquele tempo, confessaram uma à outra os seus mais íntimos segredos), empacaram no entrada do ninho com uma dúvida cruel: qual das duas iria chocar os vinte e dois ovos brancos e azuis? Uma a uma, cada galinha, com o bico cheio de intrigas, se aproximou, esperando o desfecho daquele conto de fadas de penosas. As duas amigas que dialogaram tanto durante todo o tempo em que dividiriam o ninho estavam mudas, sem terem ideia de como resolver o impasse. Chocar os ovos juntas não poderiam porque tinham temperaturas diferentes e isso comprometeria a gestação dos pintinhos. Dividir os ovos no ninho não seria possível porque no espaço não cabiam as duas. Um silêncio nunca ouvido antes no galinheiro se formou. Foi nesse momento que o galo pedrês, escondendo sua frustração de não poder ver pintinhos correndo no terreiro, quebrou o silêncio e disse:

_ É. Podem até botar ovos juntas, usar o mesmo ninho, dividir os mesmos segredos. Mas e agora? Quem vai chocar os ovos?

Nesse momento, a dona do galinheiro entrou porta adentro, olhando ressabiada aquela aglomeração de penosas.

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4.3.11

Labaredas na escuridão/ FLÁVIO MARCOS DA SILVA

A casa ficava numa rua estreita e escura do centro histórico da cidade. Ali, num passado recente, àquela hora da noite, bêbados e mendigos dividiam as calçadas com prostitutas desesperadas, que ofereciam seus corpos a qualquer um que passasse, muitas vezes em troca de um pão bolorento ou de um prato de sopa. Naquela noite, porém, ao caminhar pelo passeio à procura do endereço que eu trazia rabiscado num pedaço de papel, só vi sacos de lixo rasgados por cães famintos, garrafas quebradas e um gambá morto em avançado estado de putrefação. O resto era silêncio e sombras. Na mochila eu levava um caderno de anotações, uma garrafa de água e três folhas soltas de um livro há muito desaparecido.

A casa tinha dois andares e parecia abandonada: vidraças quebradas, pichações, pintura descascada e mofo nas paredes davam a impressão de que ali eu só encontraria ratos, baratas e morcegos [e talvez alguns fantasmas]. Mas o professor Fábio tinha me garantido que o ex-vereador Alípio e seu filho ainda viviam na casa, e que o livro que eu procurava, se existisse, provavelmente estaria na biblioteca.

Na entrada, acima da enorme porta de madeira maciça, esculpido em pedra sabão e já quase completamente tomado pelo mofo, o ano 1813. Bati três vezes. Pela fresta vi que uma luz mortiça, quase imperceptível, iluminou o interior. Logo em seguida, um grito raivoso ecoou como um trovão pela casa até os meus ouvidos: “Quem está aí?”. A voz não parecia ser a de alguém com quase noventa anos, por isso deduzi que fosse do filho. Respondi: “Sou amigo do professor Fábio, que trabalhou com o senhor na faculdade”. Silêncio. O homem devia estar decidindo o que fazer [ou simplesmente amaldiçoando a vida por ter lhe trazido uma visita indesejada àquela hora, obrigando-o a interromper sua insônia em meio aos livros, enquanto o pai talvez dormisse o sono artificial dos doentes terminais, dopado com morfina e tranquilizantes].

A porta se abriu pela metade e o homem que me encarou com um olhar suspeito, pouco convidativo, não devia ter mais que 50 anos. Era alto, magro, grisalho, com o cabelo cortado bem curto. Vestia uma camisa branca de algodão e uma calça social bastante surrada. “O que você quer?”, ele perguntou. Sem dizer uma palavra, abri minha mochila e tirei uma folha do livro que eu procurava. Ele a pegou, olhou-a atentamente e sorriu. “Você só tem isto?”. Tirei as outras duas folhas da mochila e respondi: “Só isto”. Ele não quis pegá-las. Abriu a porta e me convidou para entrar.

O interior da casa não tinha nada a ver com o exterior. O que do lado de fora parecia desleixo e abandono, no interior se transformava em aconchego, limpeza e simplicidade.

Ele me indicou um sofá na sala e foi à cozinha preparar um café.

O que eu sabia sobre o ex-vereador Alípio era só o que minha mãe tinha me contado uma vez, aos sussurros, na mesa de jantar, enquanto baixávamos uma garrafa de vinho tinto e meu pai roncava alto no quarto, com a televisão ligada.

Ela me disse que no início da década de 1960 ele era um vereador combativo, articulado em seus discursos, e que foi muito perseguido por apoiar o presidente João Goulart na cidade, onde a maioria das pessoas era radicalmente contra a reforma agrária, por razões óbvias.
Defendida pelo presidente Goulart em seus discursos inflamados na capital do país, a reforma da estrutura fundiária nacional era também um tema recorrente nos pronunciamentos do vereador Alípio durante as sessões da câmara municipal. Por isso [e também por ser contrário à perpetuação de duas importantes famílias no poder local, com toda a sua corja de parasitas sugando o dinheiro público sem trabalhar] ele foi violentamente perseguido: recebia ameaças de morte todos os dias; pedras eram arremessadas nas vidraças da sua casa, onde também muros e paredes eram pichados com palavrões e boatos envolvendo sua esposa e seu filho [diziam que ele espancava o menino e a mulher sem piedade e que praticava rituais de magia negra]; todos os sábados, o vigário local organizava passeatas anticomunistas pelas ruas da cidade, durante as quais a população gritava sem parar, com os punhos erguidos: “Fora Alípio comunista!”, “Fora Alípio comunista!”…

Os meios de comunicação locais, que pertenciam às duas famílias mais ricas da cidade [que se revezavam no poder], não deixavam passar um mínimo deslize do vereador, que era apresentado ao público como um político despreparado, incompetente e louco.

O golpe militar de 1964 encerrou sua carreira definitivamente. Alípio se recolheu, com a esposa e o filho, à velha casa da família [construída no início do século XIX], passando a viver unicamente da sua aposentadoria e do que a mulher ganhava como costureira.

Nem para ir ao enterro da esposa, alguns anos depois, ele saiu de casa. Vivia recluso, juntamente com o filho, em meio a livros e jornais que ele recebia do mundo inteiro.

“Meu pai era muito amigo do autor deste livro”, disse o filho do ex-vereador ao me entregar uma xícara de café bem forte e se sentar no sofá à minha frente. “Na verdade, quem o escreveu não foi o advogado criminalista que tem seu nome publicado na capa como sendo o autor do texto [e de quem meu pai era amigo]. Foi um jovem estudante de jornalismo, muito talentoso, que foi contratado pelo advogado para escrever o livro”.

Até ali, nada de novo para mim. Eu sabia também que o contrato firmado entre os dois obrigava o jovem escritor fantasma a distribuir um exemplar do livro a todas as pessoas que fossem ao velório do advogado e a queimar os exemplares restantes. Ao que tudo indica, foi exatamente isso que ele fez.

O livro causou uma onda de choque muito grande. No próprio velório, vários exemplares foram rasgados na frente da viúva e de suas três filhas, inclusive o que tinha sido entregue ao meu pai, que chegou a gritar um palavrão antes de abandonar o salão, com lágrimas nos olhos. Quem me contou isso foi minha mãe. Ela estava lá e viu como as pessoas reagiam à leitura do texto: algumas choravam pelos cantos; outras gritavam insultos, com os olhos em chamas, apontando para o caixão; o próprio padre, ao ler algumas passagens do livro, deixou-o cair aos pés do enorme crucifixo que dominava uma parte da cena e saiu do velório em silêncio, sem nem encomendar o corpo. Minha mãe só observava, e ao ser arrastada pelo meu pai em direção ao estacionamento, trazia dentro da bolsa o seu exemplar, com a intenção de lê-lo mais tarde.

“Você sabe me dizer por que ninguém hoje reconhece ter um exemplar ou uma cópia do livro, ou ousa falar sobre o que ele continha?”, perguntei ao homem à minha frente. Ele sorriu. “Pelo visto você já conhece muita coisa sobre a história desse livro e está curioso quanto ao seu conteúdo, não é?”. Diante dessa pergunta eu apenas fiz um sinal afirmativo com a cabeça. Ele me entregou a folha que eu tinha lhe mostrado na entrada e perguntou: “A pessoa de que trata esse fragmento é o seu pai?”. Mais uma vez fiz que sim com a cabeça.

Minha mãe leu o livro no mesmo dia do enterro, trancada no banheiro. Chorou muito, e, depois, tomada de uma emoção confusa, que ia do ódio à compaixão, arrancou as três únicas folhas que se referiam ao meu pai e à família dele, dobrou-as cuidadosamente e guardou-as na biblioteca, dentro de um livro que ficava numa prateleira bem alta, de difícil acesso: O emblema vermelho da coragem, de Stephen Crane. Em seguida ela foi ao quintal e queimou o livro do advogado na churrasqueira. Meu pai a olhava do andar de cima, com o rosto pálido e cansado, como se dez anos tivessem se passado naquele único dia. Seus olhares se cruzaram e ele se afastou em silêncio [um silêncio que dura até hoje].

Tudo isso ela me contou depois, numa outra rodada de vinho pela madrugada, após eu ter lhe mostrado as três folhas que eu tinha encontrado dentro da obra de Crane.

“Meu pai também esteve no velório…, como você já deve saber…”, disse o filho do ex-vereador, saboreando seu café.

Eu sabia.

Naquele dia, o ex-vereador Alípio abandonou sua clausura e foi se despedir do velho amigo. Ao chegar, recebeu das mãos do jovem escritor um exemplar do misterioso livro de memórias, que ele folheou com prazer. Algumas pessoas já tinham lido um ou outro trecho e se retirado; outros continuavam ali, parados, tomados pelo espanto, segurando seus exemplares abertos em alguma página específica. Ninguém nem percebeu que a chegada do ex-vereador era por si só um fato inusitado, surreal, depois de tantos anos que ele tinha permanecido fechado em sua casa, quase sem nenhum contato com o mundo exterior, a não ser através de livros e jornais.

Mas a indiferença durou só até ele começar a gargalhar, com seu livro aberto junto ao peito, atraindo para si todos os olhares [assustados, ferozes, indignados]. Seu riso estrondoso era uma afronta não só à viúva e suas filhas, mas aos presentes em geral, feridos e humilhados pelas palavras impressas naquele livrinho que, até hoje, muitos anos depois, nesta sala sombria onde escrevo este relato, me dá calafrios na espinha.

Estou olhando para ele agora…

Na capa marrom desbotada, o título em letras douradas se destaca, expressando, a meu ver, uma dor infinita:

Labaredas na Escuridão.

Pará de Minas, 24 de janeiro de 2011

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12.2.11

Cisne Negro e O Lago dos Cisnes/ Terezinha Pereira

Era uma vez… Se o leitor quiser fundo musical, coloque “O lago dos cisnes”, de Tchaikovsky.

Odete era uma linda jovem que vivia alegre no campo com sua família. Um dia, um feiticeiro que morava na região encantou-a na forma de um cisne branco. Assim sendo, durante o dia, ela era a rainha dos cisnes e à noite voltava a ser a bela moça.  

Como podia a mãe de Odete aceitar tamanha desventura? Desolada, sem saber o que fazer, ela caiu num choro demorado. E chorou, chorou… Chorou dias e noites. Derramou tantas lágrimas que deram para formar um lago cristalino num vale que havia nas proximidades da casa. Durante o dia, quem passasse pela região avistava, à beira do recente lago, um belo cisne coroado, quem sabe o mais belo cisne que já havia visto.

Com o tempo, outros cisnes foram chegando por ali. Eram moças da redondeza também encantadas pelo feiticeiro. Os que conheciam o feiticeiro contavam que ele tinha uma filha de nome Odile e que, segundo ele dizia, em breve, ela se casaria com aquele que seria o rei daquele país. Presumia o bruxo que, enfeitiçando as moças daquela terra, o príncipe acabaria se encontrando com sua filha. 

Chegou o dia do aniversário de 21 anos do príncipe e, conforme estava determinado desde que ele nascera, durante a festa de comemoração, ele escolheria entre as convidadas aquela que seria sua esposa. Entediado com tal obrigação, o príncipe saiu para caçar com seus amigos. Havia ganhado um novo conjunto de arco e flechas e queria experimentá-los. Cavalgando pelo campo, os caçadores acabaram se deparando com o recente lago e o príncipe logo foi atraído pela elegância dos cisnes que estavam lá a mergulhar. Num instante, ele viu-se atraído por um cisne que usava uma coroa na cabeça. 

Impressionado com a beleza do lugar, o príncipe decidiu parar por ali para descansar. Acomodou-se e pediu aos amigos que não atirassem suas flechas. Em pouco tempo, o sol se põe e de repente o lago dos cisnes fica rodeado de belas moças vestidas de branco. Então, uma jovem de rara beleza se dirige ao príncipe e lhe conta sobre o encantamento. De dia, ela e as companheiras eram cisnes e de noite voltavam a ser as moças que eram antes. E que havia apenas uma forma de ela se tornar mulher para sempre. Para isso, ela teria que se casar com um moço que lhe fosse fiel para sempre.

Enquanto conversava com a moça, o príncipe se viu perdidamente apaixonado. A noite foi passando e quando chegava a hora de o sol iluminar o dia, o príncipe agiu ligeiro. Disse-lhe que ela era a sua escolhida convidou-a para festa que seria dada no castelo na noite seguinte.

            O feiticeiro, ah, o feiticeiro. Aquele era o seu tão esperado dia. Não seria aquele cisne coroado que haveria de lhe atrapalhar. Seguro de que restavam poucas moças casadouras naquele reino, usou de sua magia e fez com que a filha Odile se tornasse semelhante a Odete. Comprou-lhe um belo traje a rigor e conduziu-a para a festa com a obrigação de conquistar o príncipe.

            Naquela noite, o castelo recebeu a mais bela decoração de todos os tempos. Acompanhadas de suas famílias, as candidatas a princesa chegavam, cada uma mais suntuosa do que a outra. De braços dados com o pai feiticeiro vestido para uma cerimônia real, chegou Odile, toda faceira, certa de que aquele era o seu esperado dia. O príncipe, que havia visto a amada apenas uma vez e sob o clarão da lua, acreditou que aquela fosse a moça cisne. Dirigiu-se a ela e lhe fez juras de amor eterno. Nessa hora chegou Odete. Ao vê-lo sorridente a dançar, sente-se traída. Como podia ser? Seu encanto nunca seria quebrado… Num momento, o príncipe percebe o olhar desolado da moça que acabava de chegar e sente que havia jurado amor eterno a uma pessoa errada.

Ao ver a troca de olhares, o feiticeiro pressente que o maior negócio de sua vida estava prestes a se arruinar. Então, aproveita de sua força para fazer com que Odete desapareça do salão voando pela janela. O príncipe, ao ver a amada naquele voo, corre até a janela e se atira atrás dela. Pede-lhe perdão e, juntos, caminham até ao lago dos cisnes.À beira do lago, o príncipe lhe faz juras de amor eterno. No entanto, ela sabendo que estava condenada a ser cisne para sempre por causa do encantamento, em desespero, pula dentro do lago. O príncipe a segue, pois nada mais lhe importava. Se o amor não podia ser realizado, ele morreria junto com a amada.

Dizem que, neste momento, o feiticeiro perdeu todo o seu poder e todas as companheiras do lago se tornaram livres do feitiço. Elas contaram que, ao amanhecer, meio a uma suave neblina, viram os espíritos dos apaixonados sobrevoando o lago.

Caro leitor, este é um conto de fadas alemão, dizem, atribuído a E. T. A. Hoffmann. Casos de amor impossível narrados pela literatura passam a fazer parte do imaginário popular, não é mesmo? Acabam inspirando as mais diversas manifestações de arte. O conto “O Lago dos Cisnes” serviu de inspiração para a música de Tchaikovsky (Rússia, 1840-1893) que a compôs para um balé, em 1876, por encomenda do “Teatro Bolshoi de Moscou” e que foi representado no ano seguinte sem fazer sucesso. Pelos registros da mídia, a companhia de dança escolhida não conseguiu interpretar bem a peça. A não ser a música, bailarinos, coreografia, cenografia e orquestra, novidade implantada no balé por Tchaikovsky,  nada agradou ao público. Assim, a peça ficou de molho por quase 20 anos. Em 1895, depois da morte de Tchaikovsky, com a coreografia de Marius Petipa e Lev Ivanov e sob a supervisão de um dos irmãos do compositor, uma nova montagem foi encenada no Teatro Marinsky, em São Petersburgo e fez enorme sucesso. A partir desta data, “O Lago dos Cisnes tem sido interpretado no mundo inteiro sob as mais diversas concepções de diferentes diretores. Ao longo dos tempos, os enamorados têm seus destinos diversos do que ocorre na peça original. Sendo que em algumas delas os enamorados são destinados a serem “felizes para sempre”. Segundo conta-se, Odile, a filha do feiticeiro, não teve a forma de um cisne negro na concepção de Tchaikovsky e somente surgiu nas apresentações de “O Lago dos Cisnes” na década de 40.

“Cisne Negro”, filme de Darren Aronofsky , 2010, traz a metalinguagem de uma nova versão de “O Lago dos Cisnes”, cujo diretor-personagem, Thomas, pretende que seja distinta da do Bolshoi. No desenrolar desse filme, dores físicas e psicológicas das pessoas envolvidas com a apresentação e principalmente da personagem Nina, bailarina que se prepara para dançar o Cisne Branco e o Cisne Negro, vão sendo mostradas ao público ao som da envolvente música de Tchaikovsky. Narrativa e música vão crescendo, crescendo até chegarem a um final esplendoroso.

Entendi o filme como uma obra de arte. Mas, não deixa de ser uma história de terror. (Lembrei-me de Hitchcock, o grande diretor-artista do cinema de terror.) O espectador, que costuma ver o balé com toda a sua leveza e exuberância, ao acompanhar as situações por que passam as pessoas que fazem parte de uma companhia de dança na preparação de um grande espetáculo, dá de cara com os mais diversos sentimentos humanos: medo do fracasso, inveja, ciúme, vingança, decepção, desespero, carinho, melancolia, tensão, alívio, êxtase. Quem o ver, verá. Sem dizer que terá a melodia de “O Lago dos Cisnes” recorrente em sua memória nos dias seguintes. Difícil esquecer.

 

               Curiosidade a respeito de Tchaikovsky e o amor:

 

Nadejda von Meck, uma milionária russa apaixonada por música, tornou-se protetora de Tchaikovsky e trocava cartas com ele, com a condição de que os dois jamais deveriam se encontrar, comunicando-se somente por cartas. E em uma de suas cartas, Tchaikovsky pinta seu auto-retrato, no que se refere ao amor: “Você me pergunta se eu conheci outro amor que não o amor platônico. Sim e não. Se a questão me tivesse sido colocada de outra forma: ‘Você experimentou a felicidade de um amor completo?’, minha resposta seria: não, não e não! Mas pergunte-me se sou capaz de compreender a força imensa do amor, e eu lhe direi: sim, sim e sim!”.

 

*****

 

Uma belíssima interpretação de “O lago dos cisnes”: Great Chinese State Circus - Swan Lake

               Great Chinese State Circus - Swan Lake

 

                       Trailer de “Cisne Negro” – Black Swan:

 

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9.2.11

CASOS DE AMOR IMPOSSÍVEL/ Terezinha Pereira

 

Romeu e Julieta (1595, William Sheaspeare), Tristão e Isolda (séc. XII, lenda tradição celta, 1ª. versão escrita por Béroul, na França), D. Quixote e Dulcinéia (1605-1615, Miguel de Cervantes), Abelardo e Heloísa (1116-1164, história real acontecida em Paris, recontada em verso e prosa pro diversos autores), Páris e Helena de Tróia (mitologia grega), Pedro e Inês de Castro (1325-1355, história real acontecida em Portugal,  contada em versos por Camões no Canto III de Os Lusíadas e em verso e prosa por diversos autores). A maioria, pura ficção. O leitor poderá se lembrar de outros casos de amor contrariado. Contudo, será por que casos de amor contrariado tanto fascinam, a ponto de atravessarem os séculos e até hoje fazerem parte do imaginário popular, como se tivessem ocorrido ma vida real?

Pretendo aqui comentar apenas dois deles, escolhidos em razão de algumas coincidências entre seus autores: Miguel de Cervantes e William Shakespeare, que viveram na mesma época e, segundo registros históricos, podem ter morrido no mesmo dia: 23 de abril de 1616. Cervantes nasceu na Espanha, foi militar e escritor. Escreveu romances, poemas e peças de teatro. Morou em Roma e participou de campanhas militares em diversas cidades da Itália lutando contra as tentativas de invasão turca no ocidente. Estudou filosofia e literatura italiana. Sua obra mais conhecida é D. Quixote (O engenhoso fidalgo D. Quixote de La mancha). Estima-se que esse seja o livro mais editado e lido no mundo, depois da Bíblia. Cervantes teria escrito parte de D. Quixote em cinco anos, num período em que esteve preso.

Ao ler o romance D. Quixote, o leitor depara-se com diversas histórias e com centenas de personagens que se cruzam com os personagens principais, D. Quixote e seu “escudeiro” Sancho Pança, em suas andanças pela  região da Mancha, na Espanha, na intenção de minimizarem o sofrimento e as injustiças por que padecem os mais fracos e necessitados. Dentre essas histórias, pode-se destacar um caso de amor contrariado, uma vez que platônico, de D.Quixote pela donzela Dulcinéia Del Toboso. Sem companheira e na necessidade de ter alguém a quem ofertar suas almejadas glórias como cavaleiro errante, D. Quixote escolheu uma vizinha camponesa, Aldonza Lorenzo,  como a donzela de seus sonhos, sem ela nada saber e lhe deu um nome de nobreza, Dulcinéia Del Toboso. Então, entre conflitos idealistas imaginários, tudo faz em nome de seu amor fantasiado. Até mesmo enfrentar cerca de quarenta moinhos de vento como se fossem gigantes inimigos, “encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia” .

Shakespeare nasceu na Inglaterra. Foi escritor de peças teatrais que são representadas até hoje nos palcos de todo o mundo. Em suas obras, ele trata dos mais profundos sentimentos humanos: ódio, ambição, ciúme, paixão… Há historiadores que registram que Shakespeare teria vivido na Itália por alguns anos como “criptocatólico”, fazendo inscrições em livros de peregrinos. Pode ser que tenha sido em razão de haver passado esse tempo na Itália que tenha escolhido cidades italianas para cenário de suas peças: Verona, Veneza, Milão, Florença, Pádua, Roma, etc.. Romeu e Julieta é uma de suas obras mais admiradas e se passa em Verona. Conta a história de um amor arrebatado entre Romeu e Julieta, jovens perdidamente apaixonados, que foram impedidos de se casarem por causa da rivalidade entre suas famílias. A narrativa termina com a morte trágica dos dois.

D. Quixote e Dulcinéia,  Romeu e Julieta são personagens de casos de amor impossível que foram escritos há quatrocentos anos e que ainda são contados! Por que será que amores certinhos, tipo “felizes para sempre” não são eternizados nas histórias? (Ficam apenas nos contos de fadas, que terminam justamente onde começa uma nova história: a que deverá ser ou não a realização do amor entre os personagens.) Nestes quatrocentos anos, D. Quixote e Romeu e Julieta foram objeto de inspiração para as mais diversas manifestações de arte: teatro, poesia, cinema, pintura, escultura, música, dança, artesanato. 

Ainda hoje, em Verona, cidade dos namorados, a “Casa de Julieta” é visitada por turistas. Pessoas com o coração despedaçado costumam deixar lá, pregados na fachada da casa, recados para Julieta, pedindo conselhos sobre seus casos de “amor contrariado”. Conta-se que todos esses bilhetes ou cartas são respondidos pelas “secretárias de Julieta”- voluntários que se propõem a perenizar uma história de amor que dura quatro séculos.

Em El Toboso, região de Toledo, Espanha, na “Casa de Dulcinéia”, casa em que Cervantes inspirou-se para criar sua personagem,  foi instalado um museu onde os turistas podem ver objetos da época em que D. Quixote perambulou pela região.

E assim, a literatura vem criando espaços reais para personagens fictícios que viveram casos de amor impossível, contrariado.

*****

“O amor eterno é o amor impossível./ Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam.” (Atribuído a Eça de Queiroz, Portugal, 1845-1900)

 

“Tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes, mas os contrariados.” (Gabriel Garcia Márquez, em Memórias de Minhas Putas Tristes. Nasceu na Colômbia, 1928.)

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23.1.11

A vida por um nada/ Terezinha Pereira

 

 

Tum…tum… tum… Sabe o que é dar a vida por um nada?

Eram três desconhecidos à mesa de sinuca. Jogavam a saideira. Então, chegou o bêbado.

_ Quero entrar no jogo _ foi dizendo e se apossando de um taco. Os que jogavam entendiam-se com o olhar. O recém-vindo, vexado, apoderou-se das bolas da mesa e atirou-as no escuro da noite. Palavra, nenhum dos três jogadores disse uma.

Entretanto… Tum…tum…tum… Três tiros secos se ouviram. Viu-se o esguichar de um repuxo de vermelho e o bêbado no chão. O trio desapareceu nas trevas. Para sempre.

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